O Papel da Arte

A GRAVURA ABSTRATA NO BRASIL

 

A Fundação Bienal de São Paulo, publicou em novembro/dezembro de 1974, o livro “Mostra da Gravura Brasileira” e convidou os mais importantes criticos de arte para falarem um pouco sobre a história da gravura no pais, desde os primórdios da colônia até  a gravura contemporânea. A Jayme Mauricio coube a tarefa de escrever sobre a abstração da gravura brasileira que tem em Fayga Ostrower a grande representante deste importante período que floresceu nos anos 50. As imagens contidas nessa matéria não foram originalmente publicadas com o texto no citado livro. Passados mais de 40 anos, é interessante constatar que o texto omite aos olhos de quem o lê hoje, alguns importantes nomes para a história da gravura brasileira enquanto outros não sobreviveram ao tempo.

"Jayme Mauricio, crítico de arte"

“Jayme Mauricio, crítico de arte”

Jayme Maurício

 

De um modo geral,  a arte abstrata no Brasil encontra-se relacionada em suas origens, à retomada europeia, no pós-guerra, daquela modalidade de criação. A atuação por volta de 1948, do crítico francês Leon Degand no Museu de Arte Moderna de São Paulo, e a instituição, pouco depois – sob orientação inicial daquele Museu – das Bienais paulistas, foram instrumentais no desenvolvimento do abstracionismo entre nós. Também o expressionismo alemão, como no abstracionismo dos USA, influiu bastante no brasileiro.

A geração mais antiga que iniciou, já com atraso, o modernismo no Brasil, tinha consciência dos princípios da arte abstrata, conforme concretizados, não só por modernistas pioneiros, tais como kandinski, Malevitch, Mondrian, van Doesburg e outros componentes do Bauhaus ou do movimento De Stijl – que começaram a produzir abstração pictórica a partir de 1910 – como também por artistas  das épocas e das civilizações mais distantes – de Creta ao México Pré-Colombiano, da China a Bizâncio. Entretanto, foi praticamente só na década de 50 que a desvinculação de objetos e de referências específicas ao real começou a ser cultivada em nosso país definindo uma arte “abstrata”. Desde então, ficou esboçado também entre nós o movimento plástico que se caracteriza por sua ênfase sobre formas geométricas. Ivan Serpa, premiado na I Bienal de São Paulo, foi o expoente da época tardiamente heroica da arte abstrata no Brasil, pois Antonio Bandeira ainda era figurativo. Na década entre 50 e 60 o abstracionismo cresceu, porém vertiginosamente entre Rio e São Paulo, tendo conhecido mesmo, então seu período áureo – o despeito da resistência tenaz dos “monstros sagrados” de nosso modernismo figurativo (Portinari, Di Cavalcanti, Segall, Pancetti, e mesmo Grassmann, ainda bem jovem).

“5401“, 1956. Gravura em metal, água-tinta e ponta seca em cores sobre papel Rives. Coleção Privada, SP."

“5401“, 1956. Gravura em metal, água-tinta e ponta seca em cores sobre papel Rives. Coleção Privada, SP.”

A GRAVURA: OSTROWER

O  grande surto de produção de gravura no Brasil ficou bem caracterizado em torno da figura de Oswaldo Goeldi, uma época de pleno domínio, ainda, do figurativismo. Um pouco antes, ou um pouco depois de Goeldi, Carlos Oswald, Raimundo Cela, Lasar Segall, Livio Abramo, Leskochek – em sua atividade didática – e alguns outros contribuíram também bastante para firmar a gravura como um meio expressivo de insólita força entre nossos artistas. Orlando da Silva no Liceu de Artes de Ofícios e Adir Botelho e Roberto Magalhães, na Escola Nacional de Belas Artes, mantiveram uma atitude aberta, ou descomprometida, no que se refere à opção entre o figurativo e o abstrato, deste modo facilitando o rompimento com os compromissos predominantes com temáticas e técnicas figuráticas de nossos gravadores – compromissos respeitados, durante certo tempo, até mesmo por Fayga Ostrower, que viria a se tornar no grande ponto de referência do movimento abstrato  na hoje famosa escola de gravura brasileira. Do ensinamento de Fayga, entre 52-53, saíram Ligia Pape, Rossini e Anna Bella Geiger.

Fayga Ostrower aderia ainda à figura, quando a I Bienal de São Paulo (1951) concedeu o prêmio nacional de gravura a Goeldi. Mas desde aquela época a defesa de uma arte liberta do tema figurativo passou a ser feita por diversos  dentre nossos críticos e artistas favoráveis à arte abstrata: uma abstração transcendental e pura, ao modo de kandinski; ou seja, entre uma atitude agressivamente anti-naturalista e uma outra simplesmente anaturalista.

Na Bienal de 53-54, Fayga Ostrower comparece já com desenhos abstratos e xilogravuras abstratas, embora algumas nem de todo. Na mesma Bienal, que talvez tenha sido a maior exposição de arte moderna em todo o mundo (São Paulo comemorava seu 4º Centenário), Lívio Abramo recebia o prêmio da gravura, com obras que revelaram grandes liberdades temáticas e técnicas. O grande Goeldi, em carta a Marcelo Grassmann, protestava contra as inovações de Abramo: “Os trabalhos de Lívio tiraram todo o caráter de xilogravura”, dizia ele, “como seu amigo estou penalizado tanto mais que a premiação o manterá no caminho errado; lamento sinceramente que os instrumentos tenham tomado conta do bom companheiro”.

Antes, porém, da grande Bienal do 4º Centenário, Fayga havia realizado no Rio uma exposição, não só de desenhos e gravuras, mas também de tecidos estampados, nos quais havia-se afastado inteiramente da figura. Fayga Ostrower proclamou mesmo naquela ocasião: “abandonei os motivos figurativos limitados em seu aspecto formal, em favor de motivos abstratos que proporcionam maior liberdade de invenção e de riqueza visual”. Mas Fayga obstinava-se a dar títulos ainda paisagísticos ou temáticos a seus trabalhos francamente abstratos. Em 1954 ainda, quando suas gravuras foram editadas pelo Guilde Internacionel de la Gravure, de Genebra, tornava-se  na primeira grande figura da gravura abstrata no Brasil. Sua carreira foi solidamente ascendente desde então. A Bienal paulista de 57 confere a ela o grande prêmio nacional de gravura, e a Bienal de Veneza, no ano seguinte, o grande prêmio internacional de gravura. Do júri de premiação veneziano fazia parte Lionelo Venturi. A arte abstrata de Fayga, em Veneza, havia comparecido ali aparentemente esmagada por uma forte representação do modernismo figurativo brasileiro (Segall, Goeldi, Abramo, Grassmann). Tivemos a oportunidade de ouvir então, ao lado de Lourival Gomes Machado, o que o irascível Max Bill declarou diante da coletânea abstrata de Fayga: “Avec ça, já suis d´accord”.

"Transparence", 1959. Gravura em metal a buril e relevo de Arthur Luiz Piza.

“Transparence”, 1959. Gravura em metal a buril e relevo de Arthur Luiz Piza.

GERMINAÇÕES ESPARSAS

Paralelamente à atitude renovadora pioneira assumida por Fayga Ostrower, surgem outras de significação semelhantes. As gravuras abstratas de Lívio Abramo descomprometeram-se dos próprios títulos  (quase sempre com conotações figurativas) a partir de 54. No mesmo ano, o brasileiro de nascimento, Arthur  Luiz Piza, já trabalhando em Paris (onde vive até hoje), produzia na mesma linha, parecendo inspirado por processos cósmicos de germinação, que não comportavam conotações propriamente figurativas. Mas na pintura e na escultura, o movimento abstracionista tornou-se logo bem mais poderoso do que na gravura – um motivo para isto, sendo talvez o vigor extraordinário dos gravuristas figurativos.

Em 1955, a gravura geométrica de Lygia Pape, marca sua presença quase insólita, como um dos integrantes do movimento concretista brasileiro. A 3ª Bienal de São Paulo nos mostra já um grupo considerável de gravadores abstratos. Além de Pape, Vera Bocayuva Mindlin, Pedroso d`Horta, Geraldo de Barros, Dorothy Bastos, e o brasileiro também radicado na Europa, Almir Mavignier. Em 57, Edith Behring, que partira antes para a Europa fiel ao figurativismo, volta convertida à abstração, trazendo consigo gravuras abstratas de João Luiz Chaves. No mesmo ano, Anna Letycia apresentava raízes e formigas na Bienal de São Paulo; e Rossini Perez recriava ainda a paisagem; ambos vieram a firmar-se como dois de nossos jovens mestres na gravura abstrata. Ostrower, Pape e Piza aprofundaram então sua linguagem “não-figurativa”, este conceito tendo sido adotado para evitar possíveis ambiguidades do conceito de “abstração”. Em São Paulo surgia então Maria Bonomi, depois de um aprendizado ali, com Livio Abramo e Yolanda Mohaly, e também de um estágio no Pratt Graphic  Institute de New York. Despontava também o talento de Miriam Chiaverini. Finalmente, após longos preparativos, inaugura-se, em 1959, o atelier de gravura do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, sob orientação de Friedlaender.

"Cérebro",1967. Água-tinta de Anna Bella Geiger.

“Cérebro”,1967. Água-tinta de Anna Bella Geiger.

A  GRAVURA EM METAL: ATELIER DO MAM

Consciente da magnitude do movimento da gravura no Brasil, a equipe que orientou a construção no MAM carioca decidiu fazer construir um grande atelier para aquele meio expressivo em sua nova sede. Afonso Eduardo Reidy dedicou-se ao planejamento minucioso e à construção do que viria a ser a melhor instalação do gênero em todo o mundo. A batalha pela instalação desse atelier estava travada desde 1955. A forte oposição aos princípios da arte abstrata, por parte dos grandes gravadores figurativos de nosso mundo artístico, foi um fator naquela batalha. A oposição foi contornada por meio da contratação de um mestre estrangeiro. Paris nos oferecia então os diretores de seus dois grandes centros de gravura: Friedlaender e Hayter. A uma exitação inicial seguiu-se a escolha do primeiro, que já havia mantido vários contatos com brasileiros. Uma das campanhas mais árduas já desenvolvidas pelo Museu de Arte Moderna do Rio teve então como objetivo a obtenção do material destinado ao atelier, inclusive o papel.  A Imprensa e o mundo político do país foram mobilizados, bem como alguns doadores. Até a UNESCO acabou algo envolvida no processo. Por fim, Friedlaender – que havia-se fixado em Paris em 1945, depois de ter sofrido penosa perseguição dos nazistas – dá início ao centro carioca, tendo como assistentes, Edith Behring e Rossini Perez.

Em junho de 1959 – no ano seguinte ao qual Fayga havia levado a melhor sobre o próprio Friedlaender, no setor de gravura da Bienal de Veneza – os cursos do Museu carioca são abertos para 60 alunos divididos em 4 turmas. Apareceu tanta gente bem conhecida como gente de todo desconhecida, seja artista, seja artesão. A oposição dos gravuristas figurativos voltou a fazer-se sentir. Goeldi que não concedia entrevistas, não ficava porém, inativo. Em outra carta a seu amado discípulo Grassmann, dizia: “Não avistei-me ainda com Mister Friedlaender. Não há ponto de contato possível entre nós. O encontro com ele seria um colóquio com Garrincha. Vejo nele um poliglota, não, um artista. Estou ficando velho e não tenho tempo a perder”. Concordamos com aqueles que declaram que do ponto de vista da criatividade artística propriamente, Friedlaender não é uma grande figura. Seria impossível admitir-se, porém, que sua atuação entre nós não foi das mais consequentes. Tínhamos entre nós gravadores que haviam atingido o mais alto nível técnico. Mas nenhum deles havia-se imposto um respeito tão grande à liberdade dos outros artistas; nenhum deles se encontrava tão bem informado a respeito das vanguardas artísticas.

Edith Behring, "Sem título", água tinta, 1968.

Edith Behring, “Sem título”, água tinta, 1968.

Behring, Rossini, De Lamônica, Anna Letycia, Maria Bonomi e Miriam Chiaverini tiveram suas conexões com o atelier do MAM carioca. Fayga não, seus contatos eram com outros setores do MAM do Rio. Entretanto, a despeito da enorme influência que esses artistas exerceram em nosso cenário artístico, pode-se dizer que o fenômeno da gravura abstrata no Brasil foi de âmbito ainda mais vasto do que o daquele grande centro. Por ele passaram Farnese, Isabel Pons, José Assumpção,  Hermano José, Walter Gomes, Dora Basílio, Anna Bella Geiger, Marília Rodrigues, José Lima, Wilson Georges, Tuni Martinho, Dulce Magno, Vera Bocayuva Midlin, Rachel Strossberg e outros, apenas no breve período entre 59 e 61.

Goeldi não relaxou sua oposição. Ainda a Grassmann, escreveu, já em 1960: “Do ateliê do Museu de Arte Moderna daqui, com Rossini e Behring, sai tudo igual a belíssimas estampas sobre o papel Rives. Os new ways da gravura moderna conduzem a um beco sem saída. Tapeação, enjôo e suicídio. Os últimos pares entre nós estão correndo entre De Lamônica, Rossini e Isabel  Pons (uma pintora!) que depois de seis meses de curso no Museu concorre a prêmio em Lugano”.

"Sem título", gravura em metal colorida da fase "Tatus" de Anna Letycia, 1964.

“Sem título”, gravura em metal colorida da fase “Tatus” de Anna Letycia, 1964.

RETROSPECTO BREVE

Não há espaço neste rápido sumário para um estudo comparativo das principais tendências da gravura abstrata no Brasil. Há espaço, porém para se reafirmar que entre a regra e o instinto, a meditação e o grito, a razão e a fantasia, a gravura abstrata abriu caminho para importantes realizações não figurativas. O movimento de gravura abstrata no Brasil, veio a sofrer a influência também da própria arte caligráfica sino-japonesa – através das interpretações livres daquela arte (Tobey, Soulages, Kline, Hartung e outros) – com a qual Kandinski, Klee, Miró e Arp traçaram a grande via de comunicação entre a arte ocidental moderna e arte de tantos povos pré-históricos ou de tantos povos ditos selvagens que demonstraram possuir excepcional sensibilidade estética. A gravura abstrata no Brasil cumpriu sua missão.

A consciência deste fato firmou-se entre nós. Veja-se por exemplo, o que já em 1966 disse a respeito mestre Livio Abramo, em sua apresentação do panorama da arte brasileira – apresentação na qual esquece alguns nomes que não deveriam ser esquecidos – e que requer mesmo uma revisão, mas que exibe a tomada de consciência da magnitude de movimento.

Lírico, organicista, gestual, caligráfico, geométrico ou concretista, o abstracionismo na gravura brasileira refere-se diretamente ao grande movimento internacional que se iniciou com Kandinski e evoluiu até o chamado hard-edge minimalista, abrangendo a mais vasta multiplicidade de técnicas. Fayga, Edith Behring, Anna Letycia, Piza, Anna Bella Geiger, Ligia Pape, Miriam Chiaverini, Maria Bonomi são nomes que marcaram a história da arte no Brasil, exercendo uma influência cujo âmbito ainda não nos é possível delimitar.

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Sobre Jayme Mauricio:

Crítico de arte de destacada atuação no jornal carioca Correio da Manhã, Jayme Maurício Rodrigues Siqueira nasceu em Porto Alegre (RS). Ainda no Sul, foi aluno do Liceu de Artes e Ofícios e, depois, quando se mudou para Belo Horizonte (MG), estudou pintura com Alberto da Veiga Guignard. Ao fixar residência no Rio de Janeiro, em 1952, aproximou-se do designer gráfico e gravador Tomás Santa Rosa, de quem se tornou amigo.

Jayme Maurício iniciou sua carreira de jornalista no Correio da Manhã, em 1950, onde escreveu sobre teatro, música, rádio, televisão, cinema e balé. Sua atuação no cenário cultural do Rio foi além da colaboração na imprensa: participou com entusiasmo do movimento que, em 1951, buscava uma sede definitiva para o Museu de Arte Moderna (MAM), criado em 1948. O projeto, que contou com o apoio de Paulo Bittencourt e de sua mulher, Niomar Moniz Sodré, donos do Correio da Manhã, teve em Jayme Maurício, a partir de 1952, um de seus vorazes batalhadores.

Nas novas instalações do MAM, Jayme Maurício passou a promover exposições de artistas como Manabu Mabe, Djanira e Hélio Oiticica.

Morreu em 1997, no Rio de Janeiro.

Fonte: Instituto Moreira Salles

A gravura visceral de Lêda Watson

“A gravura é uma expressão artística que tem um lado exuberante, espontâneo e tem um lado racional.  Eu tenho os dois dentro de mim. Como professora,  tenho um lado racional super organizado e tenho o lado “pluff” da explosão total.” Lêda Watson   Lêda,  gostaria ... leia mais

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