Em 1955, foi
publicado pelo MEC, Ministério da Educação e Cultura, o livro “Goeldi”
com um conjunto de 60 reproduções do artista e texto de apresentação de Anibal
Machado, escritor, ensaísta, crítico e professor. Esse livro sobre o
artista e sua obra, revela-nos sob a ótica do autor que também foi amigo de
Goeldi, a figura humana e introspectiva deste grande artista. Anibal Machado
consegue como talvez nenhum outro crítico conseguiu, revelar toda a
profundidade e compreensão da gravura de Oswaldo Goeldi bem como nos dar
subsídios para o entendimento e compreensão das circunstâncias nas quais se
consolidou sua obra e sua carreira. Acima de tudo, uma verdadeira declaração de
amor à arte deste grande mestre.

Oswaldo Goeldi: “O ladrão”, xilogravura original de
encartada no livro “Goeldi”, de Anibal Machado, 1955. Coleção privada,
RJ
GOELDI
Anibal M. Machado
Certa noite, há mais de vinte anos, numa casinha da Tijuca, chamava-me de fora uma voz irreconhecível no rumor da chuva. Abri de mau humor a janela. As rajadas de vento no rosto e a escuridão impediam-me identificar de pronto o vulto estacionado na calçada. Foi graças a um relâmpago mais demorado que distingui a figura de meu amigo. Sobre os ombros mal protegidos pela capa caía-lhe água das goteiras do chapéu . Outro relâmpago e o seu perfil de ave de rapina desenhou-se mais nítido.
– Pode me receber? Ao
menos por um minuto?
– Você, Goeldi? Mas vá entrando! A casa é sua.
A umidade já invadia o
embrulho que sacara de dentro do paletó onde escondera ao abrigo da chuva. Eram
os novos desenhos e gravuras que o artista me vinha mostrar. Depois de meses e
anos sem dar notícias, Goeldi reaparecia inopinadamente, sem dizer por onde
andara nem que aventuras vivera. Apenas o pacote cheio de desenhos informava
como preenchera ele suas horas de solidão. Se aqui relembro essa reaparição
naquela noite de temporal, é porque se dera em circunstâncias que ajudam a
definir o perfil moral do homem, a começar pelo tom suave e humilde com que
pedira acolhida ao amigo, como se fosse possível a qualquer de seus amigos
furtar-se à alegria de abrir as portas a artista de tão alta categoria. A visão
dos trabalhos que começava a mostrar-me, sobrepus então o homem que os havia
traçado e gravado: um temperamento impetuoso contido pelo pudor e pela timidez;
uma figura que nunca é vista na faixa de luz em que se mostram os outros;
alguém que parece não pertencer quase à vida quotidiana, mas que é um côncavo
de ressonância para as vibrações do mundo.

“Chuva”, xilogravura colorida de Oswaldo Goeldi
Nos primeiros anos de sua
vida, sofrera Goeldi a influência física de duas atmosferas quase opostas: a
Amazônia e a Suíça alemã; o trópico e as neves alpinas. Desse choque telúrico,
experimentado na fase mais delicada da adolescência, resultou para o artista um
enriquecimento de impressões poéticas maior, porque recebidas em campos
heterogêneos. Não era apenas a diferença física da paisagem; era também a
diversidade humana do meio social. Em Belém do Pará vivera o menino a infância
solta, entre bichos e vegetais sem nome que seu pai, o famoso naturalista
Emílio Augusto Goeldi, ainda não havia catalogado; entre pântanos, correntes d´água e peixes estranhos,
debaixo de um sol sem obstáculos à expansão de sua claridade; ao passo que na
Suíça, a sombra das montanhas, a tristeza dos invernos e mais o espetáculo de
uma gente disciplinada, de costumes severos, eram imagens que se chocavam na
memória da criança com as outras, ardentes livres, que trouxera dos
trópicos.
Em 1914, durante o seu
exílio na Suíça, rebentara a guerra. Esse fato viera carregar-lhe de sombras a
solidão. Não que dela participasse diretamente: mas testemunhou-a de perto. A
fronteira alemã achava-se ao alcance da vista. De Berna, onde se encontrava,
ouvia o constante canhoneio nas montanhas. Punha-se então a cismar coisas
tristes, o que fez subir de nível o depósito de melancolia que já se lhe
acumulara no fundo da alma. Goeldi ouviu a guerra. Isso na idade em que seus
ouvidos só queriam guardar o canto da passarada amazônica. Essa circunstância
exasperou-lhe a sensibilidade. De Berna seguiu para Zurique; depois, para
Genebra, onde frequentou por alguns meses a “Ecole des Arts et Métiers”, daí
saindo para o atelier particular de Henry van Muyden e Serge Pahnke. O
temperamento rebelde e impaciente não o deixava prender-se muito tempo à
aprendizagem regular dos cursos. Voltando à Berna, fez sua primeira exposição
na Galeria Wyss. Trava conhecimento nessa ocasião com a obra de Kubin, a qual
não só lhe abre perspectivas novas, como também o confirma nos caminhos que
andava trilhando.
Em 1919 volta
definitivamente para o Brasil. Vinha com a alma dividida. No coração, a poesia
da infância e a amargura da guerra: nas retinas, a visão recuperada do passado
e as imagens atrozes do presente. Como poderia operar artisticamente a fusão
desses elementos contraditórios, senão utilizando o instrumento de que já se
tinha assenhoreado? A bico de pena, carvão, nanquim, lápis, corte na madeira,
construiria sua linguagem em preto e branco. Com essa linguagem daria expressão
à revolta que o comprimia e à vontade de fervor que o exaltava. Há uma solidão
artística que é complementar da solidão moral, senão corolário dela. Goeldi, só
e incompreendido do público em relação aos poderes da arte do claro-escuro como
uma das formas mais altas da expressão plástica. Eram, entretanto, o desenho e
a gravura os únicos meios pelos quais poderia o artista plasmar o seu mundo
interior. Seriam eficientes? Essa dúvida o atormentava. Teria sido num desses
momentos de depressão que acorrera, em noite de chuva, a pedir estímulo ao
amigo.

“Despedida”, xilogravura colorida de Oswaldo
Goeldi
Um dia, juntou seus
trabalhos e enviou-os a Kubin. Todo artista é assaltado às vezes pelo seu
duplo, espécie de inimigo íntimo que se mancomuna com adversários invisíveis.
Goeldi parecia ter condicionado o seu próprio destino e o de sua arte à
resposta do famoso mestre austríaco. Admirava-o, tinha com ele afinidades
profundas. A resposta não tardou. Kubin manifestou-se admirado ante a “riqueza
do seu mundo interior, a liberdade e a força de imaginação do artista.” “Os
seus instrumentos de gravar – dizia ele – tiram faíscas misteriosas e
feiticeiras do bloco de madeira.”
Daí por diante, até 1939,
fora constante entre ambos a correspondência e troca de trabalhos. Nos desenhos
de Goeldi descobrira Kubin algo de “surpreendente e louco”, que o colocava no
posto avançado de uma linha em que já se encontravam Munch e o próprio Kubin.
Pode-se avaliar a importância deste estímulo para o artista brasileiro. Um
encontro capital. Dissipam-se as incertezas, os colapsos de entusiasmo não se
repetem. Sua arte caminhava para a plenitude da madureza. De novo na Europa em
1930, e mediante recomendação de Kubin para a Galeria Wertheim, em Berlim,
figura numa exposição ao lado de Utrillo, Matisse, Waroquier e outros. Expõe em
seguida em Berna e Zurique. Sentindo os apelos do outro polo, o Brasil, Goeldi
volta ao seu país.
Começa então a prática em
larga escala da xilogravura. No trato da madeira resistente, impõe disciplina
aos ímpetos de seu temperamento, mas nem assim consegue dominar o seu demônio
inteiror. Trabalha febrilmente, até se lhe calejarem os dedos. E o esforço de
abrir brechas de luz na matéria sólida, de animar-lhe a treva interior.
Escolhe, para ilustrar, os autores mais próximos de seu espírito – Edgar Poe, Dostoievski.
Ainda espera entrar no mundo de Kafka. Nem por ter voltado ao artista uma
confiança maior na eficácia de seus meios de expressão, a sua visão das coisas
se tornou mais otimista. Goeldi só não é irremediavelmente um desesperado,
porque tem amor à humanidade e certo apego à vida. Gosta de perambular pelas
ruas, fixando tipos, guardando imagens. A experiência europeia não lhe deixou
terminar a experiência brasileira. Talvez até a perturbasse. Ambas entraram
porém na composição de sua arte, dando-lhe universalidade humana e pungente.
Seu olhar para as coisas
vai carregado de tão intensa força subjetiva que logo as transforma em visão.
Visão quase sempre trágica. A imagem quotidiana mais comum – uma esquina de
rua, um objeto, alguém passando – Goeldi a transforma em misteriosa presença. O
quê descobre em cada coisa é a sua substância de poesia, velada pelo
automatismo de nossa percepção habitual. Não dispondo de tintas para a
expressão pictórica de suas criações, tem que jogar apenas com as linhas, os valores
do claro-escuro, as vibrações do traço, e o ritmo das formas. Apenas
excepcionalmente emprega a cor nas gravuras, como no “Pescador” e nas
ilustrações de “Cobra Norato”, o poema de Raul Bopp.

“Pescador”, xilogravura colorida de Oswaldo
Goeldi
Abrindo claridade nas
massas de sombra e conduzindo as correntes atmosféricas do céu, graças a
milhares de traços miúdos e riscos convergentes que sugerem as direções do
vento e da luz – ele atinge graficamente um poder de evocar formas e ambientes
que não conseguiria com a pintura. O sensualismo e a musicalidade da cor não se
ajustariam ao seu temperamento crispado. Em compensação, o que consegue com o
claro-escuro e o traço permite-lhe fixar certos aspectos intraduzíveis por
outros meios plásticos.
O conteúdo principal das
coisas visíveis encontra-se no mundo invisível de que elas são ao mesmo tempo o
sinal e a projeção incompleta. Está atrás. Pelo menos para um artista como
Goeldi, habituado a decifrar o ilegível das profundezas que as aparências
recobrem. Para ele, a arte abstrata não tem razão de ser; não é preciso criar
formas novas; basta elevar ao plano visionário as que já existem, cercando-as
de uma auréola de poesia em que perdem a opacidade e entregam o seu mistério.
Mas não é unicamente sob a
incidência de tal ou qual luz poética que as coisas irradiam melhor e adquirem
valor de símbolo; também pela vizinhança que se lhes dá, pela maneira com que
são dispostas na obra de arte. Dir-se-ia que as formas procuram avistar-se com
aquelas de que vivem separadas. O famoso “encontro fortuito numa mesa de
dissecção de uma máquina de costura com um guarda-chuva” (Lautréamont),
reproduz-se indefinidamente na natureza entre objetos-personagens, distribuídos
em caprichosa formação.
Goeldi, porém, não
precisou ir tão longe na direção do ilógico; seus objetos podem pertencer à
mesma família espacial, embora se reúnam em lugares não habituais. Mas veja-se
que assumem, a espécie de conivência na mesma atmosfera insólita! As formas
entram num jogo de correspondências misteriosas, conduzido pelo artista com
ardor que não exclui a precisão.
O entalhe na madeira exige
esforço e paciência. Goeldi fez-se artesão, a fim de que as dificuldades
técnicas não lhe retardassem a expressão artística. Prefere trabalhar na tábua,
por ser mais dócil do que o tôpo de madeira. Utiliza as madeiras do Brasil, nas
quais encontra melhor rendimento gráfico, segundo a natureza de cada uma.
Sabemos do partido que os
grandes gravadores costumam tirar dos veios e filetes do material – o que bem
define o caráter específico da xilogravura. A própria madeira responde diferentemente
à ação da ferramenta, com sulcos e estrias de ramificações imprevistas. Ao
“provocá-la”, entrega-se um pouco o xilógrafo ao acaso; e esse acaso, quando
não invalida toda a chapa, reserva-lhe curiosas surpresas. Goeldi, seguido
depois por Lívio Abramo, foi o pioneiro da moderna xilogravura no Brasil.

“Gato”, desenho de Oswaldo Goeldi
É nas gravuras que
descobrimos algumas de suas criações mais tranquilas pelo ritmo geral da
composição. Tranqüilas, mas não menos misteriosas: basta ver as silhuetas de
vultos que atravessam seus espaços noturnos, onde a luz irrompe da escuridão
como um grito no meio do silêncio. Exemplo de gravura calma pelo espírito e
pela forma é a série dos “Pescadores”, assim como os desenhos “Solidão” e
“Gato”. Essas criações fogem à maneira febril do artista. Pausas de repouso dentro
do turbilhão. Muitas delas traduzem os momentos de lirismo diante da natureza.
O realismo de Goeldi está
sempre de passagem para o fantástico. Quando não seja pelos temas, é pelo
tratamento que lhes dá o artista. Às vezes, o simples acréscimo de um elemento
estranho produz essa sugestão. Veja-se, por exemplo, a “Tempestade”: numa
paisagem de céu, mar e praia, entra um peixe enorme e imprevisto que
centraliza a visão e transfigura subitamente o realismo do desenho. Goeldi
caminhou assim para um realismo mágico.
A ele não interessa a
aventura plástica e a invenção de formas: o que faz é dar visão nova às coisas
existentes, sem utilizar-lhes todos os elementos, mas organizando-as sob uma
luz subjetiva tão forte que o que possa haver nelas de anedótico, em vez de
atenuar, reforça a impressão do conjunto. Seu “expressionismo” não
obedece a formalismos e artifícios de escola: é exigência do temperamento. A
rapidez do impulso criador corresponde à dinâmica do traço. Assim, reduz-se ao
mínimo o espaço de tempo entre a concepção e a realização artística, o que põe
a obra mais perto de sua fonte viva.
Se o artista imobiliza as
figuras, paisagens e coisas, é no momento mais tenso da presença delas.
Eliminados os detalhes mortos, as marcas não significativas – reponta entre os
traços essenciais a estrutura interior, fantasmagórica e triste. Se algum ser
vivo atravessa a paisagem é para torná-la mais desolada ainda. Goeldi procura
fixar a alma das coisas em colóquio mudo com a sua. Algo de noturno emana
constantemente de suas gravuras – sugestão que deve ser feito do fundo negro
onde se rasgam os cortes de luz. Quando a claridade solar inunda o espaço, como
no desenho “ Tensão na atmosfera ” ou no “Recanto abandonado”, há um tom
sobrenatural que é constante nessa obra. Algo de sinistro ou vai acontecer,
tornando as coisas suspensas na expectativa, ou já passou por elas,
deixando-lhes marcas e erosões da catástrofe.

“Recanto abandonado”, desenho de Oswaldo Goeldi
Atentai nessas casas e ruas.
Parecem também sonhar como as de Utrillo. Mas enquanto as de Utrillo exalam o
romantismo da velha Paris ou de alguma aldeia francesa, as de Goeldi impõem com
as suas estruturas assimétricas e suas sombras na fachada, um silêncio de mau
agouro e crime. Certamente, o emprego do claro-escuro e as suas modulações
ajudam a obtenção desse efeito. Os urubus pousam nos telhados ou no chão
pantanoso – os mesmos urubus que ficaram na retina do artista, quando de sua
infância no norte do país; algum vulto atravessa a praça deserta; as janelas
esperam a aparição do fantasma. Nas casas de Utrillo dormem e sonham os
moradores; nas de Goeldi já não mora mais ninguém e elas apodrecem. Suas
paredes são tocadas de uma lividez de morte.

“Rua Molhada”, xilogravura de Oswaldo Goeldi
Desde que, pelo
envelhecimento ou pelo desuso, perdem os objetos a sua função plástica, a
presença deles ganha um ar de aparição. Vivem vida póstuma e alusiva. Quase
como personagens. Se a vida alguma vez sorri para a solidão de Goeldi, o
artista jamais sorri para a vida. Se acaso parece fazê-lo, é tristemente, quando
ela lhe mostra os aspectos cômicos de seu repertório. E com que pungente
ironia! Goeldi sabe que o drama da vida imprime sinais de suas
devastações não apenas na máscara e no corpo do homem; mas também na casa que
habita, nos objetos que utiliza. Se deforma até ao grotesco as figuras, é como
quem lança o anátema contra as condições sociais que as descaracterizam. Sua
sátira não tem a majestade e truculência de Daumier, nem é cortante como a de
Grosz. A rigor, não é um satirista. Há nele uma tendência contemplativa que lhe
dissolve o impulso agressivo em fervor poético. O lado grotesco de sua arte não
busca o episódico, atinge logo o fundamental; parece querer, assim, de
mostrar o próprio absurdo da condição humana. O ódio, a vaidade, a luxúria vão
além do limite fatal.
Eis, em estado de
esqueleto, as personagens deste mundo: com as insígnias da terra, a
indumentária dos salões e do trabalho; ainda a discutirem, brigar, passear e
tirar fotografias. A morte prorrogou-lhes o prazo: poderão repetir atitudes da vida
extinta, sem direito, porém, ao revestimento carnal. Uma concessão à sua
clientela. A “Ultima discussão”, a “Rixa”, o “Vendaval”, o “Sinaleiro”, com o
céu revolto, e essa espantosa mulher empenhada em fazer para o último fotógrafo o seu melhor e derradeiro sorriso - organizam a pantomima de
esqueletos com que o artista retoma, com novo espírito, uma tradição medieval
de que Goya e James Ensor foram os últimos grandes continuadores.

“O sinaleiro”, desenho de Oswaldo Goeldi
Um grafismo nervoso ajuda
a expressão moderna desse “humor negro”, que aqui se torna libertador pela “faculdade
de reação paradoxal ultradesinteressada que supõe.” As paisagens mais calmas
acusam uma dramaticidade contida, assinalada pelos valores explícitos da luz e
da sombra em exasperantes combinações.
Nos céus, a luz ora irrompe do entrelaçamento múltiplo das linhas, ora se expande em suave difusão do claro-escuro. No primeiro caso, são céus explosivos em turbilhões de claridade que lembram os de Van Gogh e fazem vibrar as coisas da terra; outras vezes, são manchas esponjosas e cinzentas que aumentam o sinistro da atmosfera, como no “Sinaleiro”. Num desenho de interior como o “Mercado”, a luz ganha transparência submarina. Na pincelada a nanquim dá o artista a medida da espontaneidade fluida do seu traço, quando este vai ritmando a marcha acrobática do “ Vagabundo” com o seu cão parado atrás.
A produção numerosa desse
artista é difícil de ser apreciada em conjunto, pela dificuldade de reuní-la em
publicação que dê ideia de sua força e variedade. A maior parte anda esparsa em
jornais, livros e revistas, ilustrando textos; outra parte encontra-se nos
museus da Europa e dos Estados Unidos ou em coleções particulares.
Isolado numa solidão que
tantas vezes o levou aos limites do desespero e possuindo a linguagem capas de
traduzir as formas do seu sonho, Goeldi viveu equidistante das correntes
estéticas e de suas variações. Não que lhe faltasse o gosto de outras
experiências artísticas, mas porque trazia consigo um mundo interior imenso, e
tinha aprendido os meios de exprimí-lo. Desenhando e gravando há mais de trinta
anos, esse mestre do traço e do claro-escuro não faz mais do que servir às
exigências do seu talento e obedecer à força de sua sinceridade.
Não teve pressa em impor
ao público a sua obra, na qual trabalhou toda a sua vida com silencioso fervor.
Sua notável contribuição à 1ª Bienal de São Paulo, em 1951; no ano seguinte, à
exposição na Galeria Tenreiro, do Rio de Janeiro; e, finalmente, à Exposição em
Montevidéo, a convite da Comisión Nacional de Bellas Artes do Uruguai,
tornaram-no familiar ao grande público, que hoje reconhece em Goeldi a mais
forte afirmação entre nós, da arte da gravura.
Anibal M. Machado
Nota: Todas as obras reproduzidas foram retiradas do próprio livro. Caso deseje adquirir alguma obra original de Oswaldo Goeldi, clique em http://www.opapeldaarte.com.br