O Papel da Arte

GOELDI: “um artista desconhecido” em 1926

No natal de 1926, no Rio de Janeiro, o diplomata Erwin Zack publica no periódico O JORNAL, uma crítica com o título “Um artista desconhecido” alusiva à obra de Oswald Goeldi. Seu magnífico texto, escrito há quase um século já revelava para todos nós a singularidade da obra artística e o seu talento indiscutível que iria alçá-lo nos anos futuros como um dos mais importantes artistas brasileiros. As imagens do texto são as mesmas exibidas na reportagem reproduzida abaixo:

 

 

Erwin Zach (1872-1942)

Erwin Zach (1872-1942)

 

 

UM ARTISTA DESCONHECIDO

 

Tendo nascido e vivido no Rio de Janeiro, Oswaldo Goeldi foi “descoberto” na Europa – Uma pena viva que focaliza as paixões, o ódio, o amor, o desespero e a morte. 

 

"Sem título", desenho a bico de pena de Oswaldo Goeldi.

“Sem título”, desenho a bico de pena de Oswaldo Goeldi.

 

São poucos os brasileiros que conhecem o artista Oswaldo Goeldi, nascido e vivendo no Rio de Janeiro e “descoberto” na  Europa onde as maiores galerias de arte de Berlim, Munique e Viena acabam de convidá-lo para expor os seus desenhos a bico de pena e as suas gravuras. É quase sempre assim: santos  de casa não fazem milagres…

As obras deste artista não correm o perigo de uma “crítica benévola”. Elas talvez possam ferir profundamente o gosto acadêmico do puro esteta, possam ser consideradas, pelo clássico da velha escola, como criações monstruosas de um talento satânico: o talento e a originalidade, porém,  não lhe serão jamais negados por ninguém que seja criterioso.

Todavia, fatores caraterísticos da vida humana não são nem o belo nem o feio e muito duvidamos até da palavra de Goethe de que basta mergulhar nela para achá-la interessante. Ao contrário diremos que a vida humana “interessante” começa nas margens do comum. Dostoievski disse uma vez que se desesperava diante do homem medíocre porque era impossível dizer qualquer coisa a seu respeito. Guy de Maupassant nos pinta o homem medíocre como a canalha vil, mesquinha e burguesa que ele é – encantando-nos pela sua objetividade cruel e naturalista; porém, a sua arte brilhante, essencialmente descritiva e realista nos deixa saudades do incompreensível que está debaixo, entre as coisas e acima delas, e que somente se pode sentir.

 

"Sem título", desenho a bico de pena de Oswaldo Goeldi.

“Sem título”, desenho a bico de pena de Oswaldo Goeldi.

 

Oswaldo Goeldi tem essa intuição finíssima que faz o grande artista e que distingue o escritor do poeta. Suas criações nos representam um mundo rico de impressões vibrantes e dramáticas. Tudo, nelas, é sentimento e visão. Mestre da luz e da sombra, ele fez desenhos expressionistas de efeito irresistível dos grandes símbolos verdadeiros. Vive neles uma paixão e sinceridade que convencem e que nos deixam profundamente impressionados pela simplicidade e abnegação com que são representadas. A abnegação é talvez a palavra que melhor explica o essencial desta personalidade madura que nunca tratou de conquistar o público por concessões alheias a sua arte e que sempre renunciou a efeitos baratos. Dos seus desenhos e gravuras  obtêm-se  a impressão de que a sua criação deu ao artista um alívio imenso, por tê-lo libertado do peso de imaginações e emoções agudas e profundas.

O mundo de Goeldi é o mundo lúgubre, grotesco e fabuloso de Poe e Gogol. O trágico enredo das suas obras encerra os tristes e abandonados, a solidão e a melancolia de paisagens encantadas. Uma imaginação febril produz criaturas que nos surpreendem pela extraordinária força de expressão e cujas feições nos revelam os últimos segredos da alma humana. Sobre o fundo escuro destas obras aparecem rostos que nos narram toda uma vida destruída, paixões e ódio, desespero e morte.

 

"Sem título", desenho a bico de pena de Oswaldo Goeldi.

“Sem título”, desenho a bico de pena de Oswaldo Goeldi.

 

Vemos paisagens nas quais cada árvore e cada casa fala do abandono e tristeza infinitas. Cenas dramáticas se desenrolam, tão cheias de violência, brutalidade e medo da morte, que a sua força dramática é deveras explosiva.

O que distingue todas as obras do grande artista suíço-brasileiro é a ausência do banal e do desnecessário. Não se pode ninguém furtar-se da impressão de que todas essas expressões foram para ele uma necessidade absoluta. Todas elas levam os signos inconfundíveis da verdade e da sinceridade; todas elas são a síntese perfeita do vivido e do sentido. É isso o que lhes dá o efeito e o valor dos grandes contos imortais da literatura mundial.

As grandes verdades são simples. Goeldi consegue o formidável efeito em suas obras por uma técnica ao mesmo tempo primitiva e exaustiva. Poucas linhas traduzem os sentimentos e impressões do artista, mas cada uma delas vibra de excitação, cada uma é portadora necessária da ideia. A distribuição da luz e da sombra é feita de modo tão genial que ela denota ao mesmo tempo o grande realista e o grande esteta.

Aqui se revela um sentido óptico extraordinário. O cruzamento original das linhas empresta a esses desenhos uma elegância fluída que é de todo incomum na  arte gráfica. O temperamento impulsivo do artista não admite excessos ornamentais e decorativos. A sua técnica obedece ao ritmo íntimo e ao caráter apaixonado do seu mundo imaginário.

Essas criações todas nascem do subconsciente de uma alma audaz e sincera. A fantasia que criou estas ruas, casas, criaturas e paisagens desertas tem a força convincente das visões de sonhos vivos. Enquanto nos homens vive a alegria da fábula, na obra de Goeldi eles são a realidade.

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