Os anos 50, nas artes plásticas brasileiras, foram
marcados por mudanças drásticas, particularmente pela ruptura com a tradição
modernista nascida em 1922. Mas, se a pintura e a escultura logo aderiram à
linguagem geométrica do Concretismo, a gravura, com raríssima exceção, avaliou
com maior cautela as novas propostas e só lentamente as foi assimilando. Anna
Letycia, que começou a gravar naquela época, é um exemplo dessa resistência dos
gravadores a abrir mãos da linguagem figurativa e da expressão carregada de
emoção e subjetividade. Aluna de Oswaldo Goeldi e de Iberê Camargo, estava mais
ligada ao universo expressionista do que ao racionalismo e ao objetivismo da
linguagem geométrica. Mas não só por isso, também pela natureza mesmo de sua
personalidade, inventava o seu mundo imaginário a partir das formigas, caracóis
e tatus que descobrira no quintal da infância.

“Formigas”, 1956. Água-forte, água-tinta. Coleção do Artista, RJ
As figuras desses bichos
da terra constituíram os temas dessa iniciação ao imaginário que a técnica de
gravar permite inventar. É costume dizer-se que os artistas revelam o que há de
oculto na realidade das coisas, mas tendo a duvidar disso e a acreditar, ao
contrário, que os artistas, a partir das coisas ou não, inventam uma realidade que
só existe em suas obras. Vejamos o caso das formigas de Anna Letycia: tem
cabimento dizer que aquelas são as verdadeiras formigas, mais reais que as que
descobriu brincando em seu quintal? Creio que não; as formigas de suas gravuras
não são reais e, sim, imagens inventadas que, no espaço fictício da obra,
ganham uma significação que as formigas reais não têm. Não são imitações dos
insetos reais mais, sim, a sua transformação em seres imaginários. Sem dúvida
alguma, se as formas que a gravura nos mostra são formigas e não caixas,
mantém-se nela uma alusão a tudo o que aqueles insetos nos fazem evocar. Por
isso mesmo, quando Anna Letycia deixa de versar figuras de bichos, o mundo
imaginário que então inventa é outro, tem outro conteúdo e reflete relação distinta
tanto com o mundo real quanto com a linguagem da arte.

Anna Letycia: "Sem título", gravura da série Caracol, de 1970
O mundo real é, em si mesmo, uma linguagem e, como toda linguagem, intraduzível em outra linguagem. Assim como é impossível traduzir em música o que a pintura diz, é também impossível traduzir em gravura o que a realidade diz. Por isso, o tatu gravado, o caracol gravado dizem outra coisa que os tatus e os caracóis reais. Mas isso não impede que a gravura contenha alguma coisa que a gravadora viu ou ouviu ou leu neles, que nem eu nem você veríamos ou leríamos. Conheci um cara que via nas formigas os soldados de uma guerra que era travada sob as folhas do matagal, com armaduras de metal e lanças. Não eram as formigas de Anna Letycia, nem seus tatus e caracóis, que em suas gravuras aparecem como seres de um mundo silencioso e obscuro.
O ambiente cultural em que
um artista vive e trabalha há de ter influência sobre o seu trabalho criador,
sobre sua imaginação. Raros artistas conseguem evitá-lo, em determinadas
circunstâncias como ocorreu com Goeldi, que se manteve fiel às convicções
expressionistas em que se formou e que se tornaram os alicerces de sua arte.
Mas quando o Concretismo chegou ao Brasil, ele já era um artista maduro, mestre
de uma linguagem muito sua, própria e consistente. Outra, no entanto, era a
situação de gravadores como Fayga Ostrower ou o próprio Iberê que, se não
aderiram ao geometrismo concretista, adotaram uma espécie de expressionismo
abstrato. Anna Letycia, fiel a sua natureza reflexiva, caminhou no rumo da
tradução das formas figurativas em linhas e signos até chegar, mais tarde, a
uma geometria figurativa de que são exemplos as suas caixas.

Anna Letycia: “Sem titulo”, gravura em metal colorida e relevo
Alguém que siga, passo a passo, a evolução da gravura de Anna Letycia, deparar-se-á com um inesperado salto qualitativo, nessa passagem da linguagem figurativa inicial para chegar às estilizações decorativas e às caixas – ou seja, a uma depuração do processo formal até atingir um nível de precisão e economia insuspeitado nas etapas anteriores. Essa evolução da linguagem da gravura é acompanhada de um progressivo apuro das técnicas de gravar e de inovações audaciosas, de que não há exemplo na gravura brasileira. Esse domínio técnico e estético, por ela conquistado, possibilitou-lhe o uso de determinadas formas recortadas na chapa. Esse recurso introduz na linguagem da gravura possibilidades expressivas até então desconhecidas. Com isso, Anna Letycia alarga o seu universo gráfico, não só por ampliá-lo tecnicamente, mas também por adotar, em face da arte de gravar, uma postura original e moderna. Estamos já então muito distantes da artesã que tentava afirmar-se no âmbito da gravura figurativa que, de uma maneira ou de outra, valia-se das alusões à representação da realidade. Anna se libertou disso para tornar-se inventora de uma linguagem própria e de um modo novo de expressar-se como gravadora. Se ela conseguiu explorar novas possibilidades técnicas e estéticas, o fez sem abandonar as características essenciais da gravura em metal. Realizou uma revolução silenciosa.

“Caixa”, gravura em metal e relevo, anos 60, de Anna Leyticia
A palavra ” evolução”
talvez não seja apropriada já que essas mudanças antes que visar um progresso
estético são, na verdade, um novo modo de construir o imaginário. No meu
entender, o principal aspecto a ressaltar na história da gravadora Anna Letycia
é a identidade subjacente que se mantém ao longo de todo o seu curso e que se
traduz na preservação de uma atmosfera de mistério e silêncio que envolve as
formas por ela inventadas. Melhor dizendo, mais que as envolve, as constitui:
se falamos de caixas, por exemplo, diria que são ” cubos de silêncio”, já que
não se ligam a nenhum contexto identificável do mundo objetivo. São objetos de
um mundo mágico, imaginário, sofisticado, que têm como única razão de existir,
a beleza.
Das formigas às caixas,
algo mudou drasticamente na gravura de Anna Letycia e isso tem a ver com a
incorporação da geometria à linguagem da arte brasileira, a partir dos já
mencionados anos 50: a criação de formas “ideais”, mais próximas dos arquétipos
platônicos do que objetos reais. Mas só em parte, uma vez que por suas cores e
elementos decorativos, integram-se em nossa vida sensorial e afetiva e passam a
existir para todos aqueles que os vêem impressos no papel da gravura. E esse é
o milagre da arte: tornar verdade o que não existia nem mesmo em nossa
fantasia. Sim, porque, se o que a obra nos dá não é uma cópia do que existia no
real, tampouco é a cópia do que existia no ideal. A obra não existe idealmente,
uma vez que fazê-la é inventá-la conforme um jogo de probabilidades, em que
operam o acaso e a necessidade, erros e acertos. A obra que nasce não é
inevitavelmente a que deveria nascer mas a que pôde nascer conforme a
contingência.
As obras de Anna Letycia
nos seduzem e nos fazem contemplá-las, demoradamente. São o contrário da
expressão instantânea, que logo se esgota. Queremos penetrar nelas, nos deixar
envolver por seu sortilégio e seu silêncio – detrás do qual advínhamos uma
personalidade criadora inconfundível.
Nota: Texto originalmente
publicado no catálogo da exposição de gravuras de Anna Letycia, dentro do
projeto “Ateliê da Gravura” no Instituto Tomie Ohtake em São Paulo, no período
de 28/02 a 13/04 de 2008.