O Papel da Arte

ENTREVISTA COM MONICA BARKI

 

Monica Barki

Monica Barki, uma das mais completas artistas brasileiras que surgiram nos anos 80 está com uma nova exposição que comecará no dia 09 de setembro na Galeria Acervo da Casa de Cultura da América Latina em Brasília. Sua nova série de desenhos sob o título de “Lady Pink et ses garçons”  foi inspirada num vídeo produzido pela própria artista no You Tube e mostra a mulher não como uma vítima submissa ao homem e sim uma corajosa, sagaz, dona da situação, invertendo os papéis culturalmente assumidos por cada um. Entrevistei a artista onde ela falou sobre sua obra e seu retorno ao desenho:
    
JR: O crítico de arte Frederico Morais, num belo texto de 1994, diz que sua pintura insinuava o inacabado dos croquis, mas que na verdade é tudo calculado, premeditado, cercado por um domínio técnico. E podemos atestar isto ao vermos seus desenhos da suíte “Lady Pink et ses garçons”, em cartaz atualmente na Casa de Cultura da América Latina em Brasília. Ao passearmos por essas imagens, esses personagens Fellinianos de Satyricon, nos perguntamos como foi o processo de criação dessa suíte. E porque escolheu o desenho ao invés da pintura para criar esses personagens?

MB: Quando adolescente, tive um professor maravilhoso que me dizia: técnica todo mundo pode aprender, mas conteúdo, isto é, o que fazer de interessante com a técnica, isso sim, é uma questão difícil de ser resolvida.  Eu criei a série Lady Pink et ses garçons, a partir de um video intitulado “Vermelho sobre Branco”, de minha autoria, quando o postei no YouTube e percebi que este tinha ficado relacionado a outros, que tinham ligação com o tema da luta corporal. Comecei a assistir e investigar uma quantidade enorme de vídeos na rede e me senti atraída por cenas realmente fellinianas, personagens bizarros e aberrações dignas de cair o queixo. Tinha comprado um rolo de 20 metros de papel fabriano há um tempo atrás e não sabia como iria usá-lo. Ele estava me pedindo por favor para ser usado. Já não desenhava há quase 20 anos e estava com vontade de experimentar uns lápis em tons de sépia, que tinha comprado numa viagem recente à Nova York. O tom de sépia é interessante porque dá a impressão de atemporalidade à cena retratada. Eu queria fazer também desenhos tipo cineminha, isto é, desenhos com uma sequência de movimentos. Além disso estava precisando me concentrar em alguma coisa que me desse prazer, pois estava passando por uma fase difícil em minha vida, uma fase de grande mudança, que culminou com o falecimento de meu pai. Então, eu sentava pra desenhar, e ficava horas a fio debruçada no desenho como se estivesse praticando yoga ou meditação. Esse processo foi terapêutico e gratificante pra mim.     

  
 
 
“Lady Pink et ses garçons”, desenho, Monica Barki.

 

JR: Em diferentes momentos de sua carreira você retorna ao papel como continuidade de sua obra. As pinturas, assemblages e esculturas são produzidas e nos intervalos entre elas sua obra em papel volta a aparecer. Seria esse um momento de retorno ao desenho uma pausa para reflexão mais íntima de sua arte ou você utiliza todos os suportes simultaneamente?

MB: Eu geralmente crio uma série à medida em que vou desenvolvendo uma determinada técnica e quando concluo essa série e a exponho, sinto logo vontade de começar a desenvolver uma outra técnica, uma técnica diferente. Adoro explorar novos materiais, novos suportes. Gosto de me enveredar por caminhos desconhecidos e quando aprofundo, costumo descobrir técnicas e métodos muito pessoais. Concordo com você que o desenho abre a possibilidade de uma reflexão mais íntima e com esta exposição particularmente, sinto que estou expondo e “me expondo” também muito. A opção é minha.

JR: Monica, ao olhamos retrospectivamente para sua carreira vemos que você é uma artista ilimitada no uso dos mais variados suportes para sua criação artística. Papel, telas, rolos, tecidos, plásticos, couro enfim, todos esses materiais se moldam às suas mãos, lhe são subordinados. O papel especificamente reencontra suas origens e sua importância na arte quando você produziu por exemplo em 1982, numa série de litogravuras cujo tema eram fotos de sua família. Poderia nos falar sobre esse diálogo constante que você mantêm com o papel, explorando sob um novo olhar técnicas tão tradicionais ?

MB: Essa série de litografias, a qual chamei de “Album de Família” foi um marco na minha trajetória. Nessa época frequentava o atelier de gravura da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e tinha 24 anos, quando fui convidada a expor pela primeira vez no Rio. Nunca imaginei que essa exposição causaria tanta polêmica. O fato é que algumas pessoas da família levaram na brincadeira, pois a minha intenção era essa mesmo, porém houve outras, que alegaram uso indevido da imagem e que o meu trabalho era pornográfico e me processaram. O trabalho foi apreendido pelo oficial de justiça em pleno coquetel de inauguração da mostra . A notícia correu a solta pelos jornais e logo em seguida ganhei 3 prêmios pelo Brasil apresentando parte da série que felizmente não tinha sido apreendida.

Agora, na série Lady Pink et ses garçons, eu retomo o desenho, mas de outra forma, capturando imagens da rede mundial. Sinto que estou mais amadurecida, minhas ideias e sentimentos são universais, e falo de um tema básico, fundamental: a mudança que ocorreu na mulher dos dias de hoje… estou falando da virada da mulher vítima e submissa para a mulher guerreira, poderosa, sagaz.Com uma alta dose de humor, é óbvio e eu adoro.

Bobinas na Caixa Cultural de Brasília, em 2004. Foto de Glaucio Dettmar.

JR: Algum tempo atrás você criou uma interessante exposição onde ironicamente questionava os valores da reprodução da arte, vendendo imagens criadas por você inspiradas em vários temas sobretudo a literatura de cordel e que eram disponibilizadas para a venda na forma de rolos e vendidas a metro. Pode nos falar um pouco sobre essa curiosa experiência e o que a motivou a produzir esses “rolos de arte” ?

MB: A série de bobinas foi uma outra descoberta minha muito peculiar. Eu tinha ido a uma papelaria em Petrópolis, onde morava, e na hora de embrulharem o que eu havia comprado, puxaram o papel de um desses rolos que ficam em suportes com um serrilhado e eu então percebi a logomarca da papelaria impressa e perguntei pra moça do balcão onde é que se fazia aquilo. Ela me deu o endereço de uma fábrica de bobinas em Itaipava e lá fui eu investigar. Descobri , que eles estampavam outros desenhos que chegavam a ser mesmo minuciosos. Preparei alguns desenhos conforme eles tinham me explicado, gravei num CD e levei para a fábrica para que as matrizes fossem feitas. Nessa época, estava trabalhando um outro tema, tinha viajado pelo nordeste e tinha me apaixonado pelos mamulengos, bonecos típicos do teatro popular nordestino e que são super expressivos.Comecei a desenvolver e imprimir muitas bobinas e me veio à cabeça a ideia de vender a metro. Cada bobina tinha cerca de 350 metros impressos e os desenhos lembravam a técnica da xilogravura. Pensei: por que não vender a metro? Quanto mais imprimo, mais barato sai o metro da gravura! Dessa forma meu desenho se tonará acessível a todos! Algumas pessoas chegaram a comprar 30/40 metros para forrar um quarto como papel de parede! Na realidade eu estava questionando o valor da arte e discutindo também a questão da circulação da obra de arte.

Julio Reis

VISITE A EXPOSIÇÃO:

“MONICA BARKI: Lady Pink et ses garçons”
09 de setembro a 30 de setembro.
Galeria Acervo – Casa de Cultura da América Latina
Terça à sexta-feira, de  10h às 20h.
Sábados, domingos e feriados, de 12h às 18h. 

www.cal.unb.br 
SQS Quadra 04  Ed. Anápolis, 1 andar
Informações: 
(61) 3321-5811/ 3325-6543 

 VISITE O SITE DA ARTISTA:  WWW.MONICABARKI.COM.BR

A água-forte no Rio de Janeiro

  Importante testemunho histórico de  Carlos Oswald,  considerado o pioneiro no ensino da gravura de arte no Brasil,  dado ao Jornal Correio da Manhã na edição de domingo, 20 de janeiro de 1952. A água-forte no Rio de Janeiro   O interesse pela gravura hoje em ... leia mais

© Copyright 2010 - Todos os direitos reservados - Made with WordPress