O Papel da Arte

EXPOSIÇÃO “RUGENDAS: UM CRONISTA VIAJANTE” NA CAIXA CULTURAL SP

João Mauricio RUGENDAS, fotografado por Franz Hanfstaengl em 1852. Acervo do Museu Estatal de Munique.

João Mauricio RUGENDAS, fotografado por Franz Hanfstaengl em 1852. Acervo do Museu Estatal de Munique.

 

Poucos artistas estrangeiros que estiveram no Brasil,  conhecidos como pintores viajantes, conseguiram  a notoriedade que  Rugendas recebeu ao desembarcar por aqui em sua segunda visita. Foi recebido com honras jamais alcançadas até então por qualquer outro artista que tenha produzido uma grande obra alusiva ao pais. A publicação de seu álbum Viagem Pitoresca através do Brasil, obteve um grande sucesso numa Europa ávida por informações sobre o mundo novo, suas riquezas e seu pitoresco. Ao chegar ao Rio de Janeiro em 1845 proveniente do Chile,  Rugendas  foi convidado pela Academia Imperial de Belas Artes  a fazer uma exposição retrospectiva de sua obra,  recebendo inclusive encomendas da família imperial para a qual fez vários retratos. O artista recebeu das mãos do próprio Imperador Dom Pedro II a comenda de cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul e no ano seguinte, quando já estava na Europa, a Academia Imperial lhe presta nova homenagem com uma retrospectiva  de suas obras sobre o continente americano.

 

 “Entrée de la rade de Rio-Janeiro. / Entrada da Barra do Rio de Janeiro” . Desenho de Rugendas, gravado por Richard Bonington, litogravura original do Álbum Viagem Pitoresca através do Brasil, 1835.


“Entrée de la rade de Rio-Janeiro. / Entrada da Barra do Rio de Janeiro” . Desenho de Rugendas, gravado por Richard Bonington, litogravura original do Álbum Viagem Pitoresca através do Brasil, 1835.

 

O impacto do seu livro Viagem Pitoresca, uma obra em grande formato composta de 100 pranchas litografadas com as imagens de uma jovem nação fundada há 13 anos, causou  grande impressão positiva junto a Dom Pedro II. Esse álbum de belas imagens e panoramas, sem nenhum caráter científico,  revelou um mundo rico em paisagens de belezas luxuriantes e uma nação em desenvolvimento, onde aspectos pitorescos causavam a curiosidade e admiração dos europeus.

Mas todo esse prestígio havia começado bem antes em 1822, quando aos 20 anos de idade,  autorizado pelo pai, o jovem João Mauricio Rugendas viaja para o Brasil na categoria de desenhista-documentarista científico – registro de plantas, animais, insetos etc – , como membro da expedição russa, chefiado pelo Barão Langsdorff. Durante três anos fez parte desta missão  quando então se desentendeu com  Langsdorff, abandonando a expedição e partindo sozinho para registrar as imagens que hoje conhecemos  do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco.  O artista permaneceu no Brasil até 1825 quando retorna para a europa e começa a preparar a obra gráfica Viagem Pitoresca  através do Brasil. Naqueles anos havia uma grande curiosidade do mundo em relação à América e um mercado efervescente disposto a comprar  livros de viagem ao gosto pitoresco, ou seja, da coisa curiosa, diferente, bonita de se ver. Rugendas aceita o  convite de Engelmann,  dono da mais importante oficina litográfica de Paris e dá-se início à produção do livro sob a supervisão do artista.

 

 “Vue prise devant l´Église de San-Bendo / Vista a partir da Igreja de São Bento”. Desenho de Rugendas, gravado por Vitor Adam, litogravura original do Álbum Viagem Pitoresca através do Brasil, 1835.

“Vue prise devant l´Église de San-Bendo / Vista a partir da Igreja de São Bento”. Desenho de Rugendas, gravado por Vitor Adam, litogravura original do Álbum Viagem Pitoresca através do Brasil, 1835.

 

Engelmann não só dispunha da mais importante oficina litográfica do mundo àquela época como também dos mais habilidosos artistas litógrafos. Richard Parkes Bonington, aquarelista inglês detentor da medalha de ouro na classe de pintura do  Salão de Paris de 1825 e gravador da litografia Entrada da Barra no Rio de Janeiro, obra constante da exposição,  nos leva a concluir que a beleza gráfica da obra de Rugendas  pôde ser transportada para a litografia porque existiam artistas do mais alto nível trabalhando naquela grande empreitada  que seria finalizada apenas  em 1835. O artista não pode acompanhar a impressão de toda sua  obra e  gozar de todo o prestígio e impacto deste lançamento em Paris pois havia partido em 1831 para o México, iniciando uma longa viagem que duraria 15 anos até seu retorno à europa em 1846, tendo como última escala de viagem sua 2ª visita ao Brasil um ano antes.

 

 “Défrichement D´Une Forét / Desmatamento de uma floresta”. Desenho de Rugendas, gravado por Laurent Deroy, litogravura original do Álbum Viagem Pitoresca através do Brasil, 1835.

“Défrichement D´Une Forét / Desmatamento de uma floresta”. Desenho de Rugendas, gravado por Laurent Deroy, litogravura original do Álbum Viagem Pitoresca através do Brasil, 1835.

 

Rugendas construiu uma obra singular, um dos mais belos registros iconográficos do país, somente comparável  à obra de Debret. No entanto Debret, que veio com a missão francesa, nos deixou uma obra com um olhar antropológico acentuado para o mundo daquela época, sob os mais diversos aspectos sociais, culturais e religiosos;  já Rugendas passou longe disso, produzindo uma obra com muito mais plasticidade e leveza onde a exuberância da natureza, da cultura e das questões sociais, eram tratadas de forma mais leve ou pitoresca.  

 

Angela Âncora da Luz, curadora da exposição Rugendas, um cronista viajante.

Angela Âncora da Luz, curadora da exposição Rugendas, um cronista viajante.

 

A curadora da exposição, Angela Âncora da Luz, em entrevista à TV Rede Vida,  resume bem  a trajetória do artista: “Ele faz uma representação daquilo que ele vê, mas ao mesmo tempo ele tem uma carga autoral por essa imaginação, por essa subjetividade, por esse “q” de pitoresco que é subjetivo.”

 

 “Débarquement / Desembarque”. Desenho de Rugendas, gravado por Laurent Deroy e Léon Sabatier, litogravura original do Álbum Viagem Pitoresca através do Brasil, 1835.

“Débarquement / Desembarque”. Desenho de Rugendas, gravado por Laurent Deroy e Léon Sabatier, litogravura original do Álbum Viagem Pitoresca através do Brasil, 1835.

 

Seu traço fino e sua grande habilidade em composição nos deixou um registro fidedigno de nossa natureza, das montanhas e vistas urbanas que ainda hoje podemos reconhecer  em várias de suas litografias. Obras como Vista da Igreja da Glória,  Vista a partir do Mosteiro de São Bento ou Desmatamento de um floresta, nos revelam o olhar atento do artista, no registro preciso da paisagem, nos deixando um testemunho ocular da história mas também a visão do artista de aspectos pitorescos como as litografias Desembarque ou Mercado na Praia dos Mineiros. Além das litografias a exposição conta ainda com desenhos, aquarelas, pinturas e livros sobre o artista, totalizando 50 obras originais.

 

“Marché sur la braïa dos mineros / Mercado na praia dos mineros” Desenho de Rugendas, gravado por Laurent Deroy, litogravura original do Álbum Viagem Pitoresca através do Brasil, 1835.

“Marché sur la braïa dos mineros / Mercado na praia dos mineros” Desenho de Rugendas, gravado por Laurent Deroy, litogravura original do Álbum Viagem Pitoresca através do Brasil, 1835.

 

A exposição RUGENDAS: um cronista viajante está em cartaz de 12 de janeiro até 31 de março de 2019 na Caixa Cultural São Paulo, na Praça da Sé, 111  no centro de São Paulo, no período de 09h às 19h e a entrada é franca.

 

 

Julio Reis

OS 40 ANOS DE GRAVURA DE ANDRÉ DE MIRANDA

  “A xilogravura é meu alimento espiritual diário. É com ela  que me equilibro. Xilogravar pra mim é rasgar, cortar, desarraigar uma superfície que resiste. E quanto mais resiste mais decisivo será a marca deixada.” André de Miranda       leia mais

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