O Papel da Arte

OS SALÕES CARICATURAIS DE ANGELO AGOSTINI

Rosangela de Jesus

Figura intrigante, crítica, política e ativa, Agostini marcou com seu traço a história brasileira. Nos periódicos pelos quais passou, ficou seu caráter militante, sua ironia e comicidade estampados nos seus comentários. Suas críticas provocaram inquietações e descontentamentos para os quais a imprensa serviu de tribuna de discussões. 

“Natal de 1877”, Angelo Agostini. Caricatura representando as “facadas” com o natal. A imagem é a primeira a ilustrar uma árvore de natal, no Brasil.

Monteiro Lobato comparou a obra de Agostini à importância de documentação histórica que tiveram os trabalhos de Debret e Rugendas. Para Lobato “[…] em nada se estampa melhor a alma de uma nação do que na obra de seus caricaturistas. Parece que o modo de pensar coletivo tem seu resumo nessa forma de riso”

Ao pensarmos em crítica de arte no Brasil, no século XIX, logo surge o nome de Gonzaga Duque Estrada, autor de uma crítica refinada, feita numa linguagem erudita. Segundo Tadeu Chiarelli, na introdução de A Arte Brasileira, o trabalho deste crítico caminhava na direção de tornar o debate artístico brasileiro tão sofisticado quanto o debate literário, cuja reflexão estava num patamar muito mais maduro que o referente às artes plásticas.

Porém gostaríamos de colocar aqui um outro nome, cuja importância no panorama da crítica de arte também deve ter sua relevância destacada, pois Angelo Agostini não foi apenas caricaturista, um homem da imprensa ou pintor, mas também um crítico bastante atuante.

A crítica de Agostini, que também considerava aspectos estéticos e formais, demonstrou uma preocupação política e militante muito forte. Além disso, seu trabalho alcançou uma importante repercussão popular. É muito provável que existisse uma intenção de repercutir da forma mais ampla possível, portanto, uma linguagem menos sofisticada ou mais popular como a caricatura poderia garantir um diálogo mais abrangente.

“Dom Pedro II dormindo…”, 1887, caricatura de Angelo Agostini.

A XXIII Exposição Geral de Belas Artes de 1875 contou com a participação de quarenta e oito artistas. Dentre estes Agostini comentou as obras de dezoito. Agora em uma única página d’O Mosquito, no número 289.

A exposição geral de 1879 foi um marco importante para a ampliação das discussões em torno das artes no Brasil. Teve um grande espaço na imprensa, e como não podia deixar de ser, também recebeu um tratamento especial da Revista Illustrada.

A exposição contou com cento e dezessete artistas dos quais cinqüenta e quatro receberam menção de Agostini, às vezes em mais de uma obra. Tiveram destaque artistas que compunham a chamada “escola brazileira”, entre os quais figurariam Agostinho José da Mota, Félix Émile Taunay, Jean Leon Palliére G. de Ferreira, Manuel de Araújo Porto Alegre, Victor Meirelles  entre outros.

A última exposição geral ilustrada por Angelo Agostini foi a de 1884, recebida e saudada com entusiasmo pela Revista Illustrada. No número 388 o periódico destaca na primeira página a exposição com uma ilustração e um viva a pintura. A exposição contou com a participação de oitenta e cinco artistas. Agostini comentou trabalho de quarenta desses expositores. Também organizou seu comentário ilustrado das obras através de seis salões localizados nas páginas centrais da revista, ou seja, doze páginas, duas por número, todavia tratadas como uma única prancha.

A exposição contou com a participação de oitenta e cinco artistas. Agostini comentou trabalho de quarenta desses expositores e   organizou seu comentário ilustrado das obras através de seis salões localizados nas páginas centrais da revista, ou seja, doze páginas, duas por número. Todavia tratadas como uma única prancha.

Dentre algumas dessas imagens podemos observar representações bastante curiosas, como retratos executados por Antônio Araújo de Souza Lobo. O leitor da revista só podia visualizar a parte posterior do quadro, onde se vê a estrutura de sustentação do quadro. E isso, porque o caricaturista não considerava as obras dignas de serem apresentadas ao público, tamanha poderia ser a vergonha e embaraço que causaria aos retratados e conseqüentemente ao artista. Certamente uma grande afronta ao artista cujo valor enquanto retratista foi totalmente questionado.

Uma outra figura que jamais recebeu a simpatia de Agostini foi Victor Meirelles de Lima. Foi alvo de diversos comentários irônicos por parte do crítico em várias oportunidades, e nos salões caricaturais não poderia ter sido diferente. Meirelles teve um tratamento bastante diferenciado, inusitado e único no tratamento dado ao seu Combate Naval do Riachuelo, pelos salões de Angelo Agostini.

O quadro foi apresentado em quatro fragmentos, distribuídos por quatro números da Revista Illustrada. O quadro foi cortado na horizontal e mostrado a partir da sua base até a parte superior, sendo que o último fragmento apresentado trouxe um comentário sobre a beleza do moldura.

“David e Abizag”, Caricatura da tela de Pedro Américo, publicada na Revista Ilustrada, 27 de setembro de 1884.

A visualização do quadro foi totalmente comprometida. Sua apresentação dispensou inclusive as ácidas legendas, recurso muito utilizado pelo crítico. Esta foi a única obra apresentada dessa forma encontrada nos salões de Agostini. Como Victor Meirelles foi sempre o anti-exemplo para o crítico, esse recurso para mostrar uma de suas grandes telas deve ter sido a estratégia de Agostini para dizer de maneira irônica que pela grandeza do quadro, este teve que ser fragmentado, para dessa forma ser colocado nas páginas da revista. Todavia, a obra quase desapareceu no meio das outras, perdeu sua grandiosidade e diminuiu a presença do artista na leitura da exposição. Além disso, a obra figura entre duas telas de Pedro Américo (Heloísa e Jacobed), a primeira tela bastante elogiada pelo crítico. Embora Américo também fosse um pintor oficial da Academia, Agostini lhe demonstrava alguma simpatia. Na questão de 1879, tomou partido pelo artista que segundo o crítico mostrava movimento e realismo em sua tela. Além disso, Pedro Américo teve muitas obras retratadas nos salões, algumas bastante elogiadas como é o caso da tela acima citada.

Somente com uma estratégia de desenho e apresentação do quadro, Angelo Agostini demonstrou seu pouco interesse pelo grande pintor de história da Academia, reservando a este um lugar muito pequeno na sua galeria.

As possibilidades de leituras e informações nos salões caricaturais de Angelo Agostini são inúmeras. Tentou-se esboçar aqui uma pequena apresentação, mas com o objetivo de despertar interesse por este material rico de informações e reflexões críticas a respeito da produção artística da segunda metade do século XIX.

Nota do site:  Esse artigo foi publicado originalmente na revista Dezenovevinte.

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