O Papel da Arte

CARLOS OSWALD, MESTRE DA GRAVURA BRASILEIRA

Paulo Vergolino

Na atualidade, o Brasil se encontra muito bem representado por artistas gravadores. Com a vinda da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, gerou grandes benefícios a, então, incipiente colônia do Brasil. Os milhares de objetos que chegaram ao País, pertencentes ao espólio de D. João VI (1767-1826), formaram o núcleo do acervo mais antigo daquele que é, hoje, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. Alguns anos mais tarde, o Brasil também receberia grande quantidade de gravuras em metal e 498 matrizes oriundas da Oficina Lisboeta do Arco do Cego (1799-1801), referentes especialmente à cartografia, à botânica e à zoologia, cuja coleção possui grande importância para a história da gravura portuguesa e brasileira e que se encontra, atualmente, sob a guarda da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. 

Carlos Oswald em seu atelier em Paris, 1910.

Além da fundação da Imprensa Régia ainda em 1808, o monarca fez chegar ao Brasil, em 1816, a famosa Missão Artística Francesa, chefiada por Joachim Lebreton (1760-1819), e da qual fazia parte o pintor e gravador Jean-Baptiste Debret (1768-1848). A Imprensa Régia foi o núcleo do primeiro conjunto de gravadores do país e foi em torno dela que se dá o movimento inicial da gravura no Brasil. 

A partir de então surgiram numerosos artistas pintores, escultores e gravadores de relevante importância. Henrique Alvim Corrêa (1876-1910), Modesto Brocos y Gomez (1852-1936), Pedro Weingärtner (1853-1929) e Raul Pedrosa (1892–1962) foram artistas que também se aventuraram no campo da gravura, num terreno ainda virgem, em meio a um contexto que engatinhava no ensino e na difusão das artes plásticas. 

"Pedra de Itapuca em Icaraí", Gravura em metal, aquarelada, 1940. Coleção particular, RJ.

A gravura desenvolveu-se e, a partir do século XX, uma nova concepção da forma de gravar foi gradativamente sendo instaurada. Antes vista apenas como um meio de reprodução, inspirada no trabalho de terceiros, a gravura começou a expressar-se diretamente das mãos de quem a concebia, libertando-se da fidelidade a outrem, quando passou a ser denominada gravura artística. 

Dentre esses mestres surgiu um de primeira grandeza: Carlos Oswald (1882-1971). Chegou ao Brasil em 1913, pela segunda vez, com formação em arte e música. Havia sido premiado em terras brasileiras em 1904 (menção honrosa) e em 1906 (medalha de prata) quando, por intermédio de seu pai, enviou pinturas para a Exposição Geral da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Carlos Oswald veio com a intenção de realizar a mostra de seus trabalhos e retornar à Florença, mas seu pai, o maestro e compositor brasileiro Henrique Oswald (1852–1931) – que fora chamado a ocupar a direção do Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro -, começou a sentir necessidade de transferir sua família da Itália para o Brasil, intenção que, de fato, se concretizou. Carlos, que optara pela pintura, e não pela carreira de música nem de engenharia, é igualmente impedido de retornar à Itália pela eclosão da 1ª. Guerra Mundial. 

Antes de sua vinda, o artista já executara gravuras em água-forte. À época, estudou gravura com o água-fortista norte americano Carl Strauss (1873-1957), de ascendência alemã. Segundo Maria Isabel Oswald Monteiro, Strauss foi o único mestre de Carlos Oswald. No Brasil, o artista integrou-se facilmente à vida cultural carioca, e em 1914 foi convidado a inaugurar e dirigir a Oficina de Gravura do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, entidade vinculada à Sociedade Propagadora das Belas Artes. 

"Pão de Acúcar", gravura em metal, 1933. Coleção Privada, SP.

Quando da análise da obra do artista nesse período, percebe-se a grande importância que dava à forma. Os temas mais recorrentes trazem representações da paisagem, da figura humana e da vida animal. Seu traço firme, composto de jogos de claro-escuro corretos, foi a marca que o acompanhou durante quase toda a sua carreira, exceto em suas últimas obras, quando a deficiência visual se encontrava avançada. Indiscutivelmente o artista produziu obras de cunho impressionista de extrema beleza. 

Apesar da quantidade relevantemente maior de gravuras em preto e branco, é necessário ressaltar que o artista, antes mesmo de gravar sua primeira chapa no Brasil, executara obras com a utilização de tinta colorida, e nas quais se notava a mesma precisão técnica e riqueza de detalhes do conjunto, acrescidas do toque vivaz da cor. Segundo o professor e pesquisador Orlando DaSilva, o artista produziu sua primeira gravura em cores em 1910, ainda na Europa. 

"Carregando madeiras", Gravura em metal, 1909. Coleção Particular, RJ.

Nesse período – considerado assaz profícuo para a arte da gravura em metal no Brasil -, o artista trabalhava com afinco, sulcando um sem número de chapas e lutando para ganhar adeptos. Sua atuação como professor foi fundamental para que a técnica fosse reconhecida, respeitada e divulgada. Imprimiu caráter expressivo à arte da gravura e buscou apoio às suas idéias numa sociedade que ainda via a gravura como mera representação técnica e como um processo de reprodução menor, longe de ser qualificada como arte em si.

Carlos Oswald superou todas as adversidades, inclusive o fechamento de sua Oficina no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, em 1920. Dez anos depois, em 1930, continuava o ensino dessa arte quando a Oficina reabriu e o emérito professor pôde contar, entre seus alunos, nomes que hoje fazem parte da moderna e premiada gravura artística brasileira: Poty Lazarotto (1924-1998), Hans Steiner (1910-1974), Darel Valença Lins (1924), Henrique Carlos Bicalho Oswald, seu filho (1918-1965), e Orlando DaSilva (1923) que, futuramente, tornar-se-ia o maior conhecedor vivo da obra de seu mestre. 

As obras de caráter religioso de sua autoria também são dignas de nota: executou inúmeras gravuras, pinturas, desenhos e guaches ligados ao tema sacro, e é dessa época sua primeira Via Sacra, realizada em 1934, obra que lhe valeu, em maio de 1957, a Comenda “Ordem Equestre de São Gregório Magno”, a ele conferida pelo Papa Pio XII (1876–1958). 

"A visitação", gravura em metal, ponta seca, 1914. Coleção particular, SP.

Seu nome está ligado também ao do engenheiro carioca Heitor da Silva Costa (1873-1945) no que se refere à concepção do monumento máximo brasileiro, O Cristo Redentor, inaugurado solenemente no morro do Corcovado em 1931. É de seu ateliê que saíram os croquis enviados a Paris, e que possibilitaram a execução da obra pelo escultor francês de origem polonesa, Paul Landowski (1875-1961). 

É inegável a atuação de Carlos Oswald no meio artístico da época: participou ativamente de Salões de Belas Artes (foi dele a primeira exposição de águas–fortes, realizada em 1919 no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, junto com seus alunos) e da organização de exposições; era membro de júris; e escreveu um número significativo de matérias e de artigos para jornais sobre arte e religião. 

Em 1957, Carlos Oswald publicou sua autobiografia, “Como me tornei pintor” e, em 1962, chegou a ter quase todas as suas obras gravadas, bem como as obras de seus alunos, doadas ao Museu Nacional de Belas Artes que passou a ter então, sob sua guarda, praticamente a obra integral do artista. 

Ao completar 80 anos, Carlos Oswald recebeu placa comemorativa nas dependências do Museu. Administrações posteriores possibilitaram o extravio da placa e, com a intenção de corrigir a falha, Alcídio Mafra de Souza, um dos diretores do Museu, nomeou a sala permanente de gravura do Museu com o nome do artista. 

Depois da atuação de Carlos Oswald como professor, o ensino formal da arte da gravura estendeu-se gradativamente a todo o país, ganhando mais e apaixonados adeptos, que cuidaram de elevar à máxima potência as diversas técnicas da gravura. Nomes contemporâneos ao de Carlos Oswald devem juntar-se a ele como pioneiros, pois trilharam carreiras incompreendidas, árduas, criando, porém, obras de rara beleza, como Oswaldo Goeldi (1895–1961), Raimundo Cela (1890–1954), Lívio Abramo (1903–1992) e Lasar Segall (1891-1957). A despeito de suas mais diversas influências e objetivos, deixaram uma reunião de trabalhos de fundamental importância para o estudo das artes plásticas no país, acrescido talvez da mais relevante lição de uma obra gravada: o caráter eminentemente democrático que a reprodutibilidade alcança. 

Bibliografia: 

VERGOLINO, Paulo Leonel Gomes. Carlos Oswald: o resgate de um mestre. São Paulo: Pancrom, 2010. 

Nota:   Visite o maravilhoso site criado por Paulo Vergolino  dedicado à arte da gravura: http://www.mestresdagravura.com 

O PAPEL DA ARTE possui para venda algumas obras de Carlos Oswald. Visite a seção ARTISTAS.

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