O Papel da Arte

UM ARTISTA INTERIOR: CARLOS OSWALD

Carlos Oswald, pintor e artista gravador.

A Revista O Malho,  do Rio de Janeiro, publicou em julho de 1919 uma extensa crítica sobre a gravura artística de Carlos Oswald. O articulista da publicação, Renato Almeida, conseguiu traduzir como ninguém todo o sentimento e a beleza escondida por detrás das águas-fortes do artista, publicando uma crítica detalhada sobre os mais variados aspectos plásticos e subjetivos das obras reproduzidas na reportagem.  Ao contrário da grande maioria dos críticos e intelectuais que escreviam sobre arte para as principais publicações da época,  a crítica de arte reservada à gravura sempre foi reduzida,  quando não,  composta de palavras elogiosas mas vazias como por exemplo pitorescas, encantadoras, graciosas etc… Esta crítica representa uma importante contribuição para a crítica da arte da gravura no início do século. As imagens reproduzidas aqui são as mesmas que foram reproduzidas à época na publicação. Para quem desejar ler o artigo tal qual foi publicado, o endereço é http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=116300&PagFis=40553



A obra de arte, que o Sr. Carlos Oswald vai realizando longe do mundo inquieto, ficará como uma das mais preciosas contribuições do nosso temperamento para o edifício misterioso da beleza. Não é preciso apenas criar, é necessário criar com amor, tocando nossas insuficientes produções com alguma coisa de divino, que aurimos da vida mesmo e que se revela no instante fugaz do êxtase. O espírito só produz sofrendo, é sina humana; mas, como enganadora recompensa, o destino nos deixou um pouco de beleza, ainda que enclausurada no limite de nossos sentidos.

CARLOS OSWALD: "Concerto", água-forte original, 1914. Coleção Julio Reis, RJ.
CARLOS OSWALD: “Concerto”, água-forte original, 1914. Coleção Julio Reis, RJ.

Os que criam alegres, ou sorrindo, escondendo a tristeza por detrás do encanto, ou da resignação, são os que tem um pouco de mel na ânfora amargurada da vida. Amortecem os golpes com que a inteligência pérfida nos repete, minuto a minuto, nossa contingência miserável, e, iluminados, cantam a glória da vida. Tem os olhos para ver a natureza e pouco importa que o azul do céu seja apenas uma ilusão e que tudo seja o vazio imenso, que o sol tenha negras manchas e que a lua seja um mundo apagado…

Quando, tendo os sentidos tomados pela maravilha do universo, cuja maldade não buscam, estes artistas se isolam e, recolhidos, revelam aos homens uma obra de arte, são felizes, porque fazem de sua dor de viver um motivo de beleza para seus irmãos. Oferecem generosos todo o encanto que o destino lhes deu e guardam cheios de pudor, a desolação que os amargura. Sua parcela de desengano se transfigura num motivo de luta, ou de esforço, sua melancolia em suavidade, seu horror em lamento.

A vida é sempre, em suas sensibilidades, uma maravilha, um afeto, ou uma caricia, nunca uma revolta contra a sorte, e, recebendo sem rebeldia a fatalidade, diminuem o choque dos contrastes.  A dor é uma elegia cheia de encantos e não se resolve uma inventiva feroz, nem num grito de vingança; é da vida e mais vale bem viver.

A amargura se dissolve na alma, como numa taça a gota de veneno, que dá à água cristalina uma cor maravilhosa, mentindo com essa aparência o destino fatal para quem a chegar aos lábios.

O Sr. Carlos Oswald pertence a esta família de artistas, que olham o mundo com um olhar ingênuo de surpresa e em cujos espíritos as maldades quotidianas fazem mossa, quando nós outros nem nos apercebemos delas. Sua obra de arte não é fascinante de brilhos nem de ricas alegorias, não tem os recursos de ambientes luxuosos, nem o luzir de adornos requintados, sua beleza vem da simplicidade dos motivos e da composição. A ele basta a luz para os efeitos mais surpreendentes.

Dentro das tendências do tempo, para o qual “tout pretexte est um jeu chromatique qui est devnu l´essentiel”, não rebusca mitos, nem retoma velhos temas; pinta com simplicidade tudo que lhe toca a vista: um motivo de trabalho e esforço, uma figura elegante e graciosa, um recanto florescente, um garoto despreocupado.

Seu realismo vem desse amor à vida simples, para a qual tendemos, depois da longa fadiga de um excesso de super-estesia decadente. Sabe, com Mauclair, que “peindre c´est penser en coulerus” e nos dá sua impressão do mundo maravilhoso, indiferente às grandes diretivas que deveriam ser fixadas nas telas, se ainda predominasse o velho espírito clássico. Atravessando uma época de inquietação e horror, não para à beira da estrada para contemplar a massa humana que se agita e clama, recolhe-se num jardim fechado, onde a vida seja um sonho de delícias, que sonha à maneira que pinta, com uma naturalidade ingênua. Nasceu artista, com o mesmo temperamento delicado de Henrique Oswald, cujas notas suaves e boas são como uma caricia demorada, um beijo casto…

A expressão do Sr. Carlos Oswald não se fixou em uma tendência determinada; varia na multiplicidade de motivos que ilumina, sem predileções nem preferências; toda a natureza é uma inspiração constante, uma fonte inesgotável de harmonia e beleza. Seus tipos são bons, não os ensombreia a tortura, ou a desilusão; contentes com o seu quinhão sabem comê-lo num banquete. Há em tudo uma constante apologia ao esforço e ao trabalho: a terra nos apresenta, como mão carinhosa e boa, donde tiramos os frutos sazonados apetecidos. Foi este instante de luta do homem para arrancar do solo a própria vida, que o Sr. Carlos Oswald gravou em numerosas telas, onde o arado lavra o chão, tirado por grandes bois de passadas lentas.

Nesse gênero sua alegoria Patria é de esplêndido efeito decorativo. O símbolo nacional está na ligação do homem à terra, na sementeira fecunda, no labor profícuo e não em alegorias de guerreiros barulhentos e estridentes clarins.

É que sua arte precede de seu temperamento alheio ao meio: é sobretudo um isolado. A água-forte é, ao meu ver, a forma de arte do Sr. Carlos Oswald a mais preciosa; ai sua expressão adquire valores mais intensos e se revela em linhas mais seguras, sua maneira se aprimora, seu caráter se acentua.

É que esse gênero de gravura, como que tem uma estranha nobreza para os espíritos recolhidos, um requinte para dizer certas intimidades, que assim gravadas se tornam mais sensíveis, como se a morsure ferisse nossa alma mesma. Sendo simples, a sugestão vem desse “talento de analista e sintetista; o talento de combinar e simplificar, separar os planos entre si, fundir o detalhe na massa, subordinar a precisão ao espaço à distância, à luz, ao ar”, como afirma Seymor Haden, o artista tão intenso e vibrante.

CARLOS OSWALD: “A visitação”, água-forte original de 1914. Coleção Paulo Vergolino, SP.

O Sr. Carlos Oswald é um grande aguafortista,  possuidor de uma fatura aprimorada e um sentido muito perfeito de sua técnica, sabendo os efeitos mais sutis do claro escuro, em cuja ambiência misteriosa a fisionomia humana e os aspectos da natureza ganham um poder de sugestão indefinível. A água-forte Visitação, cujo recolhimento evoca Carriére, é porventura sua composição mais emocionante. As duas figuras santas são esboçadas numa suave e angélica beatitude e a santidade do encontro não vem de forçar a nota mística, mas da evocação misteriosa, que nos envolve docemente o espírito. São os toques, cuja importância na água-forte é prodigiosa, e o efeito interior dos tons, que dão o misterioso encanto dessas cabeças, em que não foi mister a aureola para santificá-las. Uma transição do mundo sensível para o subjetivo usando as palavras de Mauclair, tão aplicáveis aqui; porque o espírito, ferido pela impressão de pureza e santidade, reage, enquanto a memória os vai dando a cena, e assim, temos entendido a idéia do artista, expressa em formas ou sejam “aspectos das idéias, por elas engendrados”.

Aquele olhar penetrante de Santa Isabel e o recolhimento da Virgem Maria tem alguma coisa de indefinível e ideal, de mágico e contemplativo, um pouco de realidade e de sonho… Sente-se bem o conceito de Carriére: “La transmission vie est oevre de passion et d´amour”.

CARLOS OSWALD: “Pierrot”, água-forte original, 1914. Medalha de prata do Salão Nacional de Belas Artes de 1916. Coleção Julio Reis, RJ.

Com que paixão não foi também feito aquele Pierrot sonhador e triste, com a cabeça reclinada ao peso de uma melancolia imensa, como que morrendo de amor ao meio de suas alvas roupagens farfalhantes? E só resignação, não tem, como o Pierrot de Shcumann, por exemplo, uma revolta nem um lamento mesmo, é todo abandono, a própria flor, que tinhas entre os dedos finos, tombou do braço derreado. Quanto contemplo essa gravura acordam em minha memória as notas plangentes do Pierrot se meurt, com que Henrique Oswald sentiu esta mesma agonia, em que não se sabe se, como o poeta, morre de amor, ou como a musa morre de esperança…

Não é só essa feição evocativa, a de suas águas-fortes vai gravando, invariavelmente, todos os motivos, seja a graça maravilhosa dos Cyprestres, lembrando uma cena grega, com aquelas três figuras de mulher de ligeiras túnicas a dançar, ao som de uma harpa, que ao lado soa, tangida pelos dedos hábeis de uma ninfa e de um efebo ingênuo seja o encanto do Concerto, tão delicado na fisionomia graciosa da pianista, ou o majestoso da Porta-Romana, com grandes efeitos de claro escuro, ou da Igreja Velha, ou ainda , daqueles bois em juntas, à beira do mar espumejante, da gravura Carregando madeira.

CARLOS OSWALD: “Ciprestes”, água-forte original, 1910. Coleção privada, SP.

Não vale estar a enumerar, a preferencia seria difícil, pois a unidade da obra é de tal forma que ela é o mesmo reflexo de amor às coisas e à vida, que no seu olhar de artista são sempre motivos de beleza.

Seus retratos, porém, merecem valores inestimáveis do seu temperamento. A série ainda é limitada, e, se me é permitida uma indiscrição, direi que o de Chopin, cujo estado não é o definitivo, e de que conheço uma avant la lettre (segundo estado) de uma coleção de suas águas-fortes, pertencente a este esteta tão original e vibrante, que é o Sr. Elysio de Carvalho, leva a todas a vantagem de não ser o retrato, mas a “alma de Chopin”, como me disse o próprio artista.

O olhar do músico sublime perde-se nessa “realidade segunda” de que fala Mauclair e a dor, o desejo, a mágoa, a própria revolta, todo Chopin está nestas linhas harmoniosas, que lhe deu o Sr. Carlos Oswald nesse sonho de beleza, se assim me permitem chamar essa gravura de estranha sensibilidade. Sobre aquele Wagner, onde um claro escuro forte marca a impressão perfeito do gênio de Beyreuth, aquele Liszt enérgico e vibrante, Chopin não é obra de admiração nem de entendimento, mas de puro amor ingênuo e maravilhado.

Outra máscara psicológica de grande valor e a de São João Baptista, cuja expressão de olhar fixo e penetrante nos fere a alma, como impressiona aquele corte de boca que parece guardar, sem cólera, uma reprimenda formidável aos homens perversos e incorrigíveis.

O Sr. Carlos Oswald tem conseguido elevar sua arte de água-fortista até as sutilezas mais requintadas, e, dispondo de uma maneira original e de uma segurança perfeita de fatura, dá-nos nas suas gravuras as impressões mais precisas, psicológicas, ou materiais, o que só a mão de um grande artista consegue imprimir. Não usa os recursos tão habituais nas águas-fortes modernas, e de colorir variadamente, de sorte a esconder no conjunto policromo as incertezas da forma.

A água-forte tem sua expressão definitiva no claro escuro, ai reside sua sugestão mais absoluta, desde as gravuras dos grandes Mestres antigos até, modernamente, os Rops, os Wistlers e os que não pretendem vulgarizar esta feição de arte tão subjetiva.

O Sr. Carlos Oswald é dos que trabalham com nobreza e tem na harmonia das coisas o ritmo verificador de suas artes. Continue assim sua obra de beleza, isolado e feliz, amando a alegria e a graça do mundo, o esforço dos seres e a fecundidade da terra, guardando algumas ilusões boas e perdoando a rudeza dos homens, mas longe, sempre longe deles…

Rio, julho, 1919.

Renato Almeida
Revista O Malho

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