O Papel da Arte

O DEBRET QUE NÃO CONHECEMOS

DEBRET: "Tête du père des Horaces", calcogravuraà maneira de crayon, acervo da Biblioteca Nacional da França, 1809-1811.

DEBRET: “Tête du père des Horaces”, gravura à maneira de crayon, acervo da Biblioteca Nacional da França, 1809-1811.

Ao entrar no Gabinete de Gravuras  e Fotografias da Biblioteca Nacional da França, em 2015, à procura de estampas  usadas para o ensino didático do desenho no século XIX, Marcelo Gonczarowska Jorge, então estudante de mestrado da UnB e bolsista do Instituto Brasileiro de Museus, não imaginava que faria uma descoberta que não só alteraria o objetivo de sua tese mas também contribuiria para o melhor conhecimento da obra do Debret pré-Missão Francesa. Sua pesquisa nos revelou a existência de um conjunto inédito de gravuras didáticas feitas pelo artista antes de sua vinda para o Brasil em 1816. Debret produziu no início do século XIX obras nas quais seu traço puramente neoclássico nos revela um outro artista além da fase tropical. São imagens pouco conhecidas dos historiadores e do público em geral, mais acostumado com as gravuras do álbum Viagem Pitoresca e do conjunto de desenhos e aquarelas arrematados pelo mecenas Raymundo Ottoni de Castro Maya no final dos anos 30. Até então, sua obra  estava completamente adormecida do grande público, declínio que ocorreu ainda na metade do século XIX, permanecendo esquecido até o início do século XX quando começam a aparecer estudos e reproduções de suas gravuras. Porém a verdadeira “redescoberta” de Debret se dá com a coleção comprada por Castro Maya e hoje exposta no Museu da Chácara do Céu em Santa Teresa no Rio de Janeiro.

DEBRET: "Tête de la mère des fils de Bruthus", 1809-1811, Acervo da Biblioteca Nacional da França.

DEBRET: “Tête de la mère des fils de Bruthus”, 1809-1811, Acervo da Biblioteca Nacional da França.

Mas com tantos e tantos brasilianistas vasculhando e pesquisando informações sobre o artista francês, porque então essas obras ainda não tinham vindo à público? Marcelo Jorge acredita que deve-se a um certo desinteresse da academia por esse período da produção artística  pré-Missão Francesa e em segundo lugar por  uma questão técnico burocrática de catalogação da instituição.  Na época de sua pesquisa, ele descobriu  que o  critério de catalogação do Gabinete de Gravuras e Fotografias da Biblioteca Nacional da França tinha por prioridade a catalogação pelo nome do artista gravador e não do artista desenhista, aquele que criou a imagem e a cedeu ao gravador para transpô-la para a matriz de impressão. 

Marcelo Jorge em seu ateliê de pintura em Brasilia.

Marcelo Jorge em seu ateliê de pintura em Brasilia.

Portanto, foi ao consultar uma dissertação de mestrado de 1975, redigida por Daniel Harlé, a qual serve de espécie de catálogo informal para as gravuras didáticas do Gabinete de Gravuras, que o pesquisador encontrou as primeiras menções às gravuras produzidas por Debret, que como era tradicional, tinha seu nome gravado na margem esquerda da gravura como o autor enquanto que na direita era ocupada pelo nome do gravador. Diante dessa descoberta, Marcelo deu um novo enfoque a sua tese priorizando esse conjunto de gravuras.

Jean-Baptiste DEBRET (desenho), L.M.PETIT (gravador). Prancha nº 10 do Nouveau Recueil Élèmentaire de Dessin, 1813. Gravura à maneira de crayon, Paris, Biblioteca Nacional da França.

Jean-Baptiste DEBRET (desenho), L.M.PETIT (gravador). Prancha nº 10 do Nouveau Recueil Élèmentaire de Dessin, 1813. Gravura à maneira de crayon, Paris, Biblioteca Nacional da França.

O Iluminismo e logo depois a Revolução Francesa promoveram um aumento no ensino do desenho na França, já que uma de suas ideias basilares era a de que a arte e a cultura tinham um papel fundamental civilizatório na sociedade. E o sistema de aprendizado do desenho, que era voltado para a formação dos artistas, foi adaptado para que fosse empregado também  no ensino básico das escolas e adotado pelo público em geral.

Por isso era necessária então a criação dos cadernos de desenhos para a massificação desta disciplina junto aos estudantes. O simples fato de seus desenhos serem gravados para o uso em cadernos didáticos no ensino escolar já demonstra o quanto Debret era uma artista respeitado e talentoso, professor do mais importante colégio particular de Paris, o Sainte-Barbe, colégio onde mais tarde iria estudar Gustave Eiffel, criador do mais famoso monumento da capital francesa.

Jean-Baptiste DEBRET (desenho), L.M.PETIT (gravador). Prancha nº 6 do Nouveau Recueil Élèmentaire de Dessin, 1813. Gravura à maneira de crayon, Paris, Biblioteca Nacional da França.

Jean-Baptiste DEBRET (desenho), L.M.PETIT (gravador). Prancha nº 6 do Nouveau Recueil Élèmentaire de Dessin, 1813. Gravura à maneira de crayon, Paris, Biblioteca Nacional da França.

É interessante explicarmos como se dava o ensino do desenho nessa época na academia de Belas Artes em Paris. Os alunos ingressavam nessa instituição já escolados na cópia de gravuras impressas, na qual se exercitavam até atingir a perfeição. Essas gravuras geralmente eram de partes do corpo humano (orelhas, nariz, cabeça, boca, mãos etc). Já na escola, iniciavam a formação pela cópia de modelos de corpos humanos em gesso, onde então aprofundariam os estudos de tridimensionalidade, chegando finalmente ao estudo do modelo vivo, de observação e assim completando seu aprendizado.

Capa do primeiro fascículo do Nouveau Recueil Élèmentaire de Dessin, de J.B. DEBRET (autor) e L.M..PETIT (gravador), 1812. Tipografia sobre papel acinzentado, Paris, Biblioteca Nacional da França.

Capa do primeiro fascículo do Nouveau Recueil Élèmentaire de Dessin, de J.B. DEBRET (autor) e L.M..PETIT (gravador), 1812. Tipografia sobre papel acinzentado, Paris, Biblioteca Nacional da França.

O Nouveau Recueil Élémentaire de Dessin ou Novo Curso Elementar de Desenho, publicado por Petit entre 1812 e 1813 é considerado por  Marcelo como o mais fascinante e revelador conjunto de gravuras entre as estampas de Debret pertencentes ao Gabinete de Gravura da Biblioteca Nacional de Paris. Trata-se de um curso de desenho, no molde de outros que já existiam na época e que forneciam modelos para cópia aos jovens estudantes. Na própria capa do primeiro fascículo, Debret não deixa de informar que foi aluno de Jacques-Louis David, o mais importante artista do período. Esse curso foi vendido em fascículos e o primeiro continha  4 pranchas próprias para o desenvolvimento do desenho à maneira de crayon e com facilidade de execução. A obra foi produzida para uso do curso de desenho da Instituição Sainte-Barbe.

Jean-Baptiste DEBRET (desenho) e L.M. PETIT (gravador), Tête de l´aîne des fils Horaces, 1812. Gravura à maneira de crayon, Paris, Biblioteca Nacional da França.

Jean-Baptiste DEBRET (desenho) e L.M. PETIT (gravador), Tête de l´aîne des fils Horaces, 1812. Gravura à maneira de crayon, Paris, Biblioteca Nacional da França.

No entanto, as gravuras feitas por Debret copiando as obras de Jacques-Louis David (O Juramento dos Horácios, 1784 e Os litores trazendo a Brutus os corpos de seus filhos, 1789 – ambos pertencentes ao Louvre) são de uma qualidade e execução excepcionais pois ultrapassam a simples imagem didática para tornarem-se uma obra prima do desenho e da beleza neoclássica, padrão vigente à época. Debret exerce à plenitude sua capacidade de fazer uma cópia fiel das obras do seu professor. Mesmo sendo gravuras didáticas, a beleza deste conjunto de estudos de cabeça é tão singular que poderiam ser utilizadas também de forma decorativa tal o grau de perfeição na execução dos contornos, proporções, tons e semi-tons.  

Jean-Baptiste DEBRET (desenho), DEMARTEAU (gravador), "Tête d´Achille". Gravura à maneira de crayon, Biblioteca Nacional da França.

Jean-Baptiste DEBRET (desenho), DEMARTEAU (gravador), “Tête d´Achille”. Gravura à maneira de crayon, Biblioteca Nacional da França.

Debret, como professor por anos do mais importante colégio privado de ensino na Paris do início do século XIX nos surpreende com um traço até então desconhecido e que não vemos com frequência em sua fase brasileira.  Sua obra ainda permanece em parte desconhecida, esperando por novas pesquisas. A tese de Marcelo pode ser consultada no endereço http://repositorio.unb.br/handle/10482/22176 e o contato com o pesquisador pode ser feito através do email pintor.marcelo.df@gmail.com. Esperamos que esse trabalho um dia venha a ser publicado em formato de livro.

 

Julio Reis 

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