O Papel da Arte

O RIO NA GRAVURA DE OSCAR ROTHKIRCH

 

“O Brasil é a minha segunda pátria;
e daqui, se Deus quizer, não sairei jamais.”

Oscar Rothkirch

 

 

"Corcovado", água-forte original de Oscar Rothkirch, década de 30.

“Corcovado”, água-forte original de Oscar Rothkirch, década de 30.

 

Dentre os muitos artistas que estiveram no Brasil na primeira metade do século passado,  um em especial continua até hoje desconhecido entre os estudiosos da gravura e completamente marginal na história da arte brasileira no que tange a temática  iconográfica do Rio de Janeiro e arredores. Estamos falando de Oscar Rothkirch, pintor e artista-gravador alemão que viveu no Brasil entre 1928 a 1941.

Oscar Rothkirch nasceu em  14 de janeiro de 1880 na cidade de Gleiwitz na Alemanha mas que após a 2ª guerra, tornou-se território Polonês e faleceu em Teresópolis em 25 de agosto de 1941, vítima de ataque cardíaco.  De família humilde, era filho do mestre sapateiro Ernest Rothkirch com Josefine Wlodasch, luteranos e residentes em Breslau. Os poucos registros que temos de Rothkirch são informados pela Academia de Belas Artes de Dresden, instituição em que esteve matriculado entre 1909 e 1922. Mesmo sendo aluno, prestou o serviço militar  de 1914 até 1921, quando se licenciou por  questões de saúde. Durante esse período, esteve matriculado na classe do professor de paisagem Eugen Bracht (1842-1921), pintura com o Prof. Oskar Zwintscher (1870-1916) e na classe do Prof. Gotthard Kuehl (1850-1915), porém não consta que tenha frequentado as aulas. Ainda durante a 1ª Guerra, em 1916, participa da 2ª exposição “Da guerra de Dresden” com obras produzidas pelos soldados, na Galeria Ernest Arnold, no período de 27 de setembro a 29 de outubro. No verão de 1920/21 volta a estudar em Dresden com o Prof. Robert Sterl (1867-1932) e a pintar em seu estúdio, após ter a saúde restabelecida.  

 

 

"Oscar Rohtkirch", artista gravador alemão (1880-1941).

“Oscar Rohtkirch”, artista gravador alemão (1880-1941).

 

Aos 44 anos, no dia 22 de setembro de 1924, diante do altar da Igreja do Espirito Santo, em Blasewitz, Oscar Rothkirch casa-se com Anna Laura Betty, viúva de um livreiro da mesma cidade  e filha do recebedor  de impostos de primeira classe Benjamin John e Laura Reche John. Ana nasceu em 1880, mesmo ano de Oscar,  na região da Alsácia, França e faleceu no Rio de Janeiro em 19 de fevereiro de 1938.

Nos anos 20/30  a Alemanha se encontrava mergulhada numa grande crise econômica e houve um enorme fluxo de imigração de europeus para a América do Sul na busca de sonhos, novas oportunidades e um futuro promissor, sem contar o anti-semitismo crescente em todo o país. Pelo sobrenome presume-se que ambos tinham origens judaicas apesar  de serem luteranos. Diante disso, Oscar Rothkirch e Anna Laura embarcaram na Alemanha no navio Sierra Morena, que fazia o trajeto Bremen-América do Sul,  chegando a Buenos Aires em 17 de outubro de 1926, passando antes pelo Rio de Janeiro, cidade cuja beleza marcou muito a ambos. Curiosamente aparece a informação de que Oscar vinha da cidade de Gleiwitz enquanto Ana seria da cidade de Novie, no entanto tais dados não são os mesmos que constam na certidão de casamento deles. Após ficarem por algum tempo na capital portenha, decidem voltar para o Brasil em 1928, quando chegam e fixam residência na cidade de Teresópolis. 

 

"Glória", anos 30, água-forte original de Oscar Rothkirch.

“Glória”, anos 30, água-forte original de Oscar Rothkirch. 

"Praça Cabral e Igreja da Glória", Rio de Janeiro, foto de Marc Ferrez.

“Praça Cabral e Igreja da Glória”, Rio de Janeiro, foto de Marc Ferrez.

 

Uma das razões para a escolha do Brasil como destino final certamente foi  o olhar estrangeiro para o país como um local de grandes oportunidades mas também a natureza exuberante que o seduziu, repetindo a mesma história protagonizada por tantos outros pintores viajantes. Oscar Rothkirch além de artista, era também um empreendedor, e, ao chegar aqui, contraiu muitos empréstimos com membros da colônia alemã no Rio de Janeiro a fim de criar uma fábrica de ataduras de gesso, uma novidade no Brasil daquela época.  Aliado a seu projeto empreendedor,  começou a produzir suas gravuras. Novas informações sobre o artista surgirão a partir da década de  30 quando notas nos jornais informam que o Professor Oscar Rothkirch, Professor Honorário da Universidade Philothecnica de Bruxelas – ele se apresentava e assinava alguns documentos usando este título -, se estabeleceu em Teresópolis, encantado pela natureza exuberante dessa região que tanto encanto causa aos artistas e lá produzindo suas águas-fortes e pinturas.  É nessa década que encontraremos nos jornais as poucas informações sobre sua trajetória artística ao longo do tempo em que morou aqui:

04-1930 – Exposição de pinturas a óleo e águas-fortes, em sua maioria de paisagens do Rio, no salão da Exposição Allemã.

03-1931 – Participação na exposição de artistas alemães promovida pela associação cultural PRO ARTE, criada por amigos e artistas alemães residentes na cidade do Rio de Janeiro.

1933 – Participação no 2º Salão de Arte Moderna da SPAM, na sede social, no Palacete Campinas (Praça da República), São Paulo, como um dos artistas radicados no Rio, ao lado de Di Cavalcanti, Guignard, Axl Leskoschek, Portinari, Teruz entre outros.

07-1933 – Participação do 3º Salão Pró-Arte ao lado de Cícero Dias, Di Cavalcanti, Goeldi, Guignard, Ismael Nery, Portinari, entre outros, RJ.

06-1934 – Exposição de pinturas a óleo e águas-fortes no saguão do Liceu de Artes e Ofícios no Rio de Janeiro, de 02 a 20 de junho.

09-1934 – Doa à Pinacoteca da Escola Nacional de Belas Artes seis trabalhos de sua autoria.

01-1935 – Publica no Jornal A Nação extenso artigo “A arte da água-forte”, onde didaticamente explica cada um dos processos para a produção de uma água-forte.

06-1935 – Doa à Biblioteca Nacional de Paris, uma coleção de águas-fortes de vistas panorâmicas do Rio de Janeiro que fazem bastante sucesso em Paris.

01-1936 – É publicada na Revista Intercâmbio da Pro Arte, a gravura “Arcos da Lapa”. 

08-1936 – Participa da exposição “Cousas Brasileiras” em Munique, num evento de intercâmbio cultural entre o Brasil e a Alemanha para os estrangeiros que estavam na Baviera por conta da realização dos jogos olímpicos. Lá são expostas as águas-fortes “Gávea” e “Pão de Açúcar”.

 

"Lapa", anos 30, água-forte original de Oscar Rothkirch.

“Lapa”, anos 30, água-forte original de Oscar Rothkirch.

 

O legado artístico de Oscar Rothkirch está basicamente ligado à produção das gravuras em água-forte feitas por ele durante o tempo em que morou no Rio de Janeiro, na cidade de Teresópolis. Sua produção é essencialmente figurativa/iconográfica, representando imagens icônicas da cidade do Rio de Janeiro, exaustivamente feitas por artistas ao longo do século XIX mas também por imagens com ângulos originais ou  que nunca foram registrados através da gravura.  Uma análise superficial de sua obra já é o suficiente para atestarmos seu desinteresse pela figura humana como componente protagonista de suas obras. Em alguns trabalhos, quando é registrada a presença de pessoas em suas composições – gravuras “Lapa” ou “Glória“- percebemos que a importância da figura  humana  é meramente decorativa, um simples recurso pictórico para o preenchimento de áreas onde se faz necessária tal presença. Seu foco é a natureza e a paisagem carioca em toda a sua exuberância, a mesma que deixou de queixos caídos todos os pintores viajantes antecessores.

 

"Sem título", 1922, óleo sobre tela de Oscar Rothkirch produzido na europa.

“Sem título”, 1922, óleo sobre tela de Oscar Rothkirch produzido na europa.

 

Porém o quê mais nos chama atenção na sua gravura é o profundo rigor técnico, a composição e a impressão destas obras. Sua técnica é segura e subordinada à expressão. Apenas aqueles que já produziram gravuras águas-fortes é que conseguem ter a real dimensão do grau de dificuldade desta arte. Oscar Rothkirch também produziu águas-fortes coloridas, um processo novo para a época com o uso de tintas a óleo, que segundo o artista, lhe custou muitas experiências.

 

"Serra dos Órgãos - Teresópolis", água-forte original de Oscar Rothkirch, anos 30.

“Serra dos Órgãos – Teresópolis”, água-forte original de Oscar Rothkirch, anos 30.

 

O traço da maestria em sua obra nos remete à obra do mais importante artista clássico da gravura brasileira, Carlos Oswald. Com excessão do mestre Oswald, desconhecemos qualquer outro artista brasileiro ou estrangeiro que tenha produzido imagens do Rio de Janeiro em água-forte com o mesmo padrão de qualidade  na elaboração, composição e impressão. Oscar Rothkirch assinava suas gravuras como Prof. O. Rothkirch e no longínquo ano de 1935 chegou a publicar um longo artigo no jornal A Nação explicando o que vinha a ser a arte da água-forte, enumerando as diversas técnicas e a extrema dificuldade de uma arte tão refinada e desconhecida por muitos (leia o artigo em http://www.opapeldaarte.com.br/oscar-rothkirch-a-arte-da-agua-forte/). Sua intenção era naturalmente  que a sociedade valorizasse esse trabalho tão difícil de ser produzido e infelizmente desconhecido do público em geral. Infelizmente hoje temos conhecimento de um conjunto de menos de 20 gravuras produzidas por esse mestre além de poucas pinturas a óleo.  Apesar do pouco tempo que viveu e produziu aqui, sua obra ou mesmo a simples menção de seu nome não é citado por nenhum artista contemporâneo de sua época. O próprio Carlos Oswald que lançou sua autobiografia “Como me tornei pintor”, onde traça um importante histórico da trajetória da gravura brasileira como seu principal protagonista na primeira metade do século passado,  jamais mencionou a obra de Oscar Rothkirch nem a sua presença no cenário artístico carioca. É impossível que numa cidade tão pequena como era o Rio de Janeiro dos anos 30, ambos não tenham se encontrado em alguma exposição ou mesmo não tenham desfrutado de amizades em comum.

 

"Pão de Assucar - Rio", bilhete postal (frente e verso) reproduzindo uma água-forte do Prof. O. Rothkirch nos anos 30, Rio de Janeiro.

“Pão de Assucar – Rio”, bilhete postal (frente e verso) reproduzindo uma água-forte do Prof. O. Rothkirch nos anos 30, Rio de Janeiro.

 

Em todas as suas águas-fortes conhecidas até hoje podemos verificar que o processo de impressão era manual e não existia uma tiragem pré-estabelecida. As obras eram assinadas e no canto inferior direito  há uma numeração muito particular que obedecia a alguma ordem pessoal, talvez de impressão ou catalogação. Ao analisarmos duas gravuras impressas a partir da mesma chapa,  vemos que a impressão é diferente uma da outra, o que reforça a própria característica da água-forte, de uma obra de arte única e não um simples múltiplo de uma imagem gravada.

Foi encontrado também um interessante conjunto de cartões postais da cidade do Rio de Janeiro, com  vistas do Pão de Açúcar, Vista do Rio a partir de Niterói e Gávea, que reproduzem as águas-fortes de Rothkirch, algo bastante incomum mas de um resultado plástico muito original. Não se tem notícias até o presente momento que outro artista tenham transformado suas gravuras em cartões postais naquele período.

 

"Gávea", na imagem superior a água-forte original feita por Oscar Rothkirch e na imagem inferior cartão postal que circulou no mesmo período em que a gravura foi realizada nos anos 30.

“Gávea”, na imagem superior a água-forte original feita por Oscar Rothkirch e na imagem inferior cartão postal que circulou no mesmo período em que a gravura foi realizada nos anos 30.

 

Outro ponto interessante a se destacar em sua obra   é que muitas de suas gravuras possuem ângulos  próximos ao dos cartões postais que circulavam na cidade durante os anos 30 além também de fotos feitas por Marc Ferrez retratando imagens panorâmicas do Rio de Janeiro, o que nos leva a crer que o artista possa ter feito algumas de suas águas-fortes a partir destas imagens fotográficas ou então que as utilizou como instrumento de consulta para finalização das suas composições. O fato é que gravuras como “Glória” ou “Gávea”,  possuem o mesmo ângulo de fotos e cartões postais circulados naquela época. De forma alguma isso tira seus méritos como artista,  pois o simples fato de ousar reproduzir através de uma água-forte uma imagem fotográfica, revela o quanto hábil era o artista em produzir uma nova leitura dessa imagem, onde os traços mais importantes seriam muito mais valorizados do que um simples processo fotográfico poderia oferecer.  As gravuras “Mercado dos Arcos” e “Lapa” nos oferece um ângulo inusitado e original da paisagem deste bairro boêmio enquanto que “Gávea” e “Glória” são claramente inspirados sob a perspectiva do ângulo, de cartões postais e fotos da época.

 

"Mercado dos Arcos - Rio", água-forte original de Oscar Rothkirch, anos 30.

“Mercado dos Arcos – Rio”, água-forte original de Oscar Rothkirch, anos 30.

 

Ao observarmos o conjunto de gravuras que Oscar Rothkirch produziu durante seu curto período no Brasil, não temos dúvidas de que estamos diante da obra de um grande mestre da água-forte, proveniente de uma das mais importantes academias de arte do mundo, a Academia de Belas Artes de Dresden fundada em 1764, mas sobretudo, alguém que soube reproduzir como poucos a beleza iconográfica da cidade do Rio de Janeiro e seus arredores através desta técnica pictórica. Rothkirch foi um pintor viajante do seu tempo e como tantos outros que aqui estiveram, nos deu uma enorme contribuição artística que ainda não recebeu o merecido reconhecimento artístico.

JULIO REIS

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