O Papel da Arte

A XILOGRAFIA POPULAR DO NORDESTE E ALGUNS CASOS DE INTERCÂMBIO FORMAL COM A ARTE ERUDITA

Mário Barata, (1921-2007), Professor Emérito de História da Arte da UFRJ.

Mário Barata, (1921-2007), Professor Emérito de História da Arte da UFRJ.

Mario Barata

Um estudo sobre a gravura brasileira não pode deixar de examinar alguns dos contatos que no século XX existiram entre a xilo popular e a arte erudita. A partir de colecionamentos básicos, como os da Fundação Casa de Rui Barbosa (RJ), do Museu Theo Brandão, de Antropologia e Folclore da Universidade Federal de Alagoas, do Museu do Folclore Edison Carneiro, da Funarte (RJ), do Museu de Arte da Universidade do Ceará e das investigações e interpretações de Ariano Suassuna, Theo Brandão e Clarival Valladares, e ainda as de  Cavalcanti Proença e Orígenes Lessa – estes a partir da dita “literatura de cordel” -, foi facilitada a visão e compreensão destas xilografias, no Brasil. E surgiram algumas edições especiais de xilos populares nordestinas, todas criadas no século atual. De mestre Noza houve um álbum lançado em 1965 em Paris. De vários autores há tiragens editadas em livros, por iniciativas como as da Galeria Ranulfo e por G. Baccaro, em Pernambuco, ou pelo já referido Museu Theo  Brandão, em Alagoas.

Numa perspectiva da História Geral da Arte, a gravura popular europeia não é caso idêntico ao das xilos populares brasileiras, que são muito mais recentes e não participam da abrangência técnica e estilística da gravura dita popular e mesmo folclórica do Velho Mundo, a qual teve duração bem maior no tempo. É bastante conhecido, por exemplo, o livro Grabados populares españoles, obra de Augustí Duran – Sanpere, lançada na última década de 70 (Ed. Gigli), que nos mostrara a gravura popular ibérica, a qual desde o século XVI é rica de modulações e recebe influências de estilos eruditos, não se limitando à técnica gráfica da xilografia, pois usou bastante o metal como base. O século XVIII rococó marcou a arte popular na Espanha, na França e na Alemanha, por exemplo.

Os folhetos de cordel são também internacionais e, em Portugal, Nicolau Tolentino identificou-os cedo como os que “se vendem a cavalo barbante”. Segundo a Grande Enciclopédia portuguesa e brasileira, da Editorial Enciclopédica e Ltda, de meados deste século, de Portugal, “no século XIX a literatura de cordel apaga-se e extingue-se quase na época atual.”

Há algo de particular na aparente rudeza da xilografia popular do Nordeste brasileiro, que se desenvolveu no decorrer do século XX. As edições das mesmas, com caráter especial, já fora do seu circuito inicial ligado à literatura dita de cordel – a que os franceses chamam, a que surge em seu país, de litterature de colportage – são tardias, desde as de estudo até as que resultam de encomendas de museus e centros folclóricos. Estas se aprimoraram nos recentes anos 70 e 80. Críticos de arte brasileiros, como Lourival Gomes Machado, já as destacam no início da década de 1960 e os maiores focos de seu estudo se situam no Museu Théo Brandão, de Antropologia e Folclore, da Universidade Federal de Alagoas, e em centros da Universidade Federal do Ceará e da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Não se destacou – apesar de terem surgido colecionadores desta arte, em nosso país – nenhum caso exemplar como o de Vitalino, na arte da cerâmica em Caruaru, extraordinariamente criador na sua interpretação da vida da região.

Uma edição de estudos que possibilitou maior conhecimento da gravura popular a que nos referimos foi a do livro Xilógrafos de Juazeiro, por Geová Sobreira (Ed. UFC, 1984), com apresentação de Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes. Ali se mostra que autores franceses, ao tratarem de exemplo sociologicamente paralelo no seu país, mas plasticamente diferente do surto brasileiro dessa arte, não destacavam o lado plástico visual ou o eventual valor estético da criação formal equivalente na França. Cita obras de Charles Nisard, de Genevière Bollème e Robert Muchembled, este em obra de 1978 (Edição Flammarion).

"Lampião e Jose Mardolino", xilogravura de Mestre Nosa.

“Lampião e Jose Mardolino”, xilogravura de Mestre Nosa.

Diatahy ressalta que, após os artigos de Lourival, a Embaixada do Brasil em Madrid, em 1963, publicava Grabados populares del Nordeste del Brasil, com texto de Angel Crespo e prólogo de João Cabral de Melo Neto. E acentua que em 1965, o editor Robert Morel lançou em Paris o álbum 14 Bois originaux graves par Mestre Noza, com estudo específico de Sérvulo Esmeraldo, bom artista contemporâneo cearense. Voltaremos a falar de Noza, dentro em pouco.

A técnica da xilografia nessa arte popular brasileira e em artistas eruditos, que se interessa pelo seu impacto visual neste século de modernismo criador ou mesmo em decorrência de afinidades no ofício, conduziu a resultados de aparente  conexão com certos momentos da história das artes gráficas ou esculpidas. Na França, certa gravura dada como de 1486, representando diabos atormentando figuras humanas, foi concebida e tratada com múltiplos elementos lineares de uma forma que se poderia dizer atemporal. É sobretudo a técnica, além do imaginário, que levou a essa unificação plástica. Os calvários e a epigrafia da Bretanha também são uma arte de força popular que exprime bastante o resultado de uma técnica artística, ademais do que possa ter ocorrido no âmbito sociológico e de conteúdo.

"Sem título", xilogravura sobre papel arroz de Isa Aderne.

“Sem título”, xilogravura sobre papel arroz de Isa Aderne.

A influência da matéria e da técnica na geração de formas é comprovada por feições assumidas que afloram em parte da produção artística em peças de criação distanciadas umas das outras por séculos. A já aludida xilo religiosa francesa do final do século XV, com o linearismo multiplicado e vibrante e a simplificação ingênua de olhos e perfis de rostos e afins, a qual irão atingir alguns artistas brasileiros do século XX, que olharam as nossas gravuras de cordel com sentimento moderno mas se orientando para uma direção diversa da que ocorreria nas soluções de grandes campos negros chapados.

"Sem título", xilogravura sobre papel arroz de Newton Cavalcanti.

“Sem título”, xilogravura sobre papel arroz de Newton Cavalcanti.

Artistas eruditos como Newton Cavalcanti e Isa Aderne, no presente século, não estão longe  da primeira forma vibrante, já referida, de linearismo popular, mas isso sobretudo em decorrência de usos e técnicas simplificadas da madeira. Mesmo um artista  erudito, com a sua formação europeia de desenho, como o ilustre mestre Oswaldo Goeldi, ao empregar os sulcos impulsionados pelo trata da madeira atingiu às vezes resultados afins aos de uma xilografia mais espontânea. Exemplo disso ocorre em Retrato de Carlitos, 1, de cerca de 1943, com xilomatriz no acervo Banerj. As formas soltas e imaginárias de Newton Cavalcanti e Isa Aderne são diferentes.

No âmbito popular, a arte de Mestre Noza, cujo nome real era Inocêncio da Costa Nick, atinge maior qualidade formal pelo uso de superfícies com chapadas de negro, compostas sistematicamente em partição de três partes verticais simétricas ou em duas metades também verticais, o que organiza fortemente o seu espaço, dando-lhe certa regra rítmica em sua simplificação. Nascera em Pernambuco por volta de 1897, mas aos três anos de idade foi com os pais para Juazeiro do Norte, no Ceará. Segundo pesquisas locais, aproximadamente em 1918 começa a gravar rótulos para marcas de aguardentes, tendo tido anteriormente rápida aprendizagem em trabalhos de escultura, arte a que também sempre se dedicaria. Sérvulo Esmeraldo informou que as peças gráficas de Noza se conservaram muito menos do que as escultóricas , e referiu, no texto já citado, que “a Vai Sacra que aqui apresentamos constitui uma etapa importante de sua obra gravada com uma Vida de Lampião (20 pranchas) e os Doze Apóstolos (13 pranchas).”

Da Vida de Lampião saiu em 1962 uma edição do Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará. Com o título de Vida e morte de Lampião saiu em 1974 outra edição promovida pela Casa das Crianças de Olinda (PE), acompanhada de versos de Delarme Monteiro, a qual veio a ser republicada em março de 1981 conjuntamente pelo MEC/Pronasec Rural-SEC/Pb-b-Funape. As dimensões das pranchas são 10,5cm de altura por 13cm de largura. O formato pequeno era habitual nesse pioneiro e se coadunava com os tacos de madeira, geralmente imburana, usados na literatura de cordel. A expansão artística aceita por um mercado específico levou outros artistas a passarem à utilização de formatos maiores. Uma via sacra de Jotabarros, feita mais tarde no Nordeste, já possuía o formato de 53cm de altura por 38cm de largura, sendo a margem do papel pequena. Imprensas universitárias do Nordeste já publicavam álbuns de sentido artístico e, em janeiro de 1965, a do Recife imprimiu o álbum Xilogravura popular, com introdução da editora e em 120 exemplares. O preto da tiragem, ao menos no exemplar do acervo do Museu Folclórico Edison Carneiro, é fraco, diminuindo o valor dos trabalhos. Também no Rio de Janeiro várias entidades publicaram álbuns especiais. Em 1973, Theo Brandão editou na Universidade Federal de Alagoas o álbum com cinquenta Xilogravuras populares alagoanas, com trabalhos de José Martins dos Santos, Manoel Apolinário, Antonio Almeida, Antonio S. Fundo, com pranchas pequenas ao centro de papel na dimensão de 28cm x 22cm, margem grande que dá dignidade erudita às peças, cujas matrizes possuem 9cm x 6,5cm. São trabalhos com expressiva simplificação formal e Brandão ra um dos maiores folcloristas brasileiros.

"Os Magos", xilogravura de Ciro Fernandes, 2004.

“Os Magos”, xilogravura de Ciro Fernandes, 2004.

No final dos anos 80, um álbum com “36 imagens exemplaires” foi publicado na França, com prefácio de R. Cantel e estudo de Sophie Mabilon, o qual incluiu Francisco Ciro Fernandes – o autor de gravuras sobre a história de Adão e Eva. A respeito do imaginário do “pecado original”” foi destacado em mostra “Bendito Fruto, Mulher”, de 1988-1989, no Museu do Folclore Edison Carneiro, no Rio, uma xilogravura bem conhecida de Amaro Francisco.

"Moça roubada", xilogravura de J. Borges.

“Moça roubada”, xilogravura de J. Borges.

Em 1985, saiu no Recife uma edição com o título Os Borges de Bezerros, lançada pela Coperbe, reunindo quatro peças de artistas dessa família, na qual o mais conhecido talvez seja o José Francisco que se assina “J.Borges” e que domina com elegância a composição das formas desenhadas na gravura. Entre os seus trabalhos, é bastante conhecido o “São João do Carneirinho”, que esteve exposto na mostra no Museu do Folclore Edison Carneiro. Sendo trabalho mais recente que os do pioneiro Mestre Noza, este Borges pode ter tido contato com livros e reproduções de arte, mas a sua simplificação das formas ainda é de saber popular.

"O senhor do dia", xilogravura de 1988 de Gilvan Samico.

“O senhor do dia”, xilogravura de 1988 de Gilvan Samico.

Citaremos agora alguns artistas de formação ou índole erudita que procuraram documentar o folclore brasileiro e através disso se aproximaram um pouco da liberdade da gravura popular. Desejamos realçar quatro dos artistas eruditos que, em sua forma, de uma maneira pessoal, foram marcados pela presença da cultura popular do Nordeste. Neste volume, estão presentes três deles: Newton Cavalcanti, Isa Aderne e José Altino. O outro, morador em Olinda e no Recife, Gilvan Samico, nasceu na segunda cidade em 1928, porém estudou, a partir de 1957, em São Paulo, com Lívio Abramo, vindo depois para o Rio de Janeiro, onde completou estudos com Goeldi, passando a dedicar-se basicamente à xilografia. Se a formação inicial do ateliê coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife já o entrosava com o sentimento moderno das formas, a presença de certas soluções de cores chapadas e ritmos simétricos em suas obras o ligou à lição da gravura popular nordestina. Seu imaginário é gerador de forte impacto visual e, em 1990, o Museu de Arte Contemporânea da USP escolheu oito de seus trabalhos para serem impressos no calendário do ano. Freqüentemente, faz tiragens de um só exemplar, e usa formatos grandes e trabalhos para as peças. É, em nível erudito, uma das maiores expressões do influxo da gravura popular, nordestina na arte do Brasil. Em 1965, o colecionador Abelardo  Rodrigues, escrevendo no Recife, aprontava que Samico tivera prêmio na Bienal de Veneza e era grande exemplo de influência da gravura popular.

"Oxossi, divindade da floresta ASSINA", xilogravura de 1969 de Misabel.

“Oxossi, divindade da floresta ASSINA”, xilogravura de 1969 de Misabel Pedrosa.

Entre os gravadores que se interessaram muito pelo folclore, estão Mizabel Pedrosa, que em 1973-74 publicou com vinte xilos o álbum Folclore do Rio Grande do Norte, editado pela Fundação José Augusto, em Natal. Inclui aspectos de danças ou autos como “Nau Catarineta”, “Boi Kalemba” e “Chegança”. E, nascido em Pernambuco, mas residente no Pará, Ararê M. Bezerra, cujo álbum com doze reproduções de xilogravuras foi editado conjuntamente, depois de 1965, pelo Centro Cultural de Arte e Folclore da Amazônia e pelo Ateliê de Arte-Ararê. São artistas de manifestação erudita e não de influxo formal do popular: Mizabel foi também professora de arte, no Rio e em Minas. Feita a distinção entre o interesse pelo folclore de um lado e a manifestação criadora visual de outro, a conexão essencial abordada neste estudo foi a realizada pelo segundo grupo, dentro do clima que marcou o século XX e sua liberdade criativa.

Fonte:
Artigo publicado nas páginas 151 a 155.
Gravura Brasileira Hoje : depoimentos Vol.2
SESC Regional do Rio de Janeiro
(org. Heloisa Pires Ferreira, Maria Luiza Távora e Adamastor Camará)
Rio de Janeiro: SESC/ARRJ, 1996.
193p.

A gravura visceral de Lêda Watson

“A gravura é uma expressão artística que tem um lado exuberante, espontâneo e tem um lado racional.  Eu tenho os dois dentro de mim. Como professora,  tenho um lado racional super organizado e tenho o lado “pluff” da explosão total.” Lêda Watson   Lêda,  gostaria ... leia mais

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