O Papel da Arte

Hans Steiner: um artista espelho de sua época

Paulo Vergolino

Paulo Leonel Gomes Vergolino
Mestre em artes visuais pela Unicamp
Membro da Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA

Temos que fazer jus aos europeus que através de suas produções plásticas corresponderam a uma parcela considerável do que conhecemos sobre quem e o que somos e quem éramos nos séculos que se sucederam pós descoberta. Através de suas pinturas, desenhos, esculturas, gravuras e depois da própria fotografia desses mestres, enriquecemos o nosso conjunto visual de uma forma brilhante, expressiva e plural em uma profusão de obras e olhares poucas vezes comparado com outras regiões ditas colonizadas.

Paisagem Romântica, gravura em metal de Hans Steiner.

Hans Steiner (1910-1974) Paisagem Romântica. Gravura em metal, 33x28cm – 1955.Fonte: col. Eros Cossato

Entre tantos estrangeiros e que paulatinamente vão sendo descobertos pelos estudiosos três austríacos estiveram por aqui, integrando com galhardia este grupo: Thomas Ender (1795-1875), Axl Von Leskoschek (1889-1975) e Hans Steiner (1910-1974). O que os reúne, fora o fato de terem vindo do mesmo país e serem todos artistas, foram representantes em todos os casos de um Brasil que se deixava descobrir e que carecia de profissionais de todas as nacionalidades para melhor representá-lo. Hans Steiner integrou um grupo de estrangeiros que tiveram o privilégio de escolher um lugar vastíssimo para explorar plasticamente e não se furtaram em aceitar o desafio. Todos, a seus modos, cuidaram de enriquecer nosso patrimônio visual de forma a contribuir sobretudo qualitativamente através de suas poéticas. Este tipo de atitude de registro não é privilégio do Brasil – pelo contrário – entre as contribuições mais importantes dos artistas à história da humanidade, está o fato de alguns se debruçarem e relatarem os acontecimentos positivos e negativos dessas sociedades. Hoje essas obras muitas vezes refletem uma realidade pura, histórica e contundente dos fatos, muito além das qualidades plásticas imbuídas em muitas delas.

Hans Steiner veio  para o Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. Seus primeiros trabalhos ainda tímidos e titubeantes já refletiam o que encantou e encanta até hoje quem não pertencia e não habitava as terras brasileiras – a sua estonteante paisagem. Portanto o Rio é alvo da curiosidade de um aluno que se encontrou na gravura e decidiu cristalizar o mundo a sua volta de uma maneira muito especial.

O Mestre Carlos Oswald mostrando uma chapa de metal para Hans Steiner

O Mestre Carlos Oswald mostrando uma chapa de metal para Hans Steiner

Temos então um jovem cidadão preocupado, desde o primeiro momento – e pelo fato de ter se aventurado a mudar-se para um país sul americano pouco ou nada conhecido por um Austríaco – interessado em aprender uma nova língua e consequentemente se debruçar sobre a então cosmopolita cidade do Rio de Janeiro dos anos 1930. Steiner, depois de receber as primeiras aulas com o artista/gravador pioneiro Carlos Oswald (1884-1971), se mostrou desde muito cedo, ter uma imensa aptidão para as artes e principalmente para a gravura em metal. Neste primeiro momento, o que lhe chamou a atenção são as exuberantes paisagens do Rio de Janeiro. A cidade e seu povo são exaustivamente representadas em todos os momentos de produção do artista e nunca foram eclipsadas por outros temas.

O nascente artista então por conta própria, passa a registrar em livro tudo que lhe inspirava a gravar. Vemos então que o Brasil – terra que este aceita como sua – passa a ser seu tema predileto e afirmamos isso pois não foram encontradas em suas muitas gravuras analisadas nenhuma que enfocasse a Europa. Absolutamente 90% do seu trabalho é sobre este País. Ao longo dos anos, Steiner passa a relacionar-se com a cidade de uma forma bastante peculiar. Niterói – região próxima ao Rio de Janeiro – é tema das primeiras gravuras. O artista trilha o mesmo caminho que muitos artistas antes deste, ou seja, vai gradativamente ampliando seu espectro de visão (para fora do Centro do Rio de Janeiro) e sempre procura mapear o que via através do esboço e da gravura. Acreditamos que, ao final de cada viagem de estudos, o artista volta para o Liceu de Artes e Ofícios recheado de esboços e abre uma nova placa. Isso nos é possível dizer pois não nos chegou a informação de que Hans Steiner em algum momento tivesse conseguido adquirir uma prensa – o que nos leva a crer que ele precisava voltar ao atelier do Liceu carioca para a produção de seu trabalho.

"Mata pau", gravura em metal e água-forte de Hans Steiner, 1959. Coleção Julio Reis.

“Mata pau”, gravura em metal e água-forte de Hans Steiner, 1959. Coleção Julio Reis.

Na sequência o artista evidencia um de seus temas prediletos – os mata paus – alguns inclusive encontrados nas matas da Urca. Este tema é típico do artista e foi renovado por muitas vezes e em muitas gravuras diferentes. Aqui, portanto, temos um gravador-cientista, aquele que realmente está focado em temáticas da vegetação brasileira características dos trópicos, nos legando através de seu trabalho algo que para nós e deveras comum e até descartável, porém não para o artista em questão que comprovadamente elevou o tema ao mais alto grau de perfeição.

Na trajetória desse artista outro tema nos chama a atenção – é sem dúvida a presença do Homem e da mulher em seu trabalho e principalmente de pessoas negras. Hans Steiner encontrava já nesta época um Rio de Janeiro branco, negro, pardo, índio e mulato. Portanto ele busca essa nova realidade e se atira em locais pouquíssimos visitados por artistas – locais como penitenciárias em busca de modelos. Vai também aos arrabaldes do Rio e registra gente simples em seus afazeres, em seus ofícios ou mesmo em descanso ou em momentos de lazer – como a gravura “Balão de São João” de 1946. Segundo palavras do artista, descritas no verso da gravura, agora em poder deste pesquisador,  está escrita a frase: subiu – mas subiu pouco e o balão foi fanaticamente apedrejado e rasgado pela gurizada.

Em 1939 se dá o início das viagens de Steiner – cada vez mais absorto em seu mundo de artista; vai à Serra dos Órgãos e executa trabalhos referentes à montanha conhecida como Dedo de Deus. No mesmo ano se encontra pela Ilha do Governador na casa de um amigo seu – Bernardo Medina. Vai à Petrópolis no ano seguinte. Em 1946 – está em Minas Gerais e dá sequência a sua série de gravuras sobre o animal que mais o encanta: o urubu. Em 1946 Steiner está na Áustria, depois de iniciar no Brasil seu ciclo de gravuras diminutas. Grava temas inspirados ou diretamente ligados ao Rio Soberbo, este, que corta a cidade de Guapimirim no estado do Rio de Janeiro e que pela quantidade de cachoeiras existentes foi foco de atração do artista.

“Rio Soberto", 1949, Hans Steiner. Gravura em metal feita sob encomenda para o Clube dos Glifófilos de São Paulo, em 1949.

“Rio Soberto”, 1949, Hans Steiner. Gravura em metal feita sob encomenda para o Clube dos Glifófilos de São Paulo, em 1949. Coleção Julio Reis.

Em 1948 curiosamente o artista produz uma xilogravura com o tema “Baiana Carnavalesca”. O croqui é realizado à noite e a brincante veste “seda vermelha brilhante”. Na mesma linha se encontra a palavra: barulho. Ora pelo que podemos depreender dessas informações o artista está vivenciando o carnaval carioca e porque não dizer gravado aspectos brasileiros? Certamente tudo condiz e nos conduz a acreditar que sim. Entre as gravuras localizadas está uma bastante interessante de uma mulher negra soltando um largo e feliz sorriso. Steiner enfoca a felicidade e o ato de sorrir (tão ligado ao carnaval) que é visto como algo a mais a acrescentar no modus vivendi dos brasileiros, conferindo certamente mais leveza ao tema escolhido e gotejando com certa poesia a gravura em si.

A década de 1950 é marcada por outras viagens do artista a sua terra Natal, sempre procurando exercitar-se na gravura. Realiza a gravura “Ritmo trágico” uma de suas mais contundentes obras. Três anos depois já está no Rio Grande do Sul e passa a se interessar pelos temas condizentes com o local. Notamos que o artista-viajante se comporta como se fosse, para além de cronista de sua época – um desbravador de costumes, momentos, atitudes e novos espaços.

Em 1955 o artista passa por São Paulo em direção a Santa Catarina e depois vai ao Rio Grande do Sul. Tudo lhe interessa, uma porteira, um monjolo, uma rede de pesca ou mesmo um ipê em flor. Temas tão caros ao artista e por muitas vezes tratados com todo o esmero de um documentarista. Sua obra crescia em complexidade e competência, mas ao mesmo tempo e em certos aspectos, tornava-se singela e de pouquíssimos detalhes, como é o caso de suas delicadas gravuras em miniatura.

Em 1960 percebemos que Steiner já esgotou seu cabedal de colonizadores e parte em busca de outras sociedades, no caso embrenha-se pelo país adentro em busca dos muitos cacicados indígenas por algumas vezes visitados. Não há limites, o artista percorre estradas, rios e cruza fronteiras de avião atrás de novos temas para suas pinturas e gravuras. Por lá e sentindo-se acolhido o artista executa muitos croquis e que depois transforma-se em gravuras: o timbó (cipó usado para envenenamento de peixes), a colheita do algodão, as representações de lendas e costumes dos povos colonizados estão todos lá, cristalizados e dignamente representados em suas obras.  Uma nova cortina se abre e um mundo dentro de outro passa a ser realidade para Hans Steiner. As regiões do Araguaia e do Xingu e que hoje pertencem ao Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Pará lhe presenteiam com nova avalanche de temas e suas gravuras, desenhos e pinturas se igualam ao nosso ver ao primeiro artista em terras desconhecidas e que por ímpeto se impele a registrar o momento. Steiner em nada difere do primeiro – porém, se distancia deste por conta de seu repertório todo particular, voltado para um olhar muito seu, em alguns aspectos moderno –  como o que se dá ao enfocar o desenho da pintura da cabeça de um índio.

Hans Steiner, gravura em metal.

Nesta época o artista decide-se mudar para a cidade de Gorizia (Itália) e volta uma vez mais ao Brasil em 1969 e registra em seu livro os lugares em que mais uma vez percorreu. Uma palavra insiste em vir a mente. Mais que a necessidade clara de registrar na memória e no traço o país que o acolheu, o artista parecia sentir saudade da experiência obtida em tantos anos de estudo, amizade e dedicação à gravura. Steiner espelhou muitas décadas de um Brasil que crescia, olhava em direção ao presente, mas ainda brincava de pião, soltava pipa e balão e já expressava sua fé católica ou indígena e profana em festas como o carnaval. O seu trabalho foi fiel ao que acreditava, sempre parecendo nos render homenagem.

Hoje, suas gravuras ganham lugar apenas nas reservas técnicas de alguns museus e o reconhecimento ainda é, assim como traços de sua personalidade, bastante tímido. De qualquer modo a gravura brasileira, vez por outra, tende a renascer e a se reinventar. O que nos move a acreditar na possibilidade de revalorização de nomes como o aqui posto em análise, não apenas por merecimento, mas minimamente como uma forma gentil de gratidão dos que vivem aqui. As obras desse gravador foram seu único oficio e a defesa a estas já está em tempo de acontecer. É hora de resgatarmos esse grande mestre da gravura brasileira.

*Este texto é parte integrante de minha dissertação de mestrado – e foi cedido graciosamente ao gestor deste site.

PRIMÓRDIOS DA GRAVURA BRASILEIRA ATÉ GOELDI

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