O Papel da Arte

ANNA LETYCIA E A REVOLUÇÃO SILENCIOSA

 

“Tatu”, água-forte e água-tinta, 1961. Coleção Particular, SP.

 

 

Ferreira Gullar, poeta e crítico de arte.

Ferreira Gullar, poeta e crítico de arte.


Os anos 50, nas artes plásticas brasileiras, foram marcados por mudanças drásticas, particularmente pela ruptura com a tradição modernista nascida em 1922. Mas, se a pintura e a escultura logo aderiram à linguagem geométrica do Concretismo, a gravura, com raríssima exceção, avaliou com maior cautela as novas propostas e só lentamente as foi assimilando. Anna Letycia, que começou a gravar naquela época, é um exemplo dessa resistência dos gravadores a abrir mãos da linguagem figurativa e da expressão carregada de emoção e subjetividade. Aluna de Oswaldo Goeldi e de Iberê Camargo, estava mais ligada ao universo expressionista do que ao racionalismo e ao objetivismo da linguagem geométrica. Mas não só por isso, também pela natureza mesmo de sua personalidade, inventava o seu mundo imaginário a partir das formigas, caracóis e tatus que descobrira no quintal da infância. 

"Formigas", 1956. Água-forte, água-tinta. Coleção do Artista, RJ.

“Formigas”, 1956. Água-forte, água-tinta. Coleção do Artista, RJ.

As figuras desses bichos da terra constituíram os temas dessa iniciação ao imaginário que a técnica de gravar permite inventar. É costume dizer-se que os artistas revelam o que há de oculto na realidade das coisas, mas tendo a duvidar disso e a acreditar, ao contrário, que os artistas, a partir das coisas ou não, inventam uma realidade que só existe em suas obras. Vejamos o caso das formigas de Anna Letycia: tem cabimento dizer que aquelas são as verdadeiras formigas, mais reais que as que descobriu brincando em seu quintal? Creio que não; as formigas de suas gravuras não são reais e, sim, imagens inventadas que, no espaço fictício da obra, ganham uma significação que as formigas reais não têm. Não são imitações dos insetos reais mais, sim, a sua transformação em seres imaginários. Sem dúvida alguma, se as formas que a gravura nos mostra são formigas e não caixas, mantém-se nela uma alusão a tudo o que aqueles insetos nos fazem evocar. Por isso mesmo, quando Anna Letycia deixa de versar figuras de bichos, o mundo imaginário que então inventa é outro, tem outro conteúdo e reflete relação distinta tanto com o mundo real quanto com a linguagem da arte.  

"Caracol", 1968. Relevo, água-forte e ponta-seca. Coleção do artista, RJ.

“Caracol”, 1968. Relevo, água-forte e ponta-seca. Coleção do artista, RJ.

O mundo real é, em si mesmo, uma linguagem e, como toda linguagem, intraduzível em outra linguagem. Assim como é impossível traduzir em música o que a pintura diz, é também impossível traduzir em gravura o que a realidade diz. Por isso, o tatu gravado, o caracol gravado dizem outra coisa que os tatus e os caracóis reais. Mas isso não impede que a gravura contenha alguma coisa que a gravadora viu ou ouviu ou leu neles, que nem eu nem você veríamos ou leríamos. Conheci um cara que via nas formigas os soldados de uma guerra que era travada sob as folhas do matagal, com armaduras de metal e lanças. Não eram as formigas de Anna Letycia, nem seus tatus e caracóis, que em suas gravuras aparecem como seres de um mundo silencioso e obscuro.   

"Caracóis", 1984. Processo do açúcar, guache, água-tinta. Coleção do artista, RJ.

“Caracóis”, 1984. Processo do açúcar, guache, água-tinta. Coleção do artista, RJ.

O ambiente cultural em que um artista vive e trabalha há de ter influência sobre o seu trabalho criador, sobre sua imaginação. Raros artistas conseguem evitá-lo, em determinadas circunstâncias como ocorreu com Goeldi, que se manteve fiel às convicções expressionistas em que se formou e que se tornaram os alicerces de sua arte. Mas quando o Concretismo chegou ao Brasil, ele já era um artista maduro, mestre de uma linguagem muito sua, própria e consistente. Outra, no entanto, era a situação de gravadores como Fayga Ostrower ou o próprio Iberê que, se não aderiram ao geometrismo concretista, adotaram uma espécie de expressionismo abstrato. Anna Letycia, fiel a sua natureza reflexiva, caminhou no rumo da tradução das formas figurativas em linhas e signos até chegar, mais tarde, a uma geometria figurativa de que são exemplos as suas caixas.   

"Sem título", gravura em metal e relevo de Anna Letycia, 1965.

“Sem título”, gravura em metal e relevo de Anna Letycia, 1965.

Alguém que siga, passo a passo, a evolução da gravura de Anna Letycia, deparar-se-á com um inesperado salto qualitativo, nessa passagem da linguagem figurativa inicial para chegar às estilizações decorativas e às caixas – ou seja, a uma depuração do processo formal até atingir um nível de precisão e economia insuspeitado nas etapas anteriores. Essa evolução da linguagem da gravura é acompanhada de um progressivo apuro das técnicas de gravar e de inovações audaciosas, de que não há exemplo na gravura brasileira. Esse domínio técnico e estético, por ela conquistado, possibilitou-lhe o uso de determinadas formas recortadas na chapa. Esse recurso introduz na linguagem da gravuras possibilidades expressivas até então desconhecidas. Com isso, Anna Letycia alarga o seu universo gráfico, não só por ampliá-lo tecnicamente, mas também por adotar, em face da arte de gravar, uma postura original e moderna. Estamos já então muito distantes da artesã que tentava afirmar-se no âmbito da gravura figurativa que, de uma maneira ou de outra, valia-se das alusoes à representação da realidade. Anna se libertou disso para tornar-se inventora de uma linguagem própria e de um modo novo de expressar-se como gravadora. Se ela conseguiu explorar novas possibilidades técnicas e estéticas, o fez sem abandonar as características essenciais da gravura em metal. Realizou uma revolução silenciosa.   

A palavra ” evolução” talvez não seja apropriada já que essas mudanças antes que visar um progresso estético são, na verdade, um novo modo de construir o imaginário. No meu entender, o principal aspecto a ressaltar na história da gravadora Anna Letycia é a identidade subjacente que se mantém ao longo de todo o seu curso e que se traduz na preservação de uma atmosfera de mistério e silêncio que envolve as formas por ela inventadas. Melhor dizendo, mais que as envolve, as constitui: se falamos de caixas, por exemplo, diria que são ” cubos de silêncio”, já que não se ligam a nenhum contexto identificável do mundo objetivo. São objetos de um mundo mágico, imaginário, sofisticado, que têm como única razão de existir, a beleza.   

Das formigas às caixas, algo mudou drasticamente na gravura de Anna Letycia e isso tem a ver com a incorporação da geometria à linguagem da arte brasileira, a partir dos já mencionados anos 50: a criação de formas “ideais”, mais próximas dos arquétipos platônicos do que objetos reais. Mas só em parte, uma vez que por suas cores e elementos decorativos, integram-se em nossa vida sensorial e afetiva e passam a existir para todos aqueles que os vêem impressos no papel da gravura. E esse é o milagre da arte: tornar verdade o que não existia nem mesmo em nossa fantasia. Sim, porque, se o que a obra nos dá não é uma cópia do que existia no real, tampouco é a cópia do que existia no ideal. A obra não existe idealmente, uma vez que fazê-la é inventá-la conforme um jogo de probabilidades, em que operam o acaso e a necessidade, erros e acertos. A obra que nasce não é inevitavelmente a que deveria nascer mas a que pôde nascer conforme a contingência.   

"Sem título", gravura em metal colorida da fase "Tatus" de Anna Letycia, 1964.

“Sem título”, gravura em metal colorida da fase “Tatus” de Anna Letycia, 1964.

As obras de Anna Letycia nos seduzem e nos fazem contemplá-las, demoradamente. São o contrário da expressão instantânea, que logo se esgota. Queremos penetrar nelas, nos deixar envolver por seu sortilégio e seu silêncio – detrás do qual advínhamos uma personalidade criadora inconfundível.

Nota: Texto originalmente publicado no catálogo da exposição de gravuras de Anna Letycia, dentro do projeto “Ateliê da Gravura” no Instituto Tomie Ohtake em São Paulo, no período de 28/02 a 13/04 de 2008.

PRIMÓRDIOS DA GRAVURA BRASILEIRA ATÉ GOELDI

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