O Papel da Arte

FAYGA OSTROWER : gravura abstrata, primeiras experiências.

Há 20 anos atrás a Oficina do SESC-TIJUCA, publicou três livros de entrevistas denominado “GRAVURA BRASILEIRA HOJE: depoimentos”, coordenado pelas professoras  Heloisa Pires Ferreira e Maria Luisa Távora e com as entrevistas feitas por Adamastor Camará,  onde foram colhidos o testemunho dos mais importantes artistas gravadores do país. Tal publicação tem uma importância relevante para a compreensão da história da arte no Brasil, no campo das artes plásticas e a gravura. A coleção além de estar esgotada, não é facilmente encontrada nem em bibliotecas públicas,  deixando portanto de cumprir seu papel na divulgação e no conhecimento da obra de tão importantes artistas e a sua visão e estreita relação no ofício de gravadores. Por isso, O PAPEL DA ARTE reproduzirá todas as entrevistas publicadas acreditando desta forma estar contribuindo para o conhecimento da arte da gravura e da sua história através de seus maiores representantes. Aproveitem e mergulhe no universo de cada um destes maravilhosos artistas.

“Ilustração Hors Series para o Álbum “10 Gravuras”, de 1956, de Fayga Ostrower. Água-tinta e ponta-seca em preto sobre papel.”

“Ilustração Hors Series para o Álbum “10 Gravuras”, de 1956, de Fayga Ostrower. Água-tinta e ponta-seca em preto sobre papel.”

No começo dos anos 50,  já haviam acontecido as primeiras bienais, mas a Arte Moderna ainda era um escândalo. Eu mesma levei algum tempo para compreendê-la. O meu trabalho começou figurativo – os primeiros dez anos são figurativos.

Mas, de 50 até 54, lentamente fui mudando de estilo – eu devia estar buscando alguma coisa. Na época, ganhei de presente dois livros sobre Cézanne. Penso que se não tivesse ganho estes livros, os teria encontrado de alguma outra forma. Isso me revelou um mundo completamente diferente da arte. Até hoje, Cézanne é para mim uma revelação.

Comecei a ver a arte em termos de linguagem, em termos de espaço. Foi então que comecei a dar aulas teóricas, pois me impressionara tão profundamente a ponto de modificar aos poucos o meu estilo. Levei quatro anos descobrindo Cézanne, tentando compreendê-lo e, a partir dele, compreendi o cubismo. Eu mesma nunca tentei ser cubista. O meu caminho me levou diretamente para a arte abstrata.

Os cubistas pararam no momento em que fragmentaram todos os objetos e chegaram a uma estrutura de espaço. Recuaram, então. E fui para a arte abstrata. Em 1954, fiz a minha primeira exposição de gravuras, eram gravuras pequenininhas ainda. Ninguém usava tamanhos grandes, coisa que só se desenvolveu mais tarde. A exposição foi num cantinho do Ministério da Educação, com gravuras abstratas e muito criticadas por alguns artistas e críticos de arte, inclusive o Goeldi – ele simplesmente não aceitou que se pudesse fazer uma gravura abstrata e brigou comigo.

Senti, porém, que era aquilo mesmo que eu tinha que fazer. Não havia saída, não podia voltar. Meu último trabalho figurativo, do qual não tenho nem cópia, tratava de retirantes. Diante dele, senti que não podia ir adiante na arte figurativa, certos temas eu não conseguia mais resolver. Comecei a questionar temas como a fome, a miséria, a bomba atômica, um campo de concentração e o comentário artístico que se podia fazer sobre eles. Para mim, Käthe Kollwitz conseguia dizer alguma coisa, mas era ainda em circunstâncias diferentes. A última pessoa a dizer ainda algo sobre a guerra foi Picasso, em Guernica. Não conheço uma obra de arte que realmente tenha podido abordar um problema social, fazer uma crítica, e esclarecer a consciência das pessoas através da arte. O que você podia  dizer adiante da fome em Biafra? Dá para fazer um comentário estético? Não me senti mais capaz de fazer isso. Quanto mais eu estudava percepção, estrutura, mais se colocava o problema da arte. A teoria sem a prática não me interessava, mas na teoria eu encontrava elementos para uma compreensão.

Até 1960, só quem fazia gravura abstrata era eu. Havia vários grupos de gravadores figurativos, uns de uma linha mais realista e outros de uma linha mais expressionista, como o Darel e a Edith Behring. Só depois é que surge uma nova geração de gravadores e muitos deles, não todos, vão para a arte abstrata. Mas, por exemplo, o Grassmann nunca deixou de ser figurativo. Ele é um grande gravador. Essa linha nunca deixou de existir.

E como era o movimento dos neoconcretistas nos anos 50?

Havia um certo debate neste sentido; duas posições diferentes. Do ponto de vista estilístico, a crítica de arte apoiou muito mais o movimento geométrico da arte do que o movimento não geométrico, mais livre, gestual, chamado de tachismo, sobretudo a partir do Mário Pedrosa, do Ferreira Gullar e Faustino, do Jornal do Brasil. Eles deram apoio, tentando interpretá-la  e torná-la mais acessível ao grande público, mas na realidade, do ponto de vista do espectador, uma era tão incompreensível quanto a outra.

 

Depoimento dado pela artista em 30/10/86 e 26/08/97 para o livro:
Gravura Brasileira Hoje : depoimentos Vol.3
SESC Regional do Rio de Janeiro
(org. Heloisa Pires Ferreira e Maria Luiza Távora)
Rio de Janeiro: SESC/ARRJ, 1997.
196p.

ANNA CAROLINA – DEPOIMENTO PARA O LIVRO GRAVURA BRASILEIRA HOJE

Há 20 anos atrás a Oficina do SESC-TIJUCA, publicou três livros de entrevistas denominados “GRAVURA BRASILEIRA HOJE: depoimentos”, coordenado pela professora e gravadora Heloisa Pires Ferreira e pela professora Maria Luisa Távora, com as entrevistas feitas por Adamastor Camará,  onde ... leia mais

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