O Papel da Arte

DIEGO SAN e as xilogravuras da série “Iniciativa de sobrevivência”

DIEGO SANN: “Iniciativa de sobrevivência XIII”, xilogravura colorida, 2018.
DIEGO SANN: “Iniciativa de sobrevivência XIII”, xilogravura colorida, 2019.

Há que se falar de Diego Sann. Não gastarei aqui elogios a sua técnica apurada, tampouco a sua capacidade de composição plástica, onde a harmonia das cores revela o talento deste jovem mestre da xilogravura brasileira. Essas qualidades são o resultado esperado, após anos de dedicação e suor. A verdadeira arte, porém, é mais do que apenas técnica; ela precisa nos emocionar para que seu sentido seja esteticamente experimentado, e a razão de sua existência, comprovada.

Pretendo tratar, nestas poucas linhas, da poética na obra de Diego Sann, gravador brasileiro com vasto currículo, além de participações e prêmios em bienais nacionais e internacionais de gravura. Sua obra é um espelho que reflete o espírito criativo do artista, traduzindo em imagens o pensamento crítico social sem, contudo, cair na mesmice ou na simples panfletagem política; nela, o uso de palavras de ordem dá lugar à verdadeira função da arte: nos tocar, nos emocionar – e, sim,  quando possível, nos alertar sobre os caminhos e descaminhos da sociedade em que vivemos. Sua gravura é seu grito de dor que tem como fim chamar a atenção para aquilo que o incomoda: o grande abismo social do Brasil!

DIEGO SANN: “Iniciativa de sobrevivência IV”, xilogravura colorida, 2017.
DIEGO SANN: “Iniciativa de sobrevivência IV”, xilogravura colorida, 2017.

A poética de sua gravura está ligada a uma visão ambivalente da realidade, um olhar compartilhado entre dois mundos: aquele que queremos enxergar, usufruindo das boas coisas que nos oferece, e aquele mundo paralelo, para o qual preferirmos fazer vista grossa, desviando nosso foco para o que está diante de nós e sobre o que evitamos pensar. Podemos constatar que este mundo é retratado pelo artista através da ausência da cor e da utilização apenas do preto e do branco, mantendo a velha tradição da gravura expressionista brasileira onde, na maioria das vezes, tais cores – e, por que não dizer, não cores –revelam, por si só e ao mesmo tempo, essa escolha artística e sua inerente preocupação social.

Ao retratar um mundo em cores vibrantes e alegres, típicas da bela xilografia nordestina – que  nos traz à lembrança o universo mágico de J.Borges em sua xilografia popular -, Diego Sann propõe uma reflexão sobre aquilo que não é retratado e que gostaríamos que não fizesse parte de nosso mundo, mas que lá está,  presente, dividindo a mesma rua, a mesma praça e o espaço urbano como um todo. Falo das pessoas humildes, dos burros sem rabo, dos catadores de papel e de lixo reciclado, dos motoboys e dos empregados do comércio, que insistem em atrapalhar nossas fotos e selfs retratando as fachadas coloridas dos sobrados restaurados de Fortaleza, como se a  cidade não tivesse seu lado B, um mundo preto e branco, triste e miserável. Diego Sann usa a cor como um divisor de águas, que delimita e identifica o espaço pictórico entre a riqueza e a pobreza, entre a beleza e a luta pela sobrevivência. O uso da cor expressa sua visão positiva da vida, da alegria, dos amigos, da família e do otimismo, enquanto o preto e branco evidenciam a miséria, a escassez, a tristeza, a pobreza e as dificuldades frente às vicissitudes de um mundo cada vez mais cruel.

DIEGO SANN: “Iniciativa de sobrevivência VII”, xilogravura colorida, 2018.
DIEGO SANN: “Iniciativa de sobrevivência VII”, xilogravura colorida, 2018.

Sua série Iniciativa de sobrevivência, que vem sendo composta nos últimos anos, revela-nos  uma visão e  preocupação sociais através da exposição e contra posição dos valores pictóricos representados por signos visuais, onde a cor e a não-cor – como se o preto e o branco não fossem cor – são a forma de reconhecermos a riqueza e a pobreza, a miséria e a abundância, o ideal e o real. Na gravura Iniciativa de sobrevivência VI podemos observar claramente essa ambivalência, onde a beleza de um sobrado de inspiração art nouveau colorido e gracioso, testemunho ocular da história, observa, impassível, a vida dos trabalhadores mais humildes, que a cada dia tornam-se ainda mais invisíveis no mundo atual. Ao fundo, vemos o progresso representado por edifícios modernos, sem mais espaço para aqueles que não tiveram acesso à educação, e onde o sol e o céu azul de uma Fortaleza outrora caipira há muito deixou de brilhar para todos.

A gravura de Diego Sann nos encanta por sua composição figurativa, pelo traço preciso de seu buril e pelo resgate de uma arquitetura muitas vezes desapercebida pelos trabalhadores, preocupados somente no ir e vir dos grandes centros urbanos, sem que façam uma pausa para olhar a beleza pitoresca de um passado que, em determinado momento da  história, se propôs a anunciar um futuro promissor a todos. O resgate histórico do registro destas construções é mais uma reflexão que o artista nos convida a fazer diante da importância que representa a cultura e o patrimônio histórico, configurando-se num testemunho inequívoco de seu crescimento e desenvolvimento.

A obra de Diego Sann é mais uma demonstração da universalidade da arte, pois pode ser compreendida e fruída por cidadãos de qualquer lugar do mundo. Sua mensagem e preocupação social não são novas na história da arte; são, porém, originais, ao transpor para suas gravuras uma poética que nos emociona e nos sensibiliza profundamente.

Julio Reis
Mestrando em História e Crítica da Arte
Escola de Belas Artes / UFRJ

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