O Papel da Arte

Hans Steiner – Retrospectiva de sua obra na Itália

Out-door da exposição “Hans / Steiner / RIO – IL SEGNO RITROVATO” que ficará em cartaz no período de 09 de setembro a 13 de novembro no Musei Provinciali de Gorizia, no Palazzo Attems Petzenstein.

Out-door da exposição “Hans / Steiner / RIO – IL SEGNO RITROVATO” que ficará em cartaz no período de 09 de setembro a 13 de novembro no Musei Provinciali de Gorizia, no Palazzo Attems Petzenstein.

O artista gravador Hans Steiner (1910-1974)  finalmente receberá neste mês de setembro na cidade que escolheu para passar seus últimos dias, Gorizia na Itália, uma grande mostra retrospectiva de sua carreira como artista gravador.  “Hans / Steiner / RIO – IL SEGNO RITROVATO”, que ficará em cartaz no período de 09 de setembro a 13 de novembro no Musei Provinciali de Gorizia, no Palazzo Attems Petzenstein,  pretende resgatar a importância deste artista austríaco  que passou grande parte de sua vida no Brasil onde produziu um considerável número de gravuras em metal  com técnica de ponta seca, água-forte além de aquarelas e outras técnicas, sempre com a temática voltada para a natureza e a cultura brasileira.

"Carlos Oswald mostrando uma chapa a Hans Steiner (à direita).

“Carlos Oswald mostrando uma chapa a Hans Steiner (à direita).

Hans Steiner, teve suas primeiras aulas de gravura em metal com Carlos Oswald (1884-1971)  considerado o pioneiro da arte da gravura  no  Brasil e demonstrou uma imensa aptidão para a gravura em metal. A cidade e seu povo são exaustivamente representados em todos os momentos de sua carreira e nunca foram eclipsadas por outra temática.

Palazzo Attems Petzenstein, que abrigará a exposição “Hans / Steiner / RIO – IL SEGNO RITROVATO” que ficará em cartaz no período de 09 de setembro a 13 de novembro no Musei Provinciali de Gorizia, Itália.

Palazzo Attems Petzenstein, que abrigará a exposição “Hans / Steiner / RIO – IL SEGNO RITROVATO” que ficará em cartaz no período de 09 de setembro a 13 de novembro no Musei Provinciali de Gorizia, Itália.

Segundo o  Prof. Ms. Paulo Vergolino, o maior especialista da obra de Hans Steiner e que fará uma aula magna durante a exposição, “a presença do homem e da mulher em seu trabalho e principalmente de pessoas negras são uma particularidade da obra deste artista. Steiner encontrava   já nesta época,  um Rio de Janeiro formado por brancos, negros, pardos, índios e mulatos. Ele busca essa nova realidade e se atira em locais pouquíssimos visitados por artistas – como penitenciárias, em busca de modelos. Vai também aos arrabaldes do Rio e registra gente simples em seus afazeres, em seus ofícios ou mesmo em descanso ou em momentos de lazer.”

Serra dos Órgãos”, 1938. Gravura em metal, água-forte, de Hans Steiner, impressa no ateliê de Carlos Oswald.

Serra dos Órgãos”, 1938. Gravura em metal, água-forte, de Hans Steiner, impressa no ateliê de Carlos Oswald.

Em 1939 dá-se o início das viagens de Steiner;  cada vez mais absorto em seu mundo de artista,  vai à Serra dos Órgãos e executa trabalhos referentes à montanha conhecida como Dedo de Deus. Vai à Petrópolis no ano seguinte e em 1946 já se encontra em  Minas Gerais dando  sequência a sua série de gravuras sobre o animal que mais o encanta: o urubu. Em 1946 Steiner volta à Áustria após iniciar no Brasil seu ciclo de gravuras diminutas.  Grava temas inspirados ou diretamente ligados ao rio Soberbo, um manancial que corta a cidade de Guapimirim no estado do Rio de Janeiro e que pela quantidade de cachoeiras existentes foi foco de atração do artista.

"Não pare na pista", gravura em metal onde podemos ver os famosos urubus que Hans Steiner retratou exaustivamente em suas gravuras.

“Não pare na pista”, gravura em metal onde podemos ver os famosos urubus que Hans Steiner retratou exaustivamente em suas gravuras.

A década de 1950 é marcada por outras viagens do artista a sua terra natal, sempre procurando exercitar-se na gravura. Realiza a gravura “Ritmo trágico”  uma de suas mais contundentes obras. Três anos depois já está no Rio Grande do Sul e passa a se interessar pelos temas condizentes com o local. “Notamos que o artista-viajante se comporta como se fosse, para além de cronista de sua época – um desbravador de costumes, momentos, atitudes e novos espaços.”, observa Paulo Vergolino.

Em 1955 o artista passa por São Paulo em direção a Santa Catarina e depois vai ao Rio Grande do Sul. Tudo lhe interessa: uma porteira, um monjolo, uma rede de pesca ou mesmo um ipê em flor, enfim temas tão caros ao artista e por muitas vezes tratados com todo o esmero de um documentarista. Sua obra crescia em complexidade e competência, mas ao mesmo tempo e em certos aspectos, tornava-se singela e de pouquíssimos detalhes, como é o caso de suas delicadas gravuras em miniatura.

"Indígena", xilogravura colorida de Hans Steiner.

“Urucum”, gravura em metal colorida de Hans Steiner.

Em 1960 percebemos que Steiner já esgotou seu cabedal de colonizadores e parte em busca de outras sociedades, embrenhando-se país adentro em busca da cultura indígena a qual passa a visitar tribos por várias vezes . Não há limites para o artista:  percorre estradas, rios e cruza fronteiras de avião atrás de novos temas para suas pinturas e gravuras. Por lá e sentindo-se acolhido,  o artista executa muitos croquis que depois transformam-se em gravuras: o timbó (cipó usado para envenenamento de peixes), a colheita do algodão, as representações de lendas e costumes dos povos colonizados estão todos lá, cristalizados e dignamente representados em suas obras.  Uma nova cortina se abre e um mundo dentro de outro passa a ser realidade para Hans Steiner. As regiões do Araguaia e do Xingu e que hoje pertencem ao Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Pará lhe presenteiam com nova avalanche de temas e suas gravuras, desenhos e pinturas se igualam ao olhar dos antigos artistas viajantes que aqui estiveram no princípio do século XIX, encantados por essas terras desconhecidas e que por ímpeto não se furtam de registrar esse momento. Steiner em nada difere destes primeiros artistas,  porém se distancia por conta de seu repertório todo particular, voltado para um olhar seu e em alguns aspectos moderno –  como o que se dá ao enfocar o desenho da pintura da cabeça de um índio.

Nos últimos anos de sua vida, Steiner  muda-se para a cidade de Gorizia porém ainda em 1969 volta pela última vez ao Brasil, registrando em seu caderno de desenhos “Raphael” os lugares em que mais uma vez percorreu.

"Paisagem romântica", água forte de 1955, Itália. Gravura de Hans Steiner.

“Paisagem romântica”, água forte de 1955, Itália. Gravura de Hans Steiner.

Maior que a necessidade clara de registrar na memória e no traço o país que o acolheu, o artista parecia sentir saudade da experiência obtida em tantos anos de estudo, amizade e dedicação à gravura. Steiner espelhou muitas décadas de um Brasil que crescia, olhava em direção ao presente, mas ainda brincava de pião, soltava pipa e balão e já expressava sua fé católica ou indígena e profana em festas como o carnaval. O seu trabalho foi fiel ao que acreditava, sempre parecendo nos render homenagem. Hoje, suas gravuras ganham lugar apenas nas reservas técnicas de alguns museus e o reconhecimento de sua obra ainda é bastante tímido.  Paulo Vergolino está buscando agora no Brasil empresas interessadas em patrocinar uma exposição retrospectiva de mais de 100 obras de sua profícua carreira e assim saldar uma grande dívida que temos com um artista que como poucos, mostrou toda a exuberância da natureza e costumes brasileiros.

CARLOS OSWALD, MESTRE DA GRAVURA BRASILEIRA

Na atualidade, o Brasil se encontra muito bem representado por artistas gravadores. Com a vinda da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, gerou grandes benefícios a, então, incipiente colônia do Brasil. Os milhares de objetos que chegaram ao País, ... leia mais

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