A GRAVURA DE ARTHUR LUIZ PIZA

22 de Outubro de 2026
Arthur Luiz Piza, artista visual e gravador.

A gravura de Arthur Luiz Piza

 


Carlos Martins*

 

A obra de Arthur Luiz Piza nos propicia múltiplas experiências estéticas que, sutis e silenciosas, conduzem a nossa imaginação, tornando-nos cúmplices de seu universo poético. Utilizando diferentes meios e recursos de linguagem, sua produção é impossível de ser quantificada; em mesmo nível de excelência, abrange gravuras, relevos, esculturas, pinturas, desenhos e aquarelas. Com uma seleção de 139 trabalhos pertencentes ao acervo da Pinacoteca, esta exposição apresenta o percurso que Piza vem imprimindo às suas gravuras desde as primeiras experimentações realizadas em 1952.

 

Artur Piza: "Cellules", 1954. Água-forte, água-tinta e ponta seca a cores sobre papel.

As obras estão organizadas em dois grandes conjuntos. No primeiro, temos o artista descobrindo e desbravando o potencial da água-forte e da água-tinta [fig. 1 a 36]. As imagens gravadas sobre a matriz de cobre, trazidas de seu repertório em desenhos e pinturas, são composições intrigantes, onde se reconhece uma figuração com referências ao surrealismo. Mas não demoraria muito para que Piza começasse a trabalhar a matriz com mais desenvoltura e ousadia, combinando suas linhas a formas mais abstratas, que estimulam nossa percepção. Por quase toda a década de 1950, a gravura em metal foi o foco de sua produção, que logo alcançaria reconhecimento ao ser apresentada em exposições no Brasil e na Europa. Na 5ª Bienal de São Paulo, em 1959, Piza recebe o Grande Prêmio Nacional de Gravura. 

O segundo conjunto mostra o artista sensível aos estímulos que os novos rumos da arte propiciavam [fig. 37 a 139]. Levado a redefinir seu repertório, aproxima-se do abstracionismo lírico por curto período, e já em meados dos anos 1960 utiliza formas geométricas reconhecíveis para construir suas composições. Em sua gravura, formas plenas dominam o espaço ou, em conjuntos, apresentam um equilíbrio de aparente desordem. As imagens crescem em escala, muitas vezes acabando por ocupar toda a superfície do papel suporte. A utilização de cores intensas e de texturas em relevo, minuciosamente gravadas, confere à sua prática um vocabulário próprio e inconfundível, e indicou também ao artista possibilidades de desdobramentos desse pensar gráfico para o seu trabalho de entalhe, colagens e escultura.

 

Arthur Piza: "Ferroniere", 1956. Água-forte, água-tinta e ponta-seca a cores sobre papel.

Piza inicia seu aprendizado ainda muito jovem e logo começa a participar ativamente do cenário das artes em São Paulo, onde, mesmo já transcorrendo o final da década de 1940, os embates entre o espírito acadêmico e a arte moderna mantinham-se bastante acirrados. A figuração na arte brasileira era preponderante, e o artista, transitando por questões propostas no pós-guerra, sente-se atraído pelo tratamento informal com que pode conferir à figura. Não se detendo a uma representação, mas a uma interpretação, suas pinturas, desenhos e aquarelas são composições com referências a formas orgânicas, antropomorfas, por vezes aludindo a elementos eróticos ou oníricos. 

Em recente correspondência trocada entre nós, Piza afirma:

Tinha na época uma ligação com Osório César, o Juqueri, e entre loucura e cultura, tinha algo de misterioso [...]. Na época, quanto a mim, não sei se eu me via surrealista, mas curiosamente nunca achei que de um jeito ou de outro eu pertencesse à abstração [...]. Mas o onírico tinha sentido. Não esquecer que eu conheci [e] conversei com pintores como Flavio de Carvalho, Volpi, Tarsila, monumentos nacionais que, para mim, eram pintores com quem se conversa, mesmo se eu era para eles só um menino.

 
Arthur Piza: "Carlão", 1971. Gravura em metal, goiva e ponta-seca a cores sobre papel.

Em 1951, Piza tem uma pintura aceita pelo júri de seleção da 1ª Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Divagação seria exposta com trabalhos de artistas que, na época, compartilhavam do mesmo imaginário que tanto o atraía, como Flavio de Carvalho, Walter Lewy e Maria Martins (esta, por exemplo, mostrava um importante conjunto de dezessete esculturas de médio e grande porte que se impunham, provocativas). 

Tarsila também estava presente na Bienal, mas foi em sua grande exposição retrospectiva, realizada um ano antes no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), que suas pinturas certamente impressionaram muito o jovem Piza.

 

Arthur Piza: "Cosmos Bleu", 1969. Gravura em metal, goiva e ponta-seca a cores sobre papel.

Para a sua primeira individual, realizada naquele mesmo ano na galeria do Instituto de Arquitetos do Brasil em São Paulo, Sergio Milliet escreve uma apresentação na qual se revela um tanto cético com a produção do jovem artista com tendências surrealistas, mas ressalva que os "seus desenhos me interessam". "A pena (ou o lápis) corre sobre o papel, e as linhas se projetam num arabesco expressivo." E sobre as imagens apresentadas por Piza, afirma:

“As figuras são o mais das vezes absurdas, sem tradução literária precisa; desenvolvem-se entretanto em curvas harmoniosas ou em ásperas retas fragmentadas. [...] Monstros surgem, moles e viscosos ou, ao contrário, duros e impavidamente arreganhados. Formas se criam, sem margem para uma interpretação satisfatória. [...] Cousa estranha, sinal da presença do artista: tudo nessa desordem aparente se constrói em obediência a uma intuição (ou vontade?) de equilíbrio, de composição, de distribuição feliz das formas no espaço. Arthur Piza está na casa dos vinte. É dizer que ainda podemos esperar muito dele. Atente-se, pois, para sua estreia. Ela justifica a nossa atenção e a nossa simpatia.” 

Curiosamente, essas observações de Milliet parecem indicar elementos para a compreensão do trabalho que Piza vai desenvolver ao longo de sua carreira. As figuras "absurdas" serão trabalhadas com seriedade pelo artista em seus primeiros anos de gravura, uma prática que ainda estava por se iniciar quando ele se muda para Paris. Com efeito, ainda nesse mesmo ano de 1951, o casal Piza e Clélia viaja para a França. Era um desafio a que o artista se propunha: conhecer e conviver com uma realidade que só a Europa poderia oferecer. Como que ampliando ainda mais esse desafio, propõe-se ao aprendizado de uma nova linguagem na arte. Recomendado a procurar pelo artista Johnny Friedlaender, aprenderá com ele as técnicas da gravura em metal, que acabaram por se revelar fundamentais para o desenvolvimento de sua carreira. Em 1953, volta para o Brasil e participa novamente da Bienal de São Paulo, agora com cinco gravuras, sendo contemplado com o Prêmio de Aquisição (duas delas estão aqui reproduzidas: fig.1 e fig.13). Mas sua estada acaba por ser breve, e em 1955 o casal retorna a Paris para ali se estabelecer definitivamente.

 Arthur Piza: "Carré jaune", 1973. Gravura em metal, goiva e ponta-seca a cores sobre papel.

Dedicado, indagativo e desafiante, Piza produz intensamente. A princípio, leva para a matriz de cobre as figuras que já lhe eram familiares em seus desenhos e pinturas. Mas suas composições tendem a se expandir, ocupando todo o espaço da matriz. As formas orgânicas esquematizadas, o corpo humano ou suas partes se sobrepõem ou se desdobram. Nossa imaginação é levada a um mundo de células e tecidos imaginários, de sêmen e embriões fantasiosos, por vezes como registros de lâminas de laboratório. Surgem também composições mais abertas, como mapas celestes definidos por constelações de um universo inexistente. Piza cria um imaginário intrigante que, no dizer de Milliet, é "sem tradução literária precisa". 

No entanto, ele logo sintetiza essas imagens e aos poucos seu trabalho passa a apresentar formas abstratas em composições mais gráficas e simplificadas, explorando tensões criadas pela relação de linhas e planos no espaço. A utilização de cores (discretas) torna-se mais presente. A proximidade e o convívio com artistas de muitas partes do mundo que, como ele, viviam em Paris - se revelam fundamentais. Enquanto isso, o aprendizado com Friedlaender continua intenso. 

Artur Piza: "Partage", 1977. Gravura em metal, goiva e ponta-seca a cores sobre papel.

É um período de descobertas, e a gravura em metal continua a ser o foco de sua produção. Ainda no final da década de 1950, o artista desenvolve uma combinação inusitada em suas composições à gravação com ácidos para as linhas da água-forte e os planos da água-tinta, Piza acrescenta áreas de negros mais densos, obtidos por incisões profundas feitas diretamente sobre a matriz, com instrumentos cortantes. Esses entalhes, ao serem impressos sobre o papel, se apresentam como relevos, texturas que vêm ao encontro ao que o artista agora se propunha, formas com limites definidos e densa materialidade que se interpõem a outras, mais transparentes (o primeiro trabalho em que o artista se utiliza desses recursos está reproduzido na fig. 26). 

Arthur Piza: "Eclosion", 1958. Gravura em metal, goiva e ponta-seca a cores sobre papel.

Piza começa a pesquisar intensamente essa nova maneira de gravar, chegando a um procedimento próprio e específico, criando um vocabulário particular para as suas gravuras. Sem dúvida, o trabalho do entalhe em madeira ou o de baixo-relevo na pedra forneceram caminhos para o modus operandi do artista, que passa a esculpir o cobre para suas matrizes. Com a utilização de ponta-seca, buril, goiva, cinzel e formão (ferramentais cortantes feitas de aço bastante resistente), ele consegue entalhes diretos sobre a superfície dura do metal. Muitas vezes recorre ao uso de um martelo, que o auxilia em incisões mais profundas. 

Arthur Piza: "Espace du dedans", 1977. Gravura em metal, goiva e ponta-seca a cores sobre papel.

As matrizes, ao serem impressas, transferem para o papel essas incisões, que se tornam relevos, mais pronunciados ou mais delicados dependendo da profundidade do entalhe. Com esses relevos, Piza apresenta um trabalho inovador que amplia os limites do que até então se praticava para uma incisão direta sobre uma matriz. A partir de meados da década de 1960, sua gravura passa a ser feita exclusivamente por gravação direta: a mão do artista sobre o metal. O relevo vai marcar definitivamente o corpus de sua produção. 

Abrindo uma infinidade de pequenas formas geométricas, Piza estrutura e organiza um mundo agora mais definido e meticulosamente construído. Com uma sutil ordenação de pequenos relevos, gravados aos milhares e minuciosamente justapostos, superfícies complexas são definidas. Ao mesmo tempo, a orientação com que esses entalhes foram gravados sugere um percurso instigante para o nosso olhar percorrer a imagem impressa. Assim apresenta suas grandes figuras geométricas triângulos, círculos, quadrados e retângulos, que ora ocupam todo o campo visual, plenas, ora aparecem sobrepostas ou ainda fragmentadas, em conjuntos construídos com critério, "em obediência a uma intuição de equilíbrio".  Assim também organiza formas e linhas dispersas no espaço, paisagens de um cosmos em que explosões e estilhaços obedecem a uma ordem muito própria. E, talvez por nostalgia das formas orgânicas tão presentes em seus primeiros anos de trabalho, se reporta a frutos partidos ao meio, suas sementes aparentes e a frutos proibidos [fig. 72] com sua intimidade exposta, metamorfoseados em composições carregadas de sensualidade. 

Arthur Piza: "Fruit défendu",1972. Gravura em metal, goiva e ponta-seca a cores sobre papel.

A utilização de cor em sua gravura se faz impositiva. Forma, texturas e cor são indissociáveis. Sua paleta abrange o azul profundo, vermelhos e sanguínea, amarelo, laranjas e cores terrosas, verdes vibrantes, o preto e o branco, todos sempre densos. Para a edição de suas matrizes, recorre a oficinas de impressão, uma prática tradicional na Europa. Para o seu trabalho, as diferentes cores são aplicadas sobre uma única matriz e impressas a um só tempo, o que faz com que os limites de cada cor nunca fiquem muito definidos, atribuindo à imagem uma qualidade pictórica. 

Piza confere à imagem impressa uma extraordinária dimensão tátil à sua linguagem visual. Os relevos provocam nossa percepção e nossos sentidos, despertando o desejo de um contato pelo toque, atraídos que somos pelas formas, texturas, matéria e cor. E isso o artista leva para o seu trabalho como um todo, seja qual for o meio em exercício. O sensorial ou o sensual, de uma forma ou de outra, se insinua por toda sua obra.

Artur Piza: "Sem título", 1990. Água-forte, água-tinta e ponta seca a cores sobre papel.

Incansável, Piza grava, recorta, talha, pinta e cola para criar uma obra que se distingue por um vocabulário próprio e que deixa evidente a unidade de pensamento, o rigor e o domínio técnico, que perpassam toda a sua produção. E, ainda, sua obra deixa claro o prazer pelo fazer, tornando inerente ao trabalho qualquer dos procedimentos que realiza nas mais diferentes linguagens de que se apropria. Em recente entrevista, Piza comenta suas atividades no ateliê, só, sem assistentes, e fica mesmo evidente a cumplicidade entre o artista e os materiais que elege seja para suas gravuras, relevos, pinturas ou esculturas. "Um trabalho de sapateiro", brinca. Artesão, sem dúvida, o artista se identifica com o seu ofício.

Mesmo estabelecido na França desde o princípio dos anos 1950, Piza sempre manteve vínculos com o Brasil, fazendo viagens frequentes e expondo sistematicamente em museus e galerias. Esse panorama aqui apresentado nos surpreende pela complexidade e pela peculiaridade de sua poética. E se faz oportuno chamar a atenção de que a sua produção de gravura é uma parcela do universo muito mais amplo que o artista vem construindo ao longo de mais de seis décadas de trabalho, contemplando simultaneamente diversos meios de expressão, todos tratados com a mesma afetividade e determinação.

* Carlos Martins é artista gravador, pesquisador acadêmico, escritor e crítico de arte.

Texto de apresentação da exposição retrospectiva do artista na Estação Pinacoteca de São Paulo no período de 07 de novembro de 2015  a 14 de fevereiro de 2016.