O Papel da Arte

VOLPI JAMAIS PRODUZIU GRAVURA

Alfredo Volpi trabalhando em seu ateliê no bairro do Cambuci, São Paulo. Foto: autor desconhecido.

Alfredo Volpi trabalhando em seu ateliê no bairro do Cambuci, São Paulo. Foto: autor desconhecido.

Alfredo Volpi (1896-1988), um dos nossos mais importantes artistas brasileiros, produziu ao longo de toda sua vida um grande número de telas, primeiramente figurativas e que posteriormente caminharia para o concretismo e outros estilos a que o autor já foi classificado como  naif, expressionista, geométrico etc. Seu figurativismo-abstrato lúdico, representado por suas ogivas, bandeirinhas, portas e elementos simples de sua memória afetiva, são dotados de toda uma simbologia transfigurada das imagens reais que guardou de sua infância e de sua juventude. Longe de ser considerado um pintor ingênuo por incautos conhecedores de sua obra, Volpi deixou um grande legado para a moderna arte brasileira e  jamais foi seduzido pelo mercado ou acompanhado modismos a que alguns artistas com carreiras promissoras deixaram-se entregar.

Há muitos anos suas pinturas à têmpera e à óleo atingem cifras altíssimas no mercado de arte brasileiro, tornando sua obra não só um produto acessível a um grupo seleto de colecionadores, como também o desejo de consumo de muitos admiradores que não dispõem de poder aquisitivo para tal mas que nem por isso deixam adormecer o sonho de possuir uma obra original do artista em sua coleção.

"Sem título", gravura em metal colorida, reproduzindo pintura à têmpera de Alfredo Volpi.

“Sem título”, gravura em metal colorida, reproduzindo pintura à têmpera de Alfredo Volpi.

Somente quem ama o trabalho de um determinado artista  consegue compreender essa compulsão pela posse em admirar na parede de sua casa uma obra de seu autor preferido. E qual seria a solução para se obter uma obra original de um artista como Volpi, que não fosse uma obra exclusiva como uma pintura mas que não custasse uma pequena fortuna? Acertou naturalmente quem disse gravura; porém errou quem afirmou que Volpi em algum momento de sua vida produziu a partir de suas mãos, uma única matriz,  seja ela em madeira (xilogravura), metal (gravura em metal)  ou pedra (litogravura) para impressão de alguma obra gravada. Essa informação pode parecer surpreendente para aqueles poucos familiarizados com a obra do artista  porém foi confirmada pelo presidente do Instituto Volpi, Pedro Mastrobuono a este site, quando certa vez lhe enviei a imagem de uma gravura assinada por Volpi solicitando informações sobre sua autenticidade.

 

"Sem título", uma das primeiras litografias coloridas da década de 70, reproduzidas a partir de cromo original para ser autografada e presenteada aos amigos e visitantes do ateliê de Alfredo Volpi. Observa-se uma clara diferença de assinaturas.

“Sem título”, uma das primeiras litografias coloridas da década de 70, reproduzidas a partir de cromo original para ser autografada e presenteada aos amigos e visitantes do ateliê de Alfredo Volpi. Observa-se uma clara diferença com a assinatura da obra abaixo.

 

"Sem título", serigrafia colorida impressa nessa década, reproduzindo a litografia feita a partir de cromo nos anos 70 (foto acima). Observa-se uma clara diferença de assinaturas.

“Sem título”, serigrafia colorida impressa nessa década, reproduzindo a litografia feita a partir de cromo nos anos 70 (foto acima). Observa-se uma clara diferença de assinaturas.

Segundo Pedro, “O Instituto Volpi desenvolveu o catálogo raisonné do artista, obedecendo a critérios museológicos internacionais, que incluem a linguagem controlada e conceitos pré-estabelecidos. Dentre tais conceitos, encontra-se a definição de gravura enquanto obra produzida por um artista gravador, que através de uma incisão, seja na madeira ou na placa de metal,  grava uma imagem, daí o termo gravura. Portanto, seja uma xilogravura, uma gravura em metal  ou em qualquer outra modalidade, em obediência ao vocabulário controlado e aos conceitos internacionais, só será considerada uma gravura registrável em catálogo raisonné aquela na qual a matriz foi produzida pelo artista e, ainda, que seja obtida através de prensa manual.”

Pedro Mastrobuono, Presidente do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna. Foto de Denise Andrade.

Pedro Mastrobuono, Presidente do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna. Foto de Denise Andrade.

Pedro Mastrobuono continua: “Alfredo Volpi nunca fez incisão em madeira (xilogravura), tampouco trabalhou com ácidos em uma matriz de pedra ou metal. Chegou inclusive a dar   entrevistas confirmando que nunca atuou como gravador. Na realidade, o artista permitiu que alguns de seus quadros fossem fotografados e,  a partir do cromo obtido no processo fotográfico, produzia-se  um fotolito que seguia para a gráfica onde então eram produzidas as serigrafias e impressões off-set. Note-se que o artista não trabalhou ele próprio na matriz. Tampouco foram impressas em prensas manuais e sim em gráficas industriais. Assim, não há como denominar tais impressões como gravuras artísticas, nem como atribuir número de tombo para essas reproduções serigráficas ou off-set, ainda que autorizadas e autografadas pelo artista.”

Faz sentido a explicação. Afinal a gravura é considerada uma obra de arte original porém múltipla, criada a partir de uma chapa-matriz original gravada pessoalmente pelo artista para uma impressão manual e que depois é destruída para que não haja novas reimpressões.  Ainda que Volpi trabalhasse numa chapa de metal reproduzindo com perfeição uma pintura a óleo de sua autoria, ele nada mais estaria fazendo do que uma cópia de seu próprio original. No entanto, nem isso ocorreu porque as impressões em papel que encontramos do artista foram feitas em processos de reprodução mecânico-industriais a partir de cromos das obras originais e por isso não possuem qualquer valor artístico ou mesmo poderiam ser consideradas  obras originais do artista. Ao contrário de uma gravura em metal que classicamente possui uma tiragem de 99 exemplares – número considerado limite para uma boa impressão da chapa sem perda da qualidade da gravação do desenho – as impressões de Volpi encontradas em todo o mercado não passam de reproduções industriais, sem qualquer valor artístico intrínseco. Poderíamos comparar essas impressões vendidas como um pôster autografado pelo próprio artista. Nada além disso.

Além da Litográfica Mattavelli S.A. que imprimia as gravuras de Volpi em São Paulo, seguindo o processo industrial de impressão off-set sobre papel e impressão litográfica sobre tela, no Rio de Janeiro a Editora Graphos também produziu várias edições a partir dos cromos destas gravuras em impressão off-set e que depois eram enviadas para Volpi assinar, sendo que o artista ficava com parte da tiragem. Após sua morte em 1988, incrivelmente o mercado tem sido inundado por um número expressivo de impressões off-set assinadas a lápis pelo artista: gravuras, litogravuras, gravuras em metal, xilogravuras, enfim, as mais diferentes denominações são dadas a estas reproduções postas à venda  e infelizmente adquiridas por colecionadores de boa fé que desconhecem a informação de que ele jamais fez gravura e que na verdade o quê estão comprando é um pôster autografado e sem a menor comprovação documental de que a assinatura seja original do artista.

 

"Sem título", gravura em impressão off-set presenteada ao poeta amazonenses Thiago de Mello.

“Sem título”, gravura em impressão off-set presenteada por Volpi ao poeta amazonense Thiago de Mello.

São encontradas também no mercado, porém com muito mais raridade, algumas gravuras em metal executas pela artista gravadora Maria Pérez Sola, argentina radicada em São Paulo e amiga de Volpi. Segundo Maria Pérez, Volpi lhe pediu que se reproduzisse uma gravura sua em metal, missão cumprida pela artista que produziu a chapa idêntica à obra original de Volpi que depois recebeu sua assinatura. Essas gravuras, feitas na mais apurada técnica desta grande gravadora, atesta mais uma vez o princípio de autoria: Volpi apenas disse-lhe a paleta de cores a ser usada mas jamais tocou na matriz feita em sua totalidade por Maria Pérez Sola. Portanto o que se produziu mais uma vez, não foi uma criação original mas sim uma cópia de uma obra já existente,  cópia de uma obra original em têmpera ou óleo, porém reproduzida sobre a forma de uma gravura em metal.

Por isso, é importante a todos os amantes da gravura que conheçam essa história sobre a origem destas gravuras de Volpi e não invistam o seu dinheiro em vão. O quê está se vendendo portanto no mercado de arte não são gravuras originais de Volpi até porque elas não existem. Tratam-se simplesmente de reproduções off-set impressas nos mais variados tipos de papéis. Sobre essas impressões, Pedro Mastruobono nos informa ainda: “Foram produzidas entre 50 e 100 obras de Volpi reproduzidas nesse  formato, quase todas a partir do original em têmpera sobre tela, entre o final  dos anos 1970 e o começo da década de 1980. A ideia nasceu no próprio ateliê do Volpi, por sugestão de alguns parentes e amigos. Depois os próprios colecionadores mais assíduos também estimularam, pois quadros de suas coleções seriam reproduzidos também. Salvo engano, eram produzidas na gráfica  dos Mattavelli,  que são parentes dele. Volpi não visava lucro com isso. Dava quase todas de presente, nunca soube que as vendesse.”

 

"Sem titulo", imagem que traz em seu verso a informação "Reprodução em tela, pelo processo exclusivo da Litografia Mattavelli Ltda.

“Sem titulo”, imagem que traz em seu verso a informação “Reprodução em tela, pelo processo exclusivo da Litografia Mattavelli S.A.”

 

Verso da obra onde se vê o processo exclusivo da litografia Mattavelli sobre impressão sobre tela, acompanhanda de um cartão com mensagem de natal assinada por Volpi.

Verso da obra onde se vê o processo exclusivo de impressão sobre tela da Litografia Mattavelli, acompanhada de um cartão com mensagem de natal assinada por Volpi.

Para ilustrar a declaração acima, numa matéria do Jornal do Brasil de 02/12/1982, o crítico de arte Wilson Coutinho nos revela uma história divertida do anedotário Volpiniano: certa vez, quando foi homenageado pelo Governador de São Paulo,  Paulo Egydio, por ocasião de seus 80 anos, Volpi foi convidado para ir ao Palácio, convite que recusou. Convidou então o Governador que fosse até sua casa no Cambuci para comer salada e macarronada, convite plenamente aceito pelo político que após o almoço ainda lhe pediu um autógrafo em uma de suas serigrafias impressas. Ao assiná-la à lápis, Volpi ainda perguntou: “Qual seu nome mesmo?” Essa história ilustra de forma simples a desimportância que o artista sempre deu às relações com as pessoas poderosas ou que poderiam de alguma forma lhe ajudar. Seus colecionadores eram seus amigos e por isso, não estava nem um pouco interessado em agradar ou desagradar a ninguém. Queria sempre ser ele mesmo, um simples pintor da cor, original em sua essência e honesto com seu passado.

Pedro também destaca a figura humana exemplar de Alfredo Volpi e sua generosidade com a família e os amigos: “Aliás, quem o conheceu sabe muito bem que Volpi era desapegado, um ser humano extremamente generoso. Durante anos, deixou de corrigir os preços que praticava no ateliê, mesmo em época de inflação. Volpi era humilde, nada ganancioso. Ao contrário, não tinha uma galeria que o representasse, mesmo quando já bastante famoso. Pintava e vendia para um grupo de amigos, seus amigos pessoais. Tais clientes/amigos o freqüentavam semanalmente. Era com eles que comentava sobre qual composição estava desenvolvendo. Alfredo Volpi é o único caso que conheço onde um quadro ainda em branco já estava vendido previamente. Havia uma fila. Quando Volpi terminava de fixar o linho na estrutura de madeira, escrevia o nome do colecionador/amigo no verso da tela. Volpi não dava quadros para museus. Não adulava galeristas ou marchands. Não se preocupava com marketing. E acima de tudo, não falava dele próprio. Algo quase irreconciliável com o comportamento da maioria esmagadora dos artistas, que não resistem à compulsão de falar de si ou das respectivas obras artísticas.” 

Alfredo Volpi foi um ser humano notável, um humanista em sua essência e generoso com todos. A idéia de se reproduzir em off-set  suas obras para presentar aos amigos esses posters foi apenas mais um dos belos exemplos de sua generosidade mas que acabou transformando-se após a sua morte, numa indústria para se ganhar dinheiro encima da boa fé de muitos admiradores de sua obra.

Julio Reis

Egidio Sadeler (1570-1629) e o Renascimento Dürer

  A gravura a buril acima, "Cabeça de Anjo olhando para o alto" foi executada por Egídio Sadeler (1570-1629) baseado em um desenho de Albrecht Dürer, agora na coleção do Graphische Sammlung Albertina, em Viena. Trata-se de uma das três gravuras de cabeças ... leia mais

© Copyright 2010 - Todos os direitos reservados - Made with WordPress