O Papel da Arte

O MERCADO DE FALSIFICAÇÃO DE OBRAS DE ARTE

Infelizmente em nosso País, sobretudo os grandes mercados de arte do Rio de Janeiro e de São Paulo, continuam a comercializar centenas de obras de arte em papel ou óleo, que são falsificações de grandes artistas brasileiros, causando um prejuízo financeiro a todos: ao mercado, aos colecionadores e ao artista. Ao mercado que perde com isso a credibilidade e investimento em arte por parte dos novos colecionadores e daqueles que gostariam de investir em arte mas não conhecem ou entendem nada sobre o assunto. E perde também para os investidores profissionais que gostariam de expandir seus investimentos mas que não se sentem seguros diante da fragilidade de nosso mercado e da falta de uma regulamentação legal que puna estes falsários. Enquanto o segmento no mercado internacional movimenta bilhões de dólares anualmente, o tímido mercado nacional ainda está engatinhando. E certamente a parte mais atingida é o artista que na  maioria dos casos, já está morto e não pode mais se manifestar contra o simulacro de sua obra ou não dispõe de uma Fundação ou Instituição que cuide de seu acervo, salvo raras exceções.

Para encontrar essas obras “originais” não é necessário muito esforço. Basta um passeio pelo mais famoso site de vendas de objetos na internet para vermos uma quantidade infindável de obras “atribuídas” a Di Cavalcanti, Iberê Camargo, Volpi, Aldemir Martins, Antonio Bandeira e tantos outros artistas a preços irrisórios. Quer comprar um Iberê por 50 reais? Basta um clique e você ainda pode parcelar. Está interessado em comprar um dos gatos do Aldemir Martins? Há dezenas. Essa indústria de falsificações torna-se extremamente nociva para a sociedade e para o mercado pois há certa cumplicidade de alguns maus profissionais como também a inexistência de uma polícia especializada em crimes de falsificação de obras de arte, algo que por incrível que pareça e num país com tantas prioridades, ainda é uma realidade distante.

IBEREVERDADEIRO

Acima, gravura original em metal “Objetos” de 1967, de Iberê Camargo. O falsificador, fez uma cópia xerox impressa em papel pardo envelhecido (foto abaixo), numerou a lápis e assinou  com caneta nanquim. Essa obra foi vendida recentemente num leilão como uma xilogravura por R$ 3.200,00 para um colecionador incauto.

ibereFALSO

Mas esse mercado fascinante e glamouroso também abriga pessoas de boa fé que na ânsia de desejar uma obra de algum artista que tanto admira, acabam cegamente cedendo à tentação, não conseguindo enxergar ou desconfiar de um negócio onde uma obra que vale R$ 10.000,00 está sendo vendida por R$ 300,00. Pechincha? Desconfie sempre, pois o que menos existe atualmente é ingenuidade num mercado que movimenta milhões. É muito arriscado ou quase impossível comprar uma  obra em papel de um grande artista por R$ 100,00 ou R$ 200,00. A chance de ser falsificada é muito grande e por isso devemos ser cautelosos e conhecer muito bem a trajetória do artista que admiramos e pretendemos colecionar. É importantíssimo que tenhamos a obra em mãos para termos a máxima certeza de que se trata de um original. Comprar pela internet é um bom negócio mas requer um conhecimento bastante profundo da obra assim como de quem a está vendendo.

ALDEMIR MARTINS, um dos artistas mais falsificados do mercado de arte nacional.

ALDEMIR MARTINS, um dos artistas mais falsificados do mercado de arte nacional.

 

É imprescindível que ao adquirimos uma gravura de um grande artista, saibamos a origem da mesma, e dependendo de seu valor exigir um atestado de autenticidade. Aquele velho ditado “quando a esmola é grande, o santo desconfia” nunca foi tão atual. Uma análise de sua história, os movimentos artísticos a que ele aderiu, as fases de suas obras, os livros publicados e catálogos das exposições que fez ou participou, vendas registradas em  casa de leilões sérias, enfim,  uma série de informações que vão dar ao colecionador o suporte necessário para conhecer com maior profundidade a obra do artista e dessa forma auxiliá-lo a reconhecer um  original de uma falsificação grosseira. No caso das obras em papel, por ser um segmento cujo valor de mercado é menor do que as obras feitas em tela ou escultura, ainda podemos analisar o papel empregado pelo artista, a técnica utilizada e o tipo de impressão. Não é muito fácil para um leigo reconhecer as técnicas de gravura e até para os mais entendidos, existe uma dificuldade a olho nú de reconhecer um nanquim ou uma litografia de uma simples impressão gráfica. Já vi vários casos de obras reproduzidas de grandes gravadores brasileiros que recebiam “uma assinatura” do artista e eram vendidas como originais nessas dezenas de leilões de arte online que acontecem semanalmente, como ocorre por exemplo com as gravuras de Alfredo Volpi, que não verdade nunca fez uma única gravura em sua vida, conforme o próprio Instituto Volpi já declarou em mais de uma oportunidade.

Naturalmente que existem profissionais sérios e qualificados que se recusam a receber falsificações para venda em seus leilões, mas o próprio despreparo e conhecimento de muitos comerciantes faz com que encontremos facilmente à venda falsificações. Para se conhecer arte com profundidade é necessária uma boa base educacional e profundo estudo sobre o tema, algo cada vez mais distante da realidade que nos deparamos atualmente.  Reconhecer uma assinatura, um tipo de impressão, uma gravura em metal ou uma fase de artista, tornou-se praticamente um mérito apenas dos velhos profissionais do mercado, daqueles que há décadas se dedicam e continuam a estudar o assunto e em muitos casos foram amigos dos artistas que hoje tornaram-se famosos. Os novos profissionais do mercado de arte acabam absorvendo um conhecimento generalista das artes em geral, conhecendo parcialmente um pouco de tudo, mas não se tornando especialista em nada. Esse conhecimento sobre as artes plásticas, sobretudo a arte em papel, é adquirido através da observação, do estudo e do contato com as obras destes artistas, sejam nos ateliers ou nas galerias e museus. Frequentemente há exposições de gravuras nos grandes centros urbanos mas quando você vai visitá-los, verifica  que não tem ninguém ou que o livro de visitantes está praticamente intocável, uma prova irrefutável do quanto ainda temos que nos desenvolver do ponto de vista cultural e do interesse em conhecer melhor a obra deste ou daquele artista.  A superficialidade da internet em exibir apenas imagens e pouco conteúdo na maioria dos casos dentro do campo das artes plásticas, acabam formando os “futuros especialistas do mercado de arte” em generalistas de imagem, acostumados à produção mais comum e valiosa dos artistas e completamente obtusos sobre as fases pouco conhecidas ou valorizadas.

Quando falamos de arte em papel de grandes artistas e que possuem uma alta cotação no mercado, a coisa mais importante que devemos buscar é a origem dessa obra. A coleção a que pertencia, o nome dos antigos proprietários, participação em alguma exposição ou registro em algum livro, fotos de família com a obra pendurada ao fundo, enfim, elementos fundamentais para qualificar e autenticar a obra de arte. Podemos chamar isso de “certidão de nascimento” da obra, o seu verdadeiro DNA, onde identificamos  toda a sua trajetória desde que saiu das mãos do artista até seu último dono. Nomes consagrados como Iberê Camargo ou Oswaldo Goeldi, que produziram muito em papel e cuja cotação no mercado é bastante alta, hoje contam com fundações que zelam por seu legado artístico. A Fundação Oswaldo Goeldi fornece atestados de autenticidade mediante análise presencial da obra. E toda a obra de gravura de Iberê Camargo ou Portinari também estão  devidamente registradas em catálogo Raisonné; portanto se aparecer uma gravura que não conste desde catálogo as chances de que seja falsa são enormes. A aquisição do catálogo raisonné constitui-se numa importante fonte de consulta sendo indispensável para o colecionador. Será a grande aliada na hora de se adquirir uma obra original. E nos casos de artistas cujas obras não estão catalogadas vale a dica do DNA da obra e também da credibilidade do comerciante que a está ofertando.  Colecionar arte é muito mais do que um simples prazer estético, trata-se também de um investimento financeiro e cultural em nossas próprias vidas e que exige uma certa dedicação.

JULIO REIS

POR QUE INVESTIR EM ARTE? ENTREVISTA COM SORAIA CALS

O Escritório de Arte Soraia Cals está entre os melhores escritórios de arte do País realizando os mais disputados leilões do mercado. Seus catálogos, verdadeiros livros de arte, vêm acompanhados por excelentes textos e artigos escritos pelos maiores especialistas e críticos do País, como ... leia mais

© Copyright 2010 - Todos os direitos reservados - Made with WordPress