O Papel da Arte

A ESCOLA CARIOCA DE ÁGUA-FORTE

Em maio de 1961, o pintor e gravador Carlos Oswald  concedeu ao Jornal do Commercio em sua edição dominical, um testemunho ocular da história da gravura no Brasil, creditando a si mesmo e com todo o mérito e justiça, a fundação de uma Escola Carioca de Água-Forte, escola essa que revelou os nossos mais importantes gravadores brasileiros, responsáveis por elevarem a gravura brasileira ao reconhecimento mundial pela sua modernidade e técnica.

Carlos Oswald, pintor e mestre da gravura brasileira.

Carlos Oswald, pintor e mestre da gravura brasileira.

Reunião de alunos e adeptos de um mestre – eis uma das definições de Escola. Isso significa, implicitamente, em semelhança de trabalhos dos alunos e professor. No curso de gravura à água-forte, por mim fundado em 1914 no Liceu de Artes e Ofícios, deu-se porém precisamente o contrário. Os alunos que dele saíram, num longo período de mais de 40 anos, conservaram integralmente sua personalidade, tanto que, em exposições conjuntas, não se nota a influência de estilo nem da técnica do professor.

Num álbum de gravura à água-tinta, publicado recentemente pelo meu ex-aluno (e depois meu substituto no curso de gravura do Liceu) Orlando Dasilva, há um prefácio do conhecido crítico moderno Flávio d`Aquino, onde se lê o seguinte:

“A história da gravura em metal no Brasil está intimamente ligada a Carlos Oswald. Foi ele o mestre de várias gerações de artistas desde que começou a ministrar aulas no Liceu de Artes e Ofícios do Rio, e mais tarde na Fundação  Getúlio Vargas. Sem ser propriamente um artista de vanguarda, Carlos Oswald, entretanto, deixa aos seus alunos a liberdade imprescindível para criarem  de acordo com seus temperamentos. Foi, assim, que dele saiu grande número de gravadores nacionais que mais tarde iria tornar a nossa gravura numa arte, que, como média em seu conjunto, se destaca mais  que a nossa pintura ou escultura.  É o caso de Poty, Darel Valença, Anísio Medeiros,  Renina Katz, Fayga Ostrower e outros.”

Transcrevi esse trecho porque corresponde perfeitamente à verdade; faria apenas um acréscimo, pois o autor não mencionou alguns nomes de real valor de muitos outros artistas, como Hans Steiner por exemplo que, neste momento, está com uma exposição aberta na Biblioteca Nacional, Percy Lau, Henrique Oswald, Misabel, José D´Ávila, Erbo Stenzel, Paulo C. Vincent, Sebastiana Bueno, Carlos Geyer, H. Mariani, Ciarla, Sigismundo, Claudio e tantos e tantos outros que integram a chamada Escola Carioca de Água-forte.

"Paisagem romântica", água forte de 1955, Itália. Gravura de Hans Steiner.

“Paisagem romântica”, água forte de 1955, Itália. Gravura de Hans Steiner.

Uma aula de água-forte é deveras  coisa bem original. Uma pessoa que não fosse levada de antemão, ao entrar em minha oficina no Liceu, ficaria admirada e talvez escandalizada. De noite, entre vinte e vinte e duas horas, numa sala de dez metros por oito, dúzia e meia de alunos de ambos os sexos circundavam mesas compridas ao longo das paredes, com lâmpadas de luz indireta a intervalos de metro e meio, inclinados sobre suas chapas. O ambiente em geral possui uma característica especial que à primeira vista dá impressão de sujeira e de desleixo. Panos sujos de graxa (que constitui a tinta do talho doce) de todas as cores, combinando o marrom e o preto: no chão, manchas de água-suja e de óleo; um cheiro, que dá náuseas e arde os olhos, graças às exalações de ácido nítrico, espraia-se pela sala. Os alunos, com aventais imundos, e as mocinhas, com luvas de borracha, discutem suas teorias estéticas às vezes incompreensíveis. Eu concedo inteira liberdade de opinião; só ensino a técnica. Aquele aspecto de desordem, aquele cheiro, aqueles farrapos fazem parte essencial do material do água-fortista. especialmente os panos de vários tecidos (lona, cretone, escócia) são os instrumentos mágicos com os quais se obtem os misteriosos efeitos de claro-escuro. A prensa majestosa, movida à eletricidade, é a fonte de receios maiores para os neófitos, pois um ligeiro descuido pode ferir seriamente os incautos. Essa confusão aparente, que tentei descrever é própria, evidentemente, de um curso, porque, por exemplo, em meu ateliê particular há mais ordem e limpeza. Mas, com a prática de dezenas de anos de ensino, convenci-me de que para obter resultados positivos e para não sobrecarregar os alunos com excesso de obrigações – eles já tinham motivos de sobra para ficarem  amedrontados com tantas coisas esquisitas – resolvi fechar os olhos e deixar, em parte, que cada um aprendesse a sua custa, estragando material e a pele das mãos.

"5401", 1956, de FAYGA OSTROWER. Gravura em metal, água-tinta e ponta seca em cores sobre papel Rives.

“5401”, 1956, de FAYGA OSTROWER. Gravura em metal, água-tinta e ponta seca em cores sobre papel Rives.

Dava liberdade não só para a prática do ofício mas também, como disse, para as opiniões pessoais de cada aluno. E isso tanto quanto a teorias estéticas como a políticas e sociais. Havia de tudo na minha turma: acadêmicos, modernistas, todas as espécies , e, quanto à política, havia fascistas, socialistas, comunistas etc, que, em se tratando de água-forte, procuravam esconder suas convicções para só se aterem à paixão pela arte. Nunca entrava em discussões. Quando X mostrava sua chapa, eu indagava:

– Você é….?
– Cubista, respondia.
E logo virando o ponteiro das teorias, procurava enquadrar a técnica mais própria para valorizar as idéias estéticas do aluno X.
– E você, Y, que pensa da arte?
– Eu sou tradicionalista, respondia o aluno.
– Ah, meu caro, então precisa estudar desenho antes de tentar gravar uma chapa.
– Mas professor, dizia o Y, o senhor deixou o X fazer uma ponta-seca.
– A arte dele, menino, respondia eu, não requer tanto controle, depende mais de subjetivismo e permite o uso livre da deformação…

E assim por diante. Com essa orientação consegui frutos excelentes, pois todos, gregos e troianos, entusiasmavam-se pela gravura, fortalecendo e engrossando a corrente que teve afinal, o triunfo atual que merecia.

Foi a Escola Carioca de Água-Forte que gerou a viravolta da gravura artística entre nós. Sei que em todo o mundo foi nesse século que renasceu, e se desenvolveu o interesse pela gravura, pelas razões conhecidas: sintetismo, em oposição à exagerada policromia dos pós-impressionistas; entusiasmo por uma arte que ressuscitava após ter sido morta pelos processos mecânicos derivantes da fotografia; o misterioso de seus efeitos de claro-escuro e sua técnica de feitio alquimista; seu caráter prático, que lhe possibilitava a repetição em muitos exemplares, tornando-a uma arte mais em harmonia com nossos costumes democráticos – uma arte democrática – e, enfim, o que oferecia como novidade, fazendo arregalar os olhos não só do público mas também da maioria dos próprios artistas quando se lhes falava nestes substantivos compostos: água-forte, ponta-seca, água-tinta, mezzo-tinta, talho-doce, xilografia etc.

"Lavadeiras", água-forte de Poty Lazzarotto, 1949, em tiragem de 100 exemplares para o Clube dos Glifófilos.

“Lavadeiras”, água-forte de Poty Lazzarotto, 1949, em tiragem de 100 exemplares para o Clube dos Glifófilos.

Certamente, outro artista, mais cedo ou mais tarde, teria ocupado o meu lugar de pioneiro da gravura artística no começo do Novecentos; mas o fato indiscutível é que fui eu que dirigi, iniciei e acompanhei até a maturidade, o movimento da arte gráfica no Brasil. Disto me orgulho e seria uma falsa modéstia o querer ficar escondido e esquecido.

CARLOS OSWALD

Egidio Sadeler (1570-1629) e o Renascimento Dürer

  A gravura a buril acima, "Cabeça de Anjo olhando para o alto" foi executada por Egídio Sadeler (1570-1629) baseado em um desenho de Albrecht Dürer, agora na coleção do Graphische Sammlung Albertina, em Viena. Trata-se de uma das três gravuras de cabeças ... leia mais

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