O Papel da Arte

A água-forte no Rio de Janeiro

Carlos Oswald em 1915, o pioneiro no ensino da gravura artística no Brasil.

Carlos Oswald em 1915, o pioneiro no ensino da gravura artística no Brasil.

 

Importante testemunho histórico de  Carlos Oswald,  considerado o pioneiro no ensino da gravura de arte no Brasil,  dado ao Jornal Correio da Manhã na edição de domingo, 20 de janeiro de 1952.

A água-forte no Rio de Janeiro

 

Officina de água-forte do Liceu de Artes e Ofícios no Rio de Janeiro em 1914. Da esquerda para a direita: Arthur Thimoteo da Costa, Adalberto Mattos, Carlos Chamberlland e Carlos Oswald.

Officina de água-forte do Liceu de Artes e Ofícios no Rio de Janeiro em 1914. Da esquerda para a direita: Arthur Thimoteo da Costa, Adalberto Mattos, Carlos Chamberlland e Carlos Oswald. 

O interesse pela gravura hoje em dia é inegável, esta nobre arte renasceu exuberante nos ambientes artísticos do mundo inteiro. Entre nós é só observar o sucesso que a seção da gravura obtém nas exposições de arte moderna, em nossos salões oficiais, e especialmente na Bienal de São Paulo, para se convencer deste surto prometedor.

Visto isso, seria talvez interessante revelar algumas notas sobre a origem e desenvolvimento da gravura no Rio de Janeiro, e especialmente da gravura à água-forte considerada, como arte pura, isto é, não como arte de reprodução e ilustração, ofícios estes hoje vantajosamente praticados pela fotografia e processos mecânicos de impressão, mas como técnica independente, completamente submissa ao artista gravador que cria, como o pintor e o escultor, obras originais, pessoais.

Este gênero de gravura à água-forte que os franceses chamam de “gravure d´art” ou “eau-forte d´artiste””  e que nós chamamos “água-forte original”, começou no Rio de Janeiro de uma maneira esporádica no princípio de nosso século. Os que a praticavam foram especialmente  Henrique Bernardelli e Modesto Brocos que executaram pequenas chapas representando vultos políticos: o primeiro com um traço rápido e nervoso, o segundo com uma execução acabada. Abro, logo aqui um parêntesis para relatar um fato que se liga à minha pessoa: a prensa de Henrique Bernardelli, a primeira que apareceu aqui, de ferro maciço, fabricada na Europa imitando a prensa de Rembrandt, passou posteriormente, a ser minha propriedade, e eu a guardo como um objeto de valor histórico, não só, mas também de grande utilidade, pois ainda é perfeita e no nosso “Atelier de Arte” está à vista de todos como monumento simbólico.

São Francisco, água-forte original de Carlos Oswald, 1951.

São Francisco, água-forte original de Carlos Oswald, 1951.

Bernardelli e Brocos não fizeram escola. O primeiro curso de água-forte iniciou-se no Liceu de Artes e Ofícios, em 1913. Embora fosse Brocos que se encarregasse de mandar vir de Paris o material, no entanto o curso foi organizado por mim em 1914. Os primeiros anos foram duros, ninguém sabia o que era água-forte e os poucos alunos que se apresentavam abandonavam as aulas depois de constatar que o ofício era árduo. Mesmo assim vários artistas vieram experimentar a gravar não como alunos, mas como amigos. Lembro-me de chapas gravadas por Carlos Chamberlland, Arthur Timoteo, Pedro Bruno, Antonio Mattos, Argemiro Cunha, Oswaldo Teixeira e muitos outros.

Rapidamente acabou o material vindo de Paris: chapas de cobre, vernizes, buris, agulhas, papel de Holanda, papel do Japão, feltro, etc, toda uma remessa de objetos indispensáveis, e pode-se dizer, de luxo, visto que encomendou-se tudo que havia de melhor. Arrebentou a primeira guerra mundial e a oficina ficou privada do necessário, só tínhamos a prensa elétrica de real valor. Como fazer? Não desanimamos; fomos procurando aqui mesmo no Rio a matéria prima e fabricamos nosso material. As chapas de cobre e zinco compradas nas lojas de ferragens eram polidas à mão, os vernizes foram compostos de acordo com o nosso clima quente, as agulhas eram amarradas com processo simples a cabos de pincéis, os ácidos, o papel, o feltro, tudo obtivemos de novo, operando assim como os antigos artistas quando, não existindo as fábricas, eram obrigados a ser operários antes que criadores.

E isso foi um grande bem. Até hoje continuamos com o mesmo costume, nada compramos no estrangeiro, os alunos aprendem o ofício desde o começo, todos sabem perfeitamente fazer e encontrar as coisas de que precisam e executar qualquer trabalho de gravura sem recorrer aos mercados estrangeiros.

"Paisagem", água-forte original colorida de Carlos Geyers, 1949.

“Paisagem”, água-forte original colorida de Carlos Geyers, 1949.

Preciso chamar a atenção sobre este fato que não é comum: na Alemanha, na Áustria, em Paris, centros de gravura, os grandes mestres muitas vezes não sabem preparar suas chapas, dosar seus ácidos, imprimir suas obras, porque as casas comerciais especializadas tudo fornecem já pronto e bem feito e seria perder tempo fazer qualquer coisa por si. Um professor de gravura, chefe de escola, que nos visitou ultimamente, convidado por nós a executar uma chapa em nossa oficina, ficou embaraçado na dosagem dos ácidos e declarou-nos que na Europa nunca tinha tido necessidade de preparar pessoalmente coisa alguma relativa a material gráfico.

De 1930 até hoje nosso curso do Liceu desenvolveu sempre maior atividade e numerosas turmas de alunos, a maioria vinda da Escola Nacional de Belas de Belas Artes, foram sucedendo-se e posso declarar que nossa oficina tornou-se o centro da água-forte no Rio. Na Escola Nacional de Belas Artes, parece incrível, mas nunca se cogitou seriamente de instalar um curso de gravura. Não há escola de arte importante no mundo, que não tenha sua oficina de gravura. Na América do Norte todas as Universidades, anexas em geral à biblioteca, têm oficinas e escolas de gravura. E no entanto, na nossa Escola de Belas Artes, há a cadeira de gravura de medalhas, e isto desde a fundação  da mesma escola, e a gravura de medalhas é um simples ramo da escultura e qualquer escultor pode ser autor de medalhas, enquanto a gravura artística é uma arte pura existente por si mesma, impossível de ser imitada com outras técnicas. Ela é equivalente à própria pintura e à escultura. Verdade é que no ano passado, com os recursos da própria escola, foi instituído um curso de água-forte, mas, sem caráter oficial e sem os necessários meios para o seu desenvolvimento, o que o torna de precária existência.

Em 1946 fui convidado a organizar uma oficina de água-forte na Fundação Getúlio Vargas; foi um sucesso. Sob a direção geral de Tomas Santa Rosa, outras oficinas de gravura foram criadas, inclusive a de xilografia aos cuidados do mestre Axel Lescochek, naquele tempo domiciliado aqui. No fim do ano uma exposição concorridíssima patenteou às classes intelectuais a utilidade e eficiência daqueles cursos que, no entanto, foram inexplicavelmente suprimidos pelos dirigentes da instituição com a desculpa sibilina de que a gravura de arte não é própria para o povo!

Outro movimento digno de nota foi o que tentou, há dois anos, Calvino Filho, agrupando na Galeria Calvino, vários artistas gravadores de vanguarda, com Portinari na chefia. Fizeram exposições, publicaram opúsculos sobre gravura, fundaram o “Club dos Glifófilos”, com 100 amadores e protetores da gravura. Infelizmente, devido à indiferença do público, a iniciativa se desfez.

“Serra dos Órgãos”, 1938. Gravura em metal, água-forte, de Hans Steiner, impressa no ateliê de Carlos Oswald.

“Serra dos Órgãos”, 1938. Gravura em metal, água-forte, de Hans Steiner, impressa no ateliê de Carlos Oswald.

Os alunos que mais se distinguiram tanto na oficina do Liceu de Artes e Ofícios como na da Fundação Getúlio Vargas, alguns dos quais hoje são verdadeiros mestres que vivem – e que pode parecer incrível a muita gente – de sua arte, são:  Hans Steiner, austríaco de nascimento mas brasileiro integral em sua arte, que aprendeu exclusivamente no Rio. Presentemente  em Viena, sua terra, onde foi realizar uma exposição com grande êxito. Suas águas-fortes foram adquiridas pela Escola de Belas Artes de Viena e estão sendo estudadas pela Galeria Albertina, a mais célebre coleção de gravuras existente no mundo. O ministro brasileiro na Áustria, foi visitar oficialmente o certame de Steiner por causa do cunho acentuadamente brasileiro de seus trabalhos. Steiner escreveu de lá que, quanto à técnica nada aprendeu de novo na Áustria, o que demonstra a eficiência de nossos cursos cariocas.

Poty Lazzarotto – quem não conhece este artista nascido mesmo para ser água-fortista, tal sua facilidade e originalidade de expressão genuinamente gráfica? Ganhou uma bolsa de estudos instituída pelo próprio governo francês para aprimorar seus conhecimentos em contato com os grandes mestres europeus. De lá voltou há pouco e presentemente é professor de água-forte no curso do Museu de Arte de São Paulo.

"Lavadeiras", água-forte de Poty Lazzarotto, 1949, em tiragem de 100 exemplares para o Clube dos Glifófilos.

“Lavadeiras”, água-forte de Poty Lazzarotto, 1949, em tiragem de 100 exemplares para o Clube dos Glifófilos.

Fayga Ostrower, polonesa, mas brasileira como artista, muito conhecida nos meios artísticos e jornalísticos como ilustradora original, pratica com sucesso também a xilografia, executando gravura de saber abstrato.

Cêurio de Oliveira, medalha de prata no Salão de Belas Artes, interessando artistas especializados  na ponta-seca. Orlando da Silva, trata com espírito e forte claro-escuro assuntos do “bas-fond” carioca. Percy Lau, brasileiro, de um caráter bem marcado; descreve com traços às vezes humorísticos, os ambientes do interior (vida nas fazendas, tipos de caipiras).

Darel Valença Lins, medalha de prata no Salão Oficial, água-fortista já muito conhecido pelas suas chapas de água-tinta, com sombras e luzes violentas. Emotivo e dramático em suas visões que  lembram as descrições de Dostoievsky.

Claudio Correa e Castro, medalha de prata no Salão. Henrique C. Bicalho Oswald, medalha de ouro em gravura no Salão e professor de gravura no Liceu de Artes e Ofícios. Renina Katz, prêmio de viagem ao estrangeiro no Salão. Mizabel, Karola Szilard, Segismundo Martins, Jerônimo Jardim, Carlos Geyer e Jerônimo Ribeiro.

Jose Silveira D`Ávila, medalha de ouro e prêmio de viagem da Escola Nacional de Belas Artes, fundador do já conhecido “Atelier de Arte”, onde um grupo de gravadores organizou uma completa oficina de água-forte, única no seu gênero no Brasil. O “Atelier de Arte” se forma como um marco no programa da gravura artística entre nós; já vários críticos de arte e artistas eminentes têm manifestado pela imprensa suas opiniões a respeito desta nova organização de cooperação entre gravadores que agora têm todas as facilidades para editar suas chapas.

CARLOS OSWALD

 

NOTA: O Papel da Arte possui obras de vários dos artistas gravadores  citados nessa matéria. Faça uma visita à seção Artistas e Obras à venda http://www.opapeldaarte.com.br/category/artistas/  e adquira sua obra preferida.

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