O Papel da Arte

OSCAR ROTHKIRCH: A ARTE DA ÁGUA-FORTE

Há 80 anos atrás, um curioso artigo no Jornal A Nação, tinha como autor o alemão Oscar Rothkirch, pintor e artista gravador que veio para o Brasil fixar residência e, encantado pela natureza exuberante da região serrana fluminense, produziu um dos mais belos conjuntos de águas-fortes cuja tema foi a cidade do Rio de Janeiro e região Serrana. Um mestre em seu ofício, Rothkirch quis através de seu artigo, esclarecer melhor à sociedade da época o que era a arte da água-forte, explicando didaticamente as técnicas mais conhecidas desta modalidade de gravura. Até hoje Oscar Rothkirch é um ilustre desconhecido na história da gravura no Brasil e suas obras as mais raras de se encontrar.

 

A ARTE DA ÁGUA-FORTE

“O professor Oscar Rothkirch, cuja exposição no Lyceu de Artes e Offícios obteve os mais francos elogios da parte da imprensa e do público, é um dos melhores água-fortistas estrangeiros que residem no Brasil. Vivendo em Teresópolis, entregue ao estudo dos encantos das nossa paisagem tropical, ele sabe traduzir num modo elevado a beleza da nossa rica natureza, através da arte expressiva e delicada da água-forte, ainda pouco apreciada entre nós. O presente artigo, da lavra do professor Rothkirch talvez servirá para dar ao leigo uma ideia da técnica dificílima e complicada desta arte antiquíssima e nobre.”

Jornal A Nação, de 06 de janeiro de 1937.

  

Oscar Rothkirch, pintor e gravador alemão radicado no Brasil nos anos 30.

Oscar Rothkirch, pintor e gravador alemão radicado no Brasil nos anos 30.

A água-forte é ainda pouco conhecida e apreciada entre nós. Apesar de ser uma arte dificílima, cuja técnica requer muito estudo, grande prática, paciência e um dom especial, motivo pelo qual um artista pode ser um excelente desenhista e não obstante um péssimo água-fortista, visto ter a água-forte uma técnica toda especial e o leigo, ignorando a dificuldade dessa arte antiquíssima, não lhe presta  a devida atenção, por confundí-la com um simples quadro impresso.

É, porém, impossível que uma arte tão altamente apreciada em todos os centros de cultura artística da Europa, desde a Idade Média, até os nossos dias, permaneça por mais tempo ignorada e desprezada em nosso meio, onde o interesse pela arte, em vista do importante papel que ela desempenha na vida social e moral de um povo, cresce dia a dia, com rapidez verdadeiramente espantosa, revelando nisso o brasileiro,  a sua inclinação natural para o belo.

A técnica da água-forte forma uma matéria tão vasta e complicada, que nos vamos limitar apenas a descrever os diversos processos empregados nesta arte admirável e aristocrática. Apenas uma ligeira narração para dar aos leitores, que a desconhecem, uma ideia da sua técnica, afim de que eles possam apreciar melhor a água-forte e lhe dar o merecido valor. 

"Gávea", anos 30, água-forte original de Oscar Rothkirch.

“Gávea”, anos 30, água-forte original de Oscar Rothkirch, coleção Julio Reis.

 I
A GRAVURA DIRETA SOBRE COBRE

O desenho gravado diretamente sobre uma chapa de cobre é muito antigo e data dos princípios da Idade Média, conservando-se em uso até meados do século XIX. Era usado, com preferência, para retratos, ilustrações etc. Hoje, a gravura direta sobre o cobre continua em uso para a produção das cédulas bancárias. Basta o leitor examinar atentamente uma cédula nova qualquer para saber o que seja a gravura sobre cobre. O processo é o seguinte: com um lápis crayon bem pontudo, o artista desenha o quadro levemente sobre uma chapa de cobre bem lisa, polida e lustrosa. Pode também passar para a chapa um desenho já existente, por meio de papel carbono. Pronto o desenho, este é gravado com o buril na chapa de cobre, graduando o artista a luz e sombra por meio de riscos leves ou profundos. O buril é um instrumento de aço muito duro, em forma de prego achatado na ponta, preso a um cabo de madeira.

 

II
A GRAVURA DE ÁGUA FORTE SOBRE CHAPA LISA

Esse processo tem grande vantagem sobre o primeiro, que acabamos de descrever. Foi empregado, pela primeira vez, por Rembrandt. São vários os utensílios usados nele. O mais grosso é uma faca de lâmina dupla, cuja ponta tem a forma de um coração; o mais fino e delgado é uma espécie de agulha, cuja ponta deve ser tão afiada que ao mais leve contato com a chapa polida já grava um risco. Devido à riqueza de nuances e sombras que se podem produzir com a agulha, que age como um bico de pena, e o contraste entre estes riscos finíssimos e os traços fortes e largos produzidos com o buril em forma de coração – este processo é de muito mais efeito do que a simples gravação com o buril de ponta chata. Os desenhos feitos com agulha e faca são mais suaves do que os produzidos pelo buril. A faca, ao partir o cobre, deixa um finíssimo gume dentado em cada risco no qual ficam depositadas  partículas da graxa que, em seguida é esfregada por cima da chapa. Essas partículas de tinta presas na beira dos riscos suavizam estes, produzindo um efeito mais pitoresco. Essa técnica traz, porém, uma inconveniência: é que as minúsculas elevações nos gumes com a faca inclinada para o lado saem facilmente com o esfregar contínuo da graxa, de modo que os quadros, depois de impressos, sairão duros e monótonos. Com menos contrastes de sombra dessa leve crespidão nas beiras dos riscos gravados, empregam-se chapas de metais, mais duros do que o cobre, aço ou bronze. Estes exigem, porém, não só muito mais força, como muito mais experiência da parte do água-fortista.

 

III
A RASPAGEM

A raspagem é outra técnica de efeito todo especial. O artista, depois de ter polido cuidadosamente a chapa de cobre, passa um balanço aculeiforme por cima dela, até que fique completamente granulada. Nessa superfície áspera, que, para o tato assemelha-se a superfície de um papel de lixa, o artista grava e raspa o desenho. Primeiro, o abridor raspa, com um raspador especial, as partes que no quadro devem ter a luz mais intensa, até que estas partes fiquem bem lisas e lustrosas; quanto mais escuras as sombras, tanto deverá ser mais leve a raspagem. As sombras mais profundas não levam raspagem alguma.

Cobrindo depois a chapa com uma graxa, especialmente preparada para este fim, e limpando-a novamente, aparecerão no papel, depois de passada a chapa pela prensa, quadros de grande plasticidade e altos contrastes de luz e sombra.

O inventor deste processo foi um tenente alemão, Von Sieger, que no ano de 1642 empregou essa técnica num retrato da esposa do nobre Hessen-Cassel. Explicando mais tarde, o seu invento ao príncipe Ruprecht do Palatinato, que era um grande amador e protetor das artes, foi o segrego contado a um colecionador inglês de objetos de arte, Sir. John Evelyn, o qual anotou o processo desta técnica no seu diário, do que resultou a divulgação posterior do invento de Von Sieger.

 

IV
A GRAVURA SOBRE CHAPA COBERTA COM UMA CAMADA FINA DE ASFALTO E TRATADA COM ÁCIDO NÍTRICO

É este o processo mais comumente conhecido pelo nome de água-forte. A chapa bem polida é aquecida  e, em seguida, coberta com uma fina camada de asfalto, por meio de um pequeno rolo de couro. Esta camada de asfalto: enegrecida sobre a chama de uma vela de cera, até ficar igualmente preta. O fumo mistura-se com o asfalto, formando, depois de esfriado, um excelente fundo escuro e lustroso  para o desenho, arranhado e raspado com a agulha, cujos riscos encobrem o luzido metal da chapa. Pronto o desenho, a chapa é colocada numa vasilha com ácido nítrico.

Este ácido cauteriza os riscos dos desenhos, feitos pela agulha, e aprofunda-os, enquanto que as partes da chapa cobertas pelo asfalto, se conservam intactas, pois o ácido nítrico (água-forte) não ataca o asfalto. Quanto mais fundo for o risco, mais tinta caberá nele e tanto mais escuro e forte sairá na impressão. Para obter as diversas graduações dos riscos mais leves e claros até os mais fortes e escuros, o artista tira a chapa do ácido e cobre as partes que têem de ficar claras para uma camada de asfalto. Coloca-se a chapa de novo no ácido para aprofundar as outras partes, e repete o mesmo processo de cada vez, até que seja alcançada a profundidade desejada. O artista tem de julgar a intensidade dos riscos do desenho pela profundidade cauterizada pelo ácido, o que requer grande experiência.

"Glória", anos 30, água-forte original de Oscar Rothkirch.

“Glória”, anos 30, água-forte original de Oscar Rothkirch, Coleção Julio Reis.

V
A ÁGUA-FORTE EM ASFALTO MACIO

A chapa, coberta com uma fina camada de asfalto, é aquecida até o asfalto ficar macio, formando uma substância viscosa. O artista traça o desenho sobre um papel fino, levemente granulado, coloca-o sobre a chapa e calça-o com um instrumento pontudo sobre o asfalto mole, trabalhado dificultoso, pois que a minha pressão fará correr a massa mole do asfalto e modificará a linha do desenho. Transpassado, desta maneira, o desenho para o asfalto, tira-se aquele cautelosamente, para não desmanchar os riscos gravados na substância macia  do asfalto, e coloca-se a chapa no ácido nítrico (água-forte), o qual penetra nos riscos calcados gravando-se na chapa de cobre. Daí por diante, procede-se da mesma forma que com o asfalto duro. O efeito do quadro, depois de tirado da prensa, é, porém outro, pois que o fino granulado do papel, tendo-se gravado no asfalto, juntamente com os riscos do desenho, produz, depois de impresso, o efeito de um desenho a crayon.

 

VI
A ÁGUA-TINTA

A técnica da água-tinta é interessante e produz – sem grandes preparos – quadros de belíssimo efeito, quase de uma aquarela. A chapa é coberta com uma camada finíssima de pó de asfalto. Para este fim, o artista se utiliza de uma caixa quadrada, suspensa dentro de uma armação por um pau, que passando pelo centro da caixa, permite que ela gire sobre este eixo. Nessa caixa e despejado o pó de asfalto; e o artista, depois de fazê-la girar algumas vezes, coloca no seu interior a chapa. O pó mais fino, que depois da rotação, peneira-se no espaço, desce lentamente e repousa sobre a chapa, cobrindo-a igualmente com uma camada do mais fino pó. A chapa é retirada, em seguida, com muita cautela, e aquecida por cima duma chama de álcool até que o pó de asfalto esteja bem colocado a ela.

Esfriada, a chapa está pronta para a gravação do desenho. Pronto o desenho, a chapa é tratada  com água-forte. As partes mais claras, de luz mais intensa, são cobertas com lacre de asfalto, que impede a influência corrosiva do ácido nítrico sobre a chapa. Para obter a graduação de riscos e planos fracos e fortes, isto é, luz e sombra, o artista continua a cobrir as partes que lhe parecem já suficientemente fundas, com lacre, para fazer com que o ácido, nesse lugar, continue a aprofundar o desenho.

Depois que a chapa estiver devidamente gravada pelo ácido, retira-se a camada de asfalto e esfrega-se a chapa com a graxa, que penetra nas cavidades do desenho, feitas pela água-forte. Limpa-se tudo depois, de modo que a graxa permaneça apenas nos riscos do desenho.

Feito isso, a chapa está pronta para a prensa. A maior dificuldade para o artista consiste em calcular o tempo que ele tem de expor a chapa à influência do ácido, para obter as diversas graduações de claro ao escuro – o que necessita grande experiência.

 

VII
A RESERVAGE

É um processo que muito se aplica nas ilustrações ou letras ornamentais. Sobre uma chapa bem polida, fez-se o desenho a bico de pena, embebida numa mistura de tinta e goma arábica – e depois de seca, é tratada pelo processo já descrito no processo IV, sem contudo enegrecê-la. Esfriado o asfalto, a chapa é colocada em água fria por algum tempo. Assim, a camada de asfalto que assentava sobre o desenho, se deslocará, permitindo que a água-forte penetre debaixo do asfalto, umedecendo a chapa e queimando-a levemente, o que produz, no quadro impresso, um tom cinzento das partes claras de luz. O efeito será aproximadamente o de um desenho a lápis.

  

VIII
À MANEIRA DE CRAYON

Essa técnica nos dá a impressão de ter sido feita com crayon ou lápis. O desenho é traçado sobre a chapa (preparada pelo processo descrito no IV), com instrumentos especiais: a roullete, a molette e a mattoir. Estes instrumentos estão cobertos de dentes. Há  de todos os tamanhos, desde a minúscula rodinha dentada até o cilindro ou bola de um diâmetro de 2-3 cms. Os dentes e pregos, muito afiados e pontudos, com facilidade passam pelo asfalto, sobre o qual traçam o desenho, talhando a camada do asfalto até a superfície da chapa de cobre (ver processo IV).

É um processo que foi experimentado por vários artistas franceses, sem resultado satisfatório. Os instrumentos construídos especialmente para a imitação do crayon – a roulette, a molette e o mattoir – ficaram em uso para outros sistemas de água-forte. 

"Lapa", anos 30, água-forte original de Oscar Rothkirch.

“Lapa”, anos 30, água-forte original de Oscar Rothkirch, Coleção Julio Reis.

IX
A GRAVURA COLORIDA POR MEIO DE DIVERSAS CHAPAS

É um processo dificílimo, que exige muita paciência, exatidão e experiência. Os artistas necessitam de três a cinco chapas do mesmo tamanho, uma para a gravura do desenho à água-forte (processo VI) e as outras para a impressão das diversas cores fundamentais.

Estas chapas, cada uma das quais contem uma das cores fundamentais – vermelho,  amarelo e azul – são tratadas pelo processo de água-tinta (Processo VI). As diversas cores são impressas uma por cima das outras, e, por fim, a chapa é impressa com o desenho. Usa-se  para o colorido a tinta a óleo. O inventor desta técnica – o francês Leblondi – esforçou-se  para obter um resultado perfeito, sem o conseguir. É que uma grande parte da tinta de uma chapa transpassa da cartolina para a chapa seguinte, misturando-se com a nova cor, o que modifica a nuance do colorido desejado. Além disso, o papel endurece com a impressão consecutiva das diversas chapas e não chupa mais as partículas da tinta no fundo dos riscos gravados nas últimas chapas, de modo que o colorido sairá sempre imperfeito. O maior defeito, porém, é que a cartolina, com a forte pressão das diversas chapas, se estica, de maneira que os contornos do desenho não caem mais exatamente, nas diversas chapas, uns por cima dos outros  – o que, depois de pronto dá a impressão de desmanchado. As pesquisas de Leblond não foram, todavia, inúteis, pois que deste processo desenvolveu-se a Trichromia, isto é, a impressão a três cores.

 

X
GRAVURA COLORIDA NUMA SÓ CHAPA

Já tinha sido experimentado por Hercules Singhers há 359 anos. Singhers gravava a chapa à maneira de água-forte, tirava uma impressão da mesma sobre papel de seda, calcava esse desenho sobre o papel cartolina, coloria-o com tinta aquarela e imprimia, por fim, sobre o desenho colorido, o desenho preto da chapa gravada à água-forte.

Por volta de 1780, Pedro Schenk experimentou colorir com tinta a óleo a própria chapa – depois de ser esta preparada com graxa, pronta para a impressão. A tinta a óleo misturava-se porém, com a graxa preta do desenho e sujava o colorido.

 

XI
PROCESSOS DIVERSOS NUMA SÓ CHAPA

Os diversos processos descritos acima podem ser empregados ao mesmo tempo na mesma chapa, conforme o gosto do artista. Um desenho pode ser composto de água-tinta, raspagem, crayon etc.

 

XII
A PROVA

Não é possível concluir de uma vez a gravação do desenho, o artista terá de tirar de vez em quando uma prova impressa para ver o que ainda falta. Chapas grandes e complicadas, especialmente retratos, necessitam muitas provas.

 

XIII
A IMPRESSÃO

A impressão é feita por meio de uma prensa especial. Depois de finalizado o desenho, a chapa é coberta com uma tinta graxa, feita de uma mistura de fuligem com verniz, a qual é esfregada sobre a chapa, até ela penetrar nos riscos mais leves da gravura. Em seguida, é tirada a graxa com um pano comum e, por fim, com um pano de seda, até a chapa ficar completamente polida, restando a tinta somente nas cavidades do desenho. Assim preparada a chapa e a cartolina, são colocadas na mesa da prensa, entre dois pedaços grossos de feltro, as banquetas, e posta em movimento a prensa, que transporta o desenho para o papel.

As descrições precedentes, dos diversos processos da água-forte, são apenas esboçadas. Não pretendem senão dar ao leigo uma ligeira noção do que seja a água-forte.

Arte nobre, cultivada por todos os grandes artistas através dos séculos, pouco conhecida, porém no Brasil e por isto pouco apreciada pelo grande público, que ignora as dificuldades de uma arte tão delicada e a grande habilidade artística que ele requer.

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