O Papel da Arte

IBERÊ CAMARGO : O ATO CRIADOR

 
 
 

Iberê Camargo

Em 1973, a Editora Nova Fronteira publicou o livro “Gravura : Darel Valença Lins, Eduardo Sued, Iberê Camargo e Octavio Araujo”. A obra, editada em papel “pardo” e com reproduções da produção contemporânea desses quatro grandes artistas, recebeu um belo prefácio de Antonio Houaiss discorrendo sobre a história da gravura.  

Cada artista foi convidado a falar sobre o seu processo de criação antes da sua produção atual ser apresentada nas páginas seguintes. A publicação, coordenada por Marcia Pontes com a colaboração da Galeria Grupo B é muito interessante porque deixou o registro do pensamento desses grandes mestres gravadores diante do processo de criação. Hoje, passados quase 40 anos, vemos que os mesmos se manteram fiéis as suas linhas de pensamento. Destes quatro depoimentos, reproduzo o de Iberê Camargo.

 

Escolhi, para figurarem neste livro, oito gravuras em água-forte e água-tinta, executadas no decorrer deste últimos anos – 1959 a 1973 – por pertencerem a um período significativo na minha obra gravada.

Não emito conceitos. Não me proponho definições. Elas são a minha presença e o meu testemunho. Eu as fiz com as minhas mãos e o meu coração, corroendo e ferindo a matéria como fizeram os artistas que me antecederam. Eu as fiz com simplicidade, no vagar do ácido, com a paciência do oleiro que coze a terra.

Movido pelo obscuro desejo de permanência – que é inerente ao homem – elaboro e plasmo a minha visão num esforço sem pausa e sem repouso, para deixar atrás de mim um rastro ainda que perecível como a pisada do boi no barro fresco, como a pegada do homem sobre o pó da terra, ou como o simples decalque da mão.

Os carretéis estão sobre a mesa. Estão no pátio, são soldados pica-paus e maragatos. Estão girando enfiados nas máquinas de costura, despindo-se do fio. Estão sobre o convés capitaneando navios que singram sangas. Estão rodopiando nas piorras.

Serão, agora, estrelas de fantásticas constelações? Serão eles homens ou seres de antigos tempos, que do escuro espiam com os seus olhos de ciclopes? Quem poderá explicar o que aconteceu com eles e comigo? Faz tanto tempo que nos separamos. Eles devem ter morrido soterrados nos quintais e nos porões das velhas casas.

Símbolo, signo, personagem – o carretel – brinquedo da minha infância e agora, nesta fase, tema da minha obra, está impregnado dos conteúdos do meu mundo.

Ou será que estas figuras são os hectolitros e os decalitros que tanto me inquietaram com suas formas bojudas e bizarras, grandes canecas figuradas nos mapas que estavam dependurados na minha sala de aula? Como poderei individualizar coisas, precisar estímulos e especificar vivências que fornecem a matéria para a criação?

No ato criador, sou arrastado por impulsos que se desencadeiam como vendavais vindos não sei de onde. Vislumbro e persigo miragens interiores, que jamais consigo reconhecer na face da obra criada.

Mário Quintana disse: “A imaginação é a memória que enlouqueceu.” O poeta sempre intui a verdade.”

Iberê Camargo

O MERCADO DE FALSIFICAÇÃO DE OBRAS DE ARTE

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