O Papel da Arte

SCLIAR e os álbuns de serigrafia

"Telhados de Ouro Preto", 1977. Albúm de serigrafias de Carlos Scliar homenageando a cidade de Ouro Preto.

“Telhados de Ouro Preto”, 1977. Albúm de serigrafias de Carlos Scliar homenageando a cidade de Ouro Preto.

 

SCLIAR E OS ÁLBUNS DE SERIGRAFIA

 

Dentre todos nossos artistas gravadores, Carlos Scliar foi sem sombra de dúvida, um dos que mais abraçaram a serigrafia como mais um dos meios de expressão de sua arte no fim dos anos 60.  Seu primeiro contato com a serigrafia se deu em 1956 quando foi convidado por Vinícius de Moraes para fazer parte da equipe de produção da peça da Orfeu da Conceição no teatro municipal do Rio. Junto com Djanira, Raimundo de Oliveira e Luis Ventura, preparam o cartaz da peça. A experiência não deu muito certo por problemas técnicos de impressão e falta de tempo e assim  a idéia permaneceu adormecida por dez anos.

Até que em 1967 Scliar conheceu Dionísio Del Santo que já fazia serigrafia e juntos criaram a Cooperativa de Serigrafia, que  a partir daquele ano, editou onze envelopes individuais com obras dos principais artistas da época, interessados nesse novo processo de impressão já tão comum nos Estados Unidos através da Pop Art. É nesse período que a serigrafia é aceita pelo meio artístico brasileiro como técnica de gravura artística.  Scliar, Dionísio, Glauco Rodrigues, Anna Letycia, Farnese de Andrade, Gerchman, Vergara e muitos outros artistas fizeram álbuns-envelope contendo 5 imagens cada um.  Dessa forma o acesso à arte por parte dos alunos foi muito maior, pois esses trabalhos eram vendidos  nas mostras que ocorreram nas faculdades de Medicina e de Arquitetura, no Rio, na Reitoria da UFMG  e em Niterói. Muitos dos jovens estudantes tornaram-se depois colecionadores não só de Scliar como dos artistas que participaram da cooperativa.

 

“TELHADOS DE OURO PRETO”

Serigrafia de Carlos Scliar produzida para o álbum "Telhados de Ouro Preto" em 1977.

Serigrafia de Carlos Scliar produzida para o álbum “Telhados de Ouro Preto” em 1977.

Scliar ao longo de toda a sua carreira também produziu  álbuns de serigrafia patrocinados por empresas e instituições públicas e privadas, dos quais dois iremos tratar a seguir: o álbum “Os telhados de Ouro Preto” de 1977 e o “Il Guarany, Sinfonia a Carlos Gomes” em 1996 .

“Telhados de Ouro Preto” foi criado por Scliar em 1977 e editado pela famosa Lithos Edições de Arte. A impressão foi feita em papel Murillo Fabriano 190gr no formato 40cm x 59cm e tiragem de 200 exemplares, com todas as serigrafias e o texto de apresentação assinado pelo artista e mais 20 exemplares divididos em 10 P.A. – prova do artista) e 10 H.C. – fora do comércio.

Serigrafia de Carlos Scliar para o álbum "Telhados de Ouro Preto", 1977.

Serigrafia de Carlos Scliar para o álbum “Telhados de Ouro Preto”, 1977.

“Estou tão envolvido com Ouro Preto que me vejo entre encabulado e apaixonado, cada vez que tento explicar as ligações que sinto, quem sabe um tanto incestuosas com essa cidade.” 

                                                                                                                                                                          Carlos Scliar 

 

A paixão de Scliar por Ouro Preto começou no início dos anos 60, quando conheceu a cidade. A partir daí várias idas e vindas até fixar seu ateliê. Foi em 1963 que ao visitar pela primeira vez os jardins do Casarão das Lages,  no alto da cidade, ele teve a idéia de fazer um trabalho panorâmico. Scliar se imaginava numa mirante panorâmico onde poderia ver de todos os lados a paisagem de Ouro Preto marcada pelos seus telhados do período colonial. Imaginava essa vista como o enquadramento para um filme e ele, apaixonado por cinema, uniu essa paixão com a sua arte, produzindo esse álbum que poderia ser chamado de um storyboard  de cinema de um filme chamado Ouro Preto. Scliar confirma essa idéia ao afirmar no texto de apresentação do álbum: “ – Sempre fui maníaco por cinema e de certa maneira, creio que todas as composições que depois realizei foram produtos dessa minha híbrida paixão por pintura/movimento/cinema.” Scliar já tinha pintado Ouro Preto inúmeras vezes porém com esse álbum seria a primeira vez que ele retratou a cidade através de serigrafias. Nas suas palavras “Uma Ouro Preto lírica, quase Vila Rica, ero o meu amor primeiro que brotava: era a Ouro Preto que eu sabia que existia, no fundo de mim, na minha raiz, mesmo antes de conhecê-la.”

“Telhados de Ouro Preto” foi para o artista um obra mais serena, novamente interpretando Antonio Dias, resultado de todos os seus trabalhos anteriores e no entanto diferente por usar pela primeira vez a técnica da serigrafia, apresentando novas soluções gráficas/artísticas.

 

“Il Guarany: Sinfonia A.Carlos Gomes" álbum de Carlos Scliar em homenagem ao centenário de morte do Compositor Carlos Gomes.

“Il Guarany: Sinfonia A.Carlos Gomes” álbum de Carlos Scliar em homenagem ao centenário de morte do Compositor Carlos Gomes.

“IL GUARANY, SINFONIA A. CARLOS GOMES”

Já o álbum “Il Guarany: Sinfonia A.Carlos Gomes”, editado em 1996, foi uma forma do Centro Cultural Banco do Brasil  homenagear o centenário da morte do mais importante compositor brasileiro do Sec. XIX.  Trata-se de um conjunto de serigrafias dos principais instrumentos musicais de uma orquestra.  “Il Guarany” conta com texto de apresentação de Olívio Tavares de Araújo e contém nove serigrafias de 35cm x 50cm e uma grande de 50cm x 70cm, impressas em papel Aquarela Italiano 300gr e tiragem de 400 exemplares, todos numerados e assinados.

Serigrafia do álbum "Il Guarany", em homenagem ao centenário de morte do compositor Carlos Gomes.

Serigrafia do álbum “Il Guarany”, em homenagem ao centenário de morte do compositor Carlos Gomes.

Conforme o próprio Olívio fala em seu texto: “Scliar,  numa linguagem  marcadamente gráfica (é um dos mais importantes artistas gráficos do país), apenas “estofa” com áreas de cor recortadas e chapada as imagens dos instrumentos, tiradas de algum livro técnico antigo, jogando-as sobre notas e pautas que não admitem nenhuma leitura simbólica. As partituras encontradas dessas serigrafias já não são obra inéditas em sua carreira pois a vem ocupando desde os anos 60, através de colagens e pinturas.

Serigrafia do álbum "Il Guarany", em homenagem ao centenário de morte do compositor Carlos Gomes.

Serigrafia do álbum “Il Guarany”, em homenagem ao centenário de morte do compositor Carlos Gomes.

“Il Guarany”, poderia ser um álbum tradicional com reproduções meramente formais de instrumentos musicais. No entanto, na mão de Scliar esses objetos criam vida e adquirem uma sofisticação através de uma beleza despretensiosa mas nem por isso vazia de significado, tornando-se uma homenagem justa e que tal como a obra de Carlos Gomes, também não passou desapercebida.

O Papel da Arte oferece para vendas esses dois álbuns “Telhados de Ouro Preto” e “Il Guarany” em http://www.opapeldaarte.com.br/758/

Julio Reis

 

Bibliografia:
Telhados de Ouro Preto”. Álbum de serigrafias. Lithos Edições de Arte, RJ. 1977.
“Il Guarany” –  Sinfonia A. Carlos Gomes. Álbum de serigrafias. Lithos Edições de Arte, RJ. 1996.
:
Gravura Brasileira Hoje : depoimentos Vol.1. SESC Regional do Rio de Janeiro,org. Heloisa Pires Ferreira, Maria Luiza Távora.Rio de Janeiro: SESC/ARRJ, 1996.
Scliar: a persistência da paisagem, uma aventura moderna no Brasil” . Catálogo da Exposição no MAM. RJ, 1991.

O DEBRET QUE NÃO CONHECEMOS

Ao entrar no Gabinete de Gravuras  e Fotografias da Biblioteca Nacional da França, em 2015, à procura de estampas  usadas para o ensino didático do desenho no século XIX, Marcelo Gonczarowska Jorge, então estudante de mestrado da UnB e bolsista do Instituto ... leia mais

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